O Rock in Rio, o beijo e o amor em tempos brutos
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O Rock in Rio, o beijo e o amor em tempos brutos

Pedro Antunes

19 de setembro de 2017 | 10h19

“Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”. Tem recado mais claro do que esse? 

O beijo entre Liniker e Johnny Hooker (Foto: Gabriel Sayão/Estadão)

São tempos brutos, loucos. Burros, também. Dias nos quais a sanidade é colocada à prova. Como germinar o amor em terreno árido, seco e rachado?

Por que amar incomoda? Deve ser difícil, mesmo, perceber a existência de um sentimento tão bonito quando se olha para dentro de si e percebe, apenas, rudeza e escuridão. A luz lhe parece estranha.

E vivemos dentro de bolhas, talvez, eu e você, o leitor que passa os olhos por essas linhas. Uma bolha na qual, abrigados entre os nossos, um beijo é um beijo. Beijam-se quem quiser, como quiser, quando quiser. E é lindo. Como é gostoso o sabor de um beijo molhado, pegado, a amado, seja esse amor intenso ou pueril.

Johnny Hooker e Liniker trocaram um beijo ao final de Flutua, a canção cujo verso foi citado acima, no início deste texto. Lindíssima canção sobre, oras, sobre amor.

Foi neste domingo, 17, em uma tarde gostosa na Cidade do Rock, no Rio de Janeiro. A música, belíssima. O beijo, ensaiado, arrancou aplausos. Foi uma performance política, falou-se de insatisfação com o governo atual, gritou-se por mudança. Público e artistas, em sintonia, pediram pela mesma transformação do País.

O beijo entre os dois intérpretes ao final daquela canção foi apenas aquilo, um beijo. A mensagem gritada era maior do que aquilo, pensei. Ingênuo, escrevi:

“Porque um beijo entre Hooker e Liniker, ao final do belo dueto de Flutua não deveria ser uma contravenção. Deveria ser o que é. Um beijo.”

O texto completo está aqui.

Com o texto publicado, supus que a reação viria por questões políticas. Afinal, o ódio cego e político impede o diálogo. Ler o que houve durante aquela apresentação seria demais para esses alguns desses cegos com olhos que enxergam, mas não veem.

A reação veio, mas por outro motivo.

A homofobia é maior do que a “politicofobia“.

As respostas que vieram não rebatiam à mensagem pelo resgate da Amazônia, não surgiram após a leitura dos gritos por uma troca de governo.

Elas chegaram, aos montes!, porque aqueles dois artistas trocaram um beijo.

Um beijo.

Um beijo que nunca deveria ser mais do que isso.

Nas redes sociais, chuva de comentários vomitados. E em tempos brutos é assim: o ódio é tanto que enjoa, vomita-se essa massa cinza de rancor e cólera.

Gabriel Garcia Marques escreveu sobre os amores nos tempos do cólera. Adoraria dizer, meu caro Gabo, que a “cólera” mudou de significado mais literal. Deixou de ser uma doença bacteriana para se tornar trevas.

Vivemos em trevas.

É como se todos nós vivêssemos nesse enorme espaço escuro. Cada um tem, para si, uma vela nas mãos, na tentativa de trazer um pouco de luz em meio à escuridão, enxergar o próprio caminho e tentar iluminar o caminho de quem está próximo. Há quem prefira, conscientemente ou não, apagar a chama e viver no breu. Há quem lute para fazer a chama crescer – como é o caso de Liniker e Hooker, aliás.

Aqueles comentários raivosos vieram por todos os lados. Em redes sociais (nos perfis do Facebook do Estadão e do Estadão Cultura) e, veja só, até 12 pessoas tiveram a coragem de chegar até o campo de comentários ao final do texto para contradizer o que estava escrito ali.

Era um pecado, afinal.

Não, senhores, não era.

Era um beijo. A porcaria de um beijo. E ponto.

Domingo à noite, li os comentários. Não todos, porque ódio demais machuca, afeta, inebria.

E prefiro o amor – que, no fim das contas, foi o grande tema das canções expostas e bonitas de Johhnny Hooker, Liniker e Almério.

Poxa, amor, sabe?

Pois li. Não deveria, vão dizer aqueles que se aventuram eventualmente para as caixas de comentários em sites de massa.

Inocente, de novo, buscava entender qual seria o diálogo travado ali. E não havia diálogo, obviamente. Somente a tal massa cinzenta do ódio vomitada.

Calado, absorvi e pensei a respeito. Na segunda-feira, 18, o cruzado direto no queixo.

POFT, bateu. Caí.

A justiça concedeu uma liminar que permite tratar homossexualidade como doença.

Entende qual é o perigo que uma decisão como essa nas mesmas mãos raivosas que questionam a sexualidade de um repórter por reportar o que está diante dele – como se isso importasse, de qualquer maneira?

Gente que, sem querer se mostrar homofóbico, escreve “não achar bonito dois homens se beijando, mas que gostaria de ver duas gostosas no mesmo ato”.

(Vou ficar em silêncio por um tempo, porque é difícil conseguir recuperar a linha de raciocínio depois de tantos absurdos.)

De volta. Ao pensar em um festival de massa, como é o Rock in Rio, pensei que o problema seria política, não o beijo. Que, lá dentro, conviveriam aqueles que estão de um lado, de outro e no centro.

Lá, quem estava diante do palco, aplaudiu o beijo, fez seu grito político. A questão é o alcance que um Rock in Rio tem fora daquele microuniverso criado na Cidade do Rock é gigante. E aí, encontra-se as sombras que não vivem tão escondidas assim.

Há ainda quem viva na idade da pedra e, ao se chocar com a realidade, quer fazer o mundo andar para trás – a série Handmaid’s Tale não trata de um futuro tão distante e impossível, infelizmente.

O beijo ainda é, infelizmente, uma contravenção. Um grito heroico por uma igualdade que sempre deveria ter existido.

Amor. O amor não é doença.

Ele dói quando se tem o peito cheio do ódio.
São sentimentos díspares, opostos, um não existe com o outro.
E um se transforma no outro.
Machuca, né?
Dói ver o amor quando não se entender de fato o que é isso.

O amor não é simples, fácil de sentir. Magoa. Golpeia.
Dói, sim. Dói quando não é correspondido, quando se perde, quando se vai, quando se fecha a porta após um último adeus.

Prefiro, ainda assim, viver a dor de amor do que a dor de ódio.

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