[Outra história] Eu sei que acabou
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[Outra história] Eu sei que acabou

Pedro Antunes

19 de agosto de 2016 | 10h47

Ouça enquanto lê: 

Eu sei que acabou

Morrissey canta o fim enquanto essas linhas são escritas. “Eu sei que acabou. Talvez nunca tenha começado”, vocifera ele em I Know It’s Over. Acabou? Gostaria de dizer que não. Que vamos seguir em frente. Que dividimos um amor grande demais para ser deixado para trás por uma bobagem como essa.

Entendo, contudo, querida, que não se trata de uma bobagem qualquer. Fiz algo muito sério. Tão grave, tão grave, que é impossível pedir perdão pelo erro cometido. Talvez tenha sido algo subconsciente, entende? Posso dizer que me assustei demais com o que criamos enquanto estivemos juntos. Não é só tesão. É amor, meu bem.

Ou era.

morrissey

Foram poucos meses, é bem verdade. Dois, três? Não sei direito quando marcamos o início da nossa história. Talvez tenha sido na primeira conversa de bar? Aquela na qual você achava que eu paquerava a sua amiga? Justamente naquela noite na qual eu já pegava as minhas coisas para ir embora quando você apareceu. Lembra-se de como deixei a mochila e os casacos de lado para voltar ao papo? Do que falávamos, mesmo? Não lembro. Lembro só de olhar para você e me perder dentro da própria imaginação. Queria saber qual seria o gosto do seu beijo, a textura dos seus lábios, conhecer o cheiro do seu cabelo.

Ou marcamos do início daquilo que podemos chamar de “a gente” quando criei coragem e chamei você para sair? Lembra-se daquele encontro? Cheguei tarde demais do trabalho e você achou que desistiria? Fomos naquele outro bar perto da sua casa. “É um dos poucos que fica aberto até tarde”, eu havia dito. Ninguém poderia esperar que lá dentro a trilha sonora era composta por hits de axé como Ivete Sangalo e Daniela Mercury, intercalados por Mutantes e Rita Lee. Esquizofrenicamente engraçado, para dizer o mínimo. Rimos juntos disso algumas vezes.

Talvez tenhamos começado de fato quando, numa noite de sábado, os dois já mais para lá do que para cá, nos beijamos naquela praça. Quando você olhou para mim (com aqueles olhos que eu tanto amei), e me disse: “É isso, estamos juntos, Carlos?” Recordo-me de apenas confirmar com a cabeça, enquanto os olhos enchiam-se de lágrimas.

Foi uma história bonita, devemos admitir isso. Deveríamos ganhar alguma espécie de prêmio pelo relacionamento mais fulminante que a história da humanidade já viu. Tão rápido quanto começou, acabou. Pá pum. Discutimos uma relação iniciante logo no dia seguinte ao primeiro beijo, antes mesmo da primeira transa. Pisamos tão fundo no acelerador que não conseguimos frear a tempo da primeira adversidade. Nosso amor capotou como um carro de stock car desgovernado.

Talvez pela velocidade toda não tenhamos sido capazes de criar um laço forte entre a gente capaz de suportar esse erro tão grave. Sim, Morrissey, infelizmente acabou.

Vou deixar essa lenga-lenga de lado e confessar logo o crime.

Carol, assisti ao último episódio de Game of Thrones sem você.

Sinto muito e adeus.

Carlos

(Todas as sextas-feiras, o Outra coisa traz o Outra história, uma reunião de contos, crônicas, histórias e ficções sobre a vida, a morte, ao amor e o desamor)

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