Nevilton lança Adiante, o primeiro disco em quatro anos, para provar que “todo fim é um recomeço”; ouça
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Nevilton lança Adiante, o primeiro disco em quatro anos, para provar que “todo fim é um recomeço”; ouça

Pedro Antunes

24 Novembro 2017 | 09h53

É das certezas mais primitivas, não é?
Todo fim é, de fato, um recomeço.
A vida é cíclica desde sempre.
O sol vem e se vai. A lua chega e se despede.
O contemporâneo tornou as relações mais frágeis, é verdade, mas a vida segue o mesmo ritmo.
Fins e começos.

Adiante é o primeiro disco lançado por Nevilton, a banda de Nevilton de Alencar, em quatro anos.

Banda Nevilton (Foto: Arquivo pessoal)

O fim de um hiato.
E o recomeço de uma jornada que garantiu ao rapaz de Umuarana, cidade do noroeste do Paraná, duas indicações ao Grammy Latino e reconhecimento, na última virada de década, como um dos nomes mais interessantes do indie nacional.

E talvez nada romantizado tenha atingido Nevilton nesse período de quatro anos entre Sacode!, de 2013, e Adiante, lançado nesta sexta-feira, 24, com exclusividade no blog Outra Coisa.

Ele, em um texto de apresentação do disco, publicado no site oficial, diz que não.

“Tudo o que eu queria é que todo esse tempo para um próximo disco fosse apenas ‘pressão para fazer um disco ainda melhor”, escreve ele, e segue, “alguma loucura de superação, bloqueio criativo, crise com estilo de vida e autocontrole nessa vida maluca.”

“Mas não foi nada disso”, conclui.

O que tragou Nevilton foi o próprio furacão do tempo do hoje. É o tal corre. É o relógio que não para.

Quatro anos parecem, às vezes, ser um só.

Com a saída do baterista Éder Chapolla, logo após as gravações de Sacode!, o power trio Nevilton se tornou um duo formado pelo guitarrista e vocalista que dá nome ao grupo e o baixista Tiago Lobão. Seguiram com shows por festivais independentes, alternando-se de formação.

Em 2013, por exemplo, em uma apresentação no Vaca Amarela, um dos bons festivais independentes realizados em Goiânia, o duo teve a companhia de Bruno Castro nas baquetas.

Naquela noite de novembro, após uma apresentação enérgica, em um dos palcos do Centro Cultural Martin Cererê, Nevilton, no auge da excitação do pós-show, disse uma das mais divertidas frases ouvidas pelo autor do blog durante o festival: 

“Não queremos ser a Claudia Leitte”, falou. “Queremos é fazer show, pagar as nossas contas”.

Há quatro anos, o meme de “viver para pagar boletos” sequer existia, mas Nevilton já previa a piada com a corrida da existência moderna contra as contas que não param de chegar nas nossas caixas de correio.

O fato é que ninguém precisa ser uma Claudia Leitte – e ainda bem. (Veja só, Nevilton, o quanto aconteceu com a cantora desde aquele ano de 2013?)

O importante é entender seu próprio caminho e seu objetivo artístico. Foi isso que Nevilton quis dizer. E foi o que fez a partir dali.

Quatro anos passam voando, meu caro Nevilton. E é chegada a hora de seguir adiante.

Capa de ‘Adiante’, novo disco do Nevilton

Com Adiante, ele, Tiago Lobão e o baterista André Dea, estudam a passagem do tempo. Principalmente, a nossa relação com o relógio que teima em correr. Às vezes pro bem. Às vezes pro mal.

“Todo fim é um novo começo, mas eu não peço para recomeçar /
Quando é difícil é que me reconheço /
Sei cada passo que tive que dar /
Se todo fim é m novo começo /
Eu nunca peço para recomeça”, diz Todo Fim, uma canção de pouco mais de 1 minuto de duração, responsável por abrir Adiante.

Está tudo ali no cartão de visitas, uma mensagem ancorada em guitarras pesadíssimas.

Nevilton, a banda, tem a capacidade de unir o peso do instrumento com a candura dos seus versos. É quando acertam em cheio.

Com Lua e Sol – mais uma referência temporal, veja só – ele canta o amor impossível. O trio é acompanhado dos teclados de Marconi de Moraes e o sax barítono do ótimo Esdras Nogueira (que lançou um disco ao vivo em outubro e pode ser assistido aqui).

O disco segue por Amarela, uma deliciosa e agridoce canção autobiográfica sobre a ausência e, claro, sobre a passagem do tempo.

“Vai amanhecer de novo. E eu aqui, caderno caneta, um trago e um café”. Faltam você e aquele verso perfeito para fechar um refrão – e, talvez, elas sejam a mesma coisa.

A ausência cantada por Nevilton está naquela última peça do quebra-cabeças para que ele (e cada um de nós) se sinta completo. Enquanto isso, o ciclo, o dia e a noite, segue seu curso implacável. 

É a angústia do descompasso com o tempo. Quando ele segue seu andamento imutável e, nós, incompletos, só queremos que ele vá mais devagar ou acelere.

Na lista de canções imprescindíveis deste disco estão ainda Melhorar (o primeiro single e uma rajada de otimismo), Doce de Jaboticaba (deliciosamente doce), Abraço (que conta com violões e um solinho de flauta) e Adiante (com os vocais de Jajá Cardoso, do Vivendo do Ócio, e Thadeu Meneghini, dos Vespas Mandarinas).

Talvez não fosse intencional examinar o tempo, mas Nevilton o faz. É um processo dolorido, às vezes. Noutras, é reconfortante.

Adiante, o disco, começa com a música Todo Fim. E chega ao fim com Novo Começo.

Todo fim é um recomeço, afinal. 

Ouça Adiante: