[Outra história] Esse texto não é para você
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[Outra história] Esse texto não é para você

Pedro Antunes

13 de setembro de 2016 | 14h02

Ouça enquanto lê:

Preciso confessar uma coisa.

Sei que grande parte dos textos que você escreve são para mim. Não reaja assim, surpreso, nem se faça de dissimulado.

No fundo, sempre soubemos que isso acontecia. Você está presente nos meus textos. Eu estou presente nos seus.

Esse texto, contudo, não é para você. E espero que, com ele, eu consiga me livrar daquilo tudo o que sinto por você.

Esse texto não é para você porque não éramos tão geniais a ponto da sua presença imaginária poluir as minhas ideias por tanto tempo. Você tem ocupado um espacinho da minha cabeça (e do meu coração, vou confessar), bem no fundo, no qual é difícil de alcançar para limpar.

Você é isso, pronto!: você é aquela teia de aranha grudada no canto onde paredes e teto se encontram em um quarto vazio e sem uso. Ninguém repara que está lá, a não ser eu, mesma. Vejo aquilo, mas sou incapaz de tirar de lá. E tudo o que escrevo acaba, invariavelmente, voltando à obsessão com aquela teia de aranha intocada.

Esse texto não é para você porque ninguém tem nada a ver com a nossa vida. E é hora de deixar isso para trás. Não éramos perfeitos um para o outro como todo mundo poderia supor. E, lendo o texto que Gregório escreveu sobre a Clarice, percebi o quanto o nosso amor foi vazio e sem graça.

Cena do filme Desculpe o Transtorno, com Gregório Duvivier e Clarice Falcão

Cena do filme Desculpe o Transtorno, com Gregório Duvivier e Clarice Falcão

Não nos conhecemos em uma situação curiosa – você não achou graça da minha descoordenação motora numa aula de jazz –, não nos completamos como partes de um relógio, você nunca me mostrou uma música que tenha me parecido minimamente interessante.

Às vezes me pergunto se a sua nova namorada aguenta aquela distorção e barulheira das músicas indies que você curte? Tenho certeza de que não.

Esse texto não é para você porque sabíamos das escapulidas que o outro dava. E, vamos confessar, nunca ligamos muito para isso. Você tinha seus casos. Eu tinha os meus. Nenhum  dos dois se importava com aquelas noites de desencontro nas quais aproveitávamos a ausência do outro para ter uma boa transa com alguém mais interessante.

Esse texto não é para você porque, no fim, a melhor coisa que fiz foi dizer “acabou”. Fiz muitas burradas nessa vida, você sabe, mas essa não foi uma delas. Doeu, como sempre deve ser. Vi você sofrer, e isso me machucou também.

Depois do término, senti-me deslocada da realidade por alguns dias. Era como se um pedaço realmente faltasse dentro de mim. Logo, esse pedaço se preencheu por outros amores. E eles me mostraram como não deveríamos existir enquanto casal.

Não éramos uma dupla. Não nos preenchíamos. Nunca senti algo capaz de me fazer subir pelas paredes de saudade ou sentir ciúme daquela garota da firma por quem você sempre se engraçou. Apenas coexistíamos porque parecia algo que nenhum dos dois tinha coragem de dizer o contrário.

Ficou aquela teia de aranha.

Teia essa que estou limpando com esse texto que não é para você. E o ponto final que virá daqui a pouco fará esse serviço. É a despedida. A partir da próxima semana, tenho uma porção de novas histórias para contar que não envolvem a sua presença.

Aceite isso e faça o mesmo.

Esse texto é para você. É claro que é. É o último, contudo. Nunca fomos Gregório e Clarice. E nosso filme, longo e insosso, terminaria vaiado na sessão de estreia – se alguém tivesse coragem de chegar até os créditos finais.

(Excepcionalmente, o Outra história dessa semana chega ao Outra coisa numa terça-feira calorenta. Um apanhado de ideias ruminadas desde ontem, mas que só ganharam alguma forma depois de duas latinhas de Red Bull gelado)

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