Me and The Plant encontra o caminho entre a razão e o misticismo em segundo disco; ouça
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Me and The Plant encontra o caminho entre a razão e o misticismo em segundo disco; ouça

Pedro Antunes

10 de novembro de 2017 | 06h00

Na porta do seu então apartamento nos Jardins, Vítor Patalano mantinha uma plantinha para receber os visitantes. Era quase possível perceber um olhar desconfiado do vegetal frente aos estranhos convidados que ali chegavam naquela tarde de 2011.

Vitor Patalano, do Me & The Plant (Crédito: Renato Stockler)

Vindo do Rio de Janeiro, Patalano dava início ali ao projeto Me & The Plant, com um disco de estreia The Romantic Journeys of Pollen, lançado poucos dias antes.

Até então, o rosto de Patalano era quase desconhecido. Quem “falava” pela banda em trocas de e-mails e no site oficial do grupo era a Planta, a grande protagonista do trabalho que reverberava como um Neil Young nascido num ponto distante e árido ao sul do Trópico de Capricórnio, com versos em inglês e um violão arisco quase sempre em primeiro plano.

Mesmo com 39 anos, Patalano estreava na música de fato. Sob a tutela do produtor Alexandre Kassin, montou uma banda de artistas do Rio de Janeiro para aquele primeiro trabalho – Gabriel Bubu (da banda Do Amor), Rodrigo Barba (Los Hermanos) e Marcos Lobato (O Rappa) – para aquelas 13 faixas.

São seis anos desde aquele flerte com a música. E o Me & The Plant seguiu um tempo próprio. Sem a pressa do contemporâneo, como se a velocidade adotada pela banda – ou Patalano – fosse outra.

Se aquela plantinha ao lado do apartamento de número 4 representasse o primeiro álbum do Me & The Plant, o segundo, lançado com uma apresentação no auditório do Sesc Vila Mariana, nesta sexta-feira, 10, às 20h30, é uma árvore robusta.

Mithras Lab é lançado pelo selo independente Balaclava Records já está disponível no site oficial da banda, cuja formação agora é outra, toda paulista. A chegada nas plataformas digitais deve ocorrer em breve segundo o artista – e um vinil duplo também está nos planos de Patalano (e, talvez, da planta).

E Patalano é movido a ambientes, tal qual as plantas – em mais uma curiosa semelhança à ideia conceitual de que o grupo inclui ele e um vegetal. The Romantic Journeys of Pollen surgiu durante uma viagem para a Patagônia, no extremo sul do continente americano. Daí a aridez alt-country de algumas das músicas daquele disco.

As canções também eram criadas primariamente em um violão tocado baixinho para não incomodar os vizinhos. Por isso, as canções ali parecem mais contidas. “Eu era uma figura folclórica naquele prédio”, relembra Patalano. “Aquela limitação espacial e de volume se refletiu no disco.”

Mithras Lab, discão duplo, com toda a coragem de propor uma narrativa em tempos das playlists, é o oposto do antecessor. É a expansão em forma de música, de um artista que deixou o espaço de paredes finas e ganhou um estúdio próprio nos fundos do El Rocha, comandado pelo Fernando Sanchez, a quem Patalano chama de “guru”.

Capa de Mithras Lab, novo disco do Me & The Plant

Toda a família Sanchez participa do disco, aliás – além de Fernando, que assina a mixagem, os créditos do trabalho apresentam Daniel Ganjaman no teclado hammond e Mauricio Takara na bateria e na modulação.

“E, de repente, eu estava em um estúdio. Eu podia tocar a guitarra no volume que eu quisesse”, diz Patalano. “Era como se eu fosse uma criança em uma viagem para a Disney. Com isso, as músicas puderem ser iniciadas em diferentes pontos de partida”, explica ele.

No prolongado processo de composição do segundo disco, o violão perdeu o seu espaço de base para a criação das músicas para outras plataformas, como a guitarra, o baixo, o teclado e o piano. E, com isso, explora novas sonoridades e ritmos.

Com um estúdio à sua disposição, Patalano deixou Mithras Lab crescer. Expandiu-se inclusive para a Catedral da Sé, em São Paulo, que foi usada para criar as reverberações e ecos da música Requiem.

Também ganhou um conceito: Mithras é o deus Mitra, da mitologia persa e adotado, posteriormente, pelos romanos. Cada disco do álbum duplo representa a dualidade do que é místico (o primeiro) e o que é científico (o segundo). E, ao apresentar as duas partes, o Me & The Plant propõe o rompimento da dicotomia. “Para mim, queria a reconciliação entre os dois universos”, ele explica.

Em diferentes momentos da entrevista, Patalano cita a ideia da passagem do tempo – como a humanidade se distingue dos reinos vegetal e animal por ser dividi-lo. Ele, enquanto vê o mundo correr atrás do relógio, prefere esperar e seguir seu próprio ritmo. Como uma planta.

“Me entreguei à contemplação”, explica.

Ouça Mithras Lab (disco 1):

Ouça Mithras Lab (disco 2):

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