Mano Brown, do Racionais MC’s, estreia com disco solo e prova que os brutos também amam; ouça
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Mano Brown, do Racionais MC’s, estreia com disco solo e prova que os brutos também amam; ouça

Pedro Antunes

09 Dezembro 2016 | 15h04

‘Boogie Naipe’ chegou aos serviços de streaming e música digital nesta sexta-feira, 9

Mano Brown

Mano Brown

É Pedro Paulo, mas pode chamar de Mano. Mano Brown. Pela primeira vez solo, porém não só, um dos rostos do Racionais MC’s coloca a cara a tapa. Coloca o som na pista – e o que sai das caixas de som é um resgate às festas de black music que embalavam as tardes e noites de Pedro Paulo, hoje aos 46 anos, na juventude.

Brown colocou no mundo Boogie Naipe, álbum sem o Racionais MC’s, grupo que fundou as bases do rap brasileiro nos anos 1990 com a cara fechada e as letras contundentes. Com Brown, KL Jay, Ice Blue e Edi Rock, o Racionais mostrou as feridas que, muitas vezes, o Brasil não queria ver. Cantou o drama, versou a dor, bateu no racismo, na injustiça social e na mazelas transformadas pela classe média e alta em poeira a ser varrida para baixo do tapete.

A mensagem dos rappers, ao longo de seis discos, foi ouvida. Bateu e voltou. Se, em muitos casos, o Brasil ainda tenta limpar as tais questões apontadas pelo Racionais com a vassoura e escondê-las, agora é mais difícil. O rap nacional é outro, é voz ativa e forte.

De 1988, quando o Racionais nasceu, até 2016, muita gente surgiu, cantou, vociferou sobre suas próprias questões – e dos outros também. Hoje, há espaço para Emicida, Criolo, Rico Dalassam, Black Alien, Projota, entre tantos nomes de destaque. Os limites do rap foram para as cucuias. Novos sons, rostos não tão embrutecidos, tudo é permitido.

O rap mudou. O gênero, espalhado por Brown e sua trupe, é o reflexo da sociedade na qual está inserido – e não estamos mais em 1990.

Brown, rosto duro do quarteto, também sorri. E qual seria o problema disso?

Boogie Naipe foi gestado ao longo de dois anos – há pelo menos dez anos ele já lidava com a ideia de lançar um trabalho solo.

O rapper relutou até em colocar o próprio nome na capa do disco. Por fim, cedeu. Está lá, em azul neon, acima do título do trabalho.

É, afinal, um Brown. Novo? Imaginar que seja um “novo” Brown é uma estupidez. É, talvez, o velho Brown.

Nada de ir atrás das tendências do hip-hop contemporâneo – a fusão com o jazz de Kendrick Lamar, o flerte com a canção de Frank Ocean, ou que quer que seja.

Ao lado de Lino Kriss, que assina a produção do álbum ao lado do rapper-agora-também-cantor, Brown preferiu olhar para o passado. Buscar no groove de Marvin Gaye e outros sons que estouravam as caixas nos bailes que frequentava, com seus graves suingados, vocais perfeitos para serem cantados ao pé do ouvido daquele ou daquela.

Brown, em seu som, é movido pela nostalgia.

Brown, em seu som, é movido pelo… amor.

Capa de Boogie Naipe

Capa de Boogie Naipe

Grooveado, Brown canta e versa em Boogie Naipe.

A mesma mão que escreveu versos transformados em tiros de pistola contra a falsa sensação de que está tudo bem é capaz de apaziguar corações sofridos.

Mal de Amor, a terceira dentre as 22 (!) músicas do álbum, escancara o que Brown também é capaz de dizer.

“Quem levou a pior fui eu
Um dia fomos um só
Pensei
Que jogo louco é o amor
Quem ama sai perdedor”

A faixa tem participação de Kriss e Ellen Oléria, vencedora da primeira temporada de The Voice Brasil, é a primeira aventura de Brown pelo canto. Vozeirão grave atinge as notas agudas, embora não tão altas, em uma transição assustadoramente natural.

Brown, até quando é mais próximo daquele Brown que conhecemos, com os versos rápidos, incisivos, é outro. “Coração do seu malandro não guenta / Então, pelo amor, em tenta, morô?”, diz ele em Boa Noite São Paulo, uma canção cheia de climas e vozes de William Magalhães e Devasto.

“Natural” talvez seja a melhor maneira de traduzir esse disco, que pode causar estranhamento para qualquer alienado que não tenha ouvido o single do disco (Amor Distante), cujo clipe também já havia saído (assista abaixo). É natural para Brown. Ele vive em um hábitat sonoro que conhece, passeia pelo funk, soul, boogie.

No álbum, Amor Distante chega já no fim, quando a festa se aproxima do fim. E pode-se escolher qual versão quer ouvir. Há a versão “rap mix”, na qual são os versos cheios de dor recitados por Brown que ditam um ritmo confessional. A outra, chamada “Blues mix”, a guitarra chorosa faz o estrago sem precisar de uma só palavra.

O baile de Brown é suado, de corpo no corpo, de garotas “elétricas”. Em Mulher Elétrica, a pista é fervida sensualmente com a descrição da personagem título.

“3 da manhã, ela é só suor
Ela flerta, ela causa, ela é mó B.O
Ela é manta, é nagô, é ioruba
Ela é vingativa, ela é de mata
Ela canta, ela chora, ela multa
Ela compra, ela bebe e malandro paga
Ela… E a festa não acaba
Uns 10 na fita e eu também”

Com pouco mais de uma hora de festa, Brown sorri e ama, chora e sofre. Remexe suas cordas vocais a sabor do groove, versa em tons graves com a contundência que conhecemos.

Com seu baile, Brown coloca todos para dançar – inclusive as listas de melhores discos do ano, porque Boogie Naipe precisará estar entre eles.

Os brutos também amam. Sabem puxar a garota para a dançar, sabem conquistá-la com molejo nos quadris, beijos no pescoço suado e papos ao pé do ouvido.

Transante. Viciante. Para se ouvir em looping. E pá.

E quem diria que, neste louco 2016, os nossos corações partidos seriam acalantados por versos do feroz Mano Brown?

Ouça “Boogie Naipe”:

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