[Outra história] Crise dos 30 anos
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[Outra história] Crise dos 30 anos

Pedro Antunes

28 Outubro 2016 | 13h31

Ouça enquanto lê:

A campainha toca.

E isso, por si só, já é estranho. Ninguém mais visita outra pessoa sem avisá-la com antecedência. Celulares, mensagens de texto, WhatsApp e tudo mais estão aí para isso, afinal.

Do outro lado do olho mágico, um sujeito de terno bege,  uns números maior do que seu corpo, uma gravata marrom, maleta de couro na mão direita e um gel ensebando o cabelo para trás.

– Pois não? – digo, ao abrir a porta.

– Senhor Pedro? Podemos conversar?

– Sobre o que se trata?

– Sobre a sua chegada aos 30. Temos muito a tratar.

Deixei ele entrar.

O homem de estatura média caminhou em direção ao sofá, espantando os gatos, assustados com aquele estranho. Afrouxou a gravata e sorriu.

– Que bom que você abriu logo. Normalmente, as pessoas não entendem direito quem eu sou.

– Ainda não sei quem você é.

– Bom, sou o representante da Crise dos Trinta. Hoje é seu aniversário, certo?

The National

The National

Ele retira um papel de sua maleta. Era minha certidão de nascimento.

– É isso, mesmo. Nascido em 26 de outubro de 1986, às 0h45. Uau, com esse horário deve ser difícil fazer seu mapa astral, né? Com toda a história de horário de verão, horas a mais e a menos.

Eu ri. De fato, era.

O sujeito começou a tirar mais alguns papéis da maleta, contratos de letras miúdas.

– Sei que está calor, mas você por um acaso não faria um cafézinho para a gente?

Enquanto o café era passado, o sujeito olhava para o apartamento apertado, para os poucos móveis que preenchiam a sala. Havia pouca coisa ali ainda e as palavras ditas no espaço ainda ecoavam nas paredes vazias.

Acendo um cigarro enquanto espero pelo café.

– Vejo que você começou a crise dos 30 mais cedo do que as outras pessoas. Mudou para cá há pouco tempo?

– Há alguns meses, na verdade – digo, enquanto solto a fumaça da primeira tragada.

– Interessante. Geralmente esse desejo por tantas mudanças chega depois da minha visita.

– É, talvez eu não precise muito de você para isso – rebati.

– Possivelmente, não. Mas é meu trabalho. Visitar quem completa 30 anos para indicar o modus operanti da crise. Temos uma reputação a zelar. E a Crise dos Trinta é uma instituição muito tradicional.

O café fica pronto. O homem sorve o conteúdo da xícara de forma rápida, quase aflita.

– Desculpe, mas estou com pressa. Há muitos aniversariantes completando 30 anos aqui na região. Então pretendo ser rápido.

O homem coloca alguns papéis na mesa de centro, pede para rubricá-los e assinar no fim.

É um contrato. Oficialmente entraria na Crise dos Trinta.

– Não se preocupe. A Crise é dura, mas passa logo –, garante ele.

– Estou achando tudo isso muito clichê, na verdade – digo.

Ele ri, pega a xícara de café e, ao percebê-la fazia, pede por mais um pouco da bebida.

– Nós não gostamos do termo clichê, preferimos dizer que somos uma companhia tradicional.

Fumo mais um cigarro enquanto leio as letrinhas pequenas no contrato. Não é necessário pagar nada. Eles só pedem para que o contratante, no caso eu, siga exatamente o comportamento adequado para aquele que passa pela tal crise.

– Você precisa sentir uma necessidade absurda de mudar tudo. Nada vai te deixar feliz – diz ele.

O primeiro período é de reflexão, segundo o documento. O contratante deve passar dias, meses, introspectivo. Repensar os passos. Entender como chegou aos 30 anos. Por natureza, baterá em você um sentimento de desajuste. Algo, ou muito, não estará certo contigo.

Aí, chega o segundo passo. O contratante da Crise dos Trinta passa a mudar muitas de suas atitudes. Deve se inscrever em algum curso que nunca lhe fez muito sentido, como de astrologia para animais, ou coisas mais sensatas, como começar a nadar ou comprar uma bicicleta.

O terceiro passo, o melhor deles, é quando o primeiro e o segundo deles se anulam. E, então, pode-se começar a quarta década de vida em sua plenitude. Depois da introspecção e da mudança desvairada, o contratante entra num momento de paz. Com ele. Com o mundo.

Passada adolescência e pós-adolescência, também conhecida como os 20 e poucos anos, vem um grande foda-se para o mundo. O contratante tem consciência das bobagens que fez, sabe que fará um monte delas nos próximos anos, mas aceitou-as ou começou a entender o seu lugar no mundo.

– Esse documento significa que vou passar por um período difícil e depois vou melhorar? – pergunto.

– Essa é a ideia, garoto.

– Ótimo – e comecei a rubricar os documentos todos.

– Você gostaria de fazer alguma pergunta sobre esse período?

– Acho que prefiro não saber de nada sobre o meu futuro – respondo.

– Bom, você quem sabe –, ele responde, enquanto começa a guardar os documentos e o restante da papelada na maleta. Uma cópia do contrato ficaria comigo.

O homem levanta-se e vai em direção à porta.

– Você me deixaria dizer somente uma coisa? – diz o sujeito.

– Claro, mas rápido que estou atrasado para o trabalho.

– Eu sei que você gosta daquele verso do The National, “you know I dreamed about you for twenty-nine years before I saw you”.

– E o que isso quer dizer? – respondo, confuso.

– Você já encontrou essa garota. Essa garota por quem você sonhou por 29 anos. É ela mesma que você está pensando. Meu conselho é não deixar essa moça escapar da sua vida. Ou você dará muito trabalho para o meu colega da Crise dos Quarenta, daqui a dez anos.

Ele sorri de um jeito verdadeiro. Antes de desaparecer pela porta, aperta a minha mão e se despede.

– Bom, eu vou indo. Tenho muito o que fazer. Ah, sim, já ia me esquecendo disso. Feliz aniversário.

(Quase em todas as sextas-feiras, o Outra Coisa se transforma em Outra História, um punhado de palavras digitadas na tentativa de esquecer que os 30 anos já chegaram)

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