Maglore chega ao quarto disco, ‘Todas as Bandeiras’, e encara a aspereza do hoje com sorriso no rosto
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Maglore chega ao quarto disco, ‘Todas as Bandeiras’, e encara a aspereza do hoje com sorriso no rosto

Pedro Antunes

01 de setembro de 2017 | 10h07

‘Todas as Bandeiras’, lançado pela Deck, chega às plataformas nesta sexta-feira, 1

Maglore (Foto: Duane Carvalho)

Calma, é preciso ter calma.

É quase como se Teago Oliveira, voz e guitarra do Maglore, falasse consigo. Num fluxo de pensamento constante a marterlar em palavras e versos.

Mas Teago fala, na realidade, comigo. Com todos nós.

Ansiosos, velozes, instantâneos, vorazes.

Calma, é preciso ter calma.

Até mesmo para entender o mundo ao redor. Todas as Bandeiras, o quarto disco da banda, lançado nesta sexta-feira, 1, não é politicamente panfletário – é um álbum sobre o olhar para dentro  -, mas, pense bem: como a convivência seria com uma boa dose de mansidão?

Calma, é preciso ter calma.

Porque só estando em um paz que é possível enxergar o mundo ao redor com clareza. E Todas as Bandeiras propõe uma visão de mundo, um novo olhar de uma banda que se transformou desde III, o então último álbum.

Tornaram-se um quarteto. Ao seu lado, Teago tem agora  Lelo Brandão (guitarra), Lucas Oliveira (baixo) e Felipe Dieder (bateria)

E a calma, pedida escancaradamente na música de mesmo nome, foi também um mantra para Teago, ao enfrentar as desavenças que a vida lhe ofereceu no percurso entre III e Todas as Bandeiras.

E ela – sim, ainda estou falando da calma – é a responsável pelo entendimento próprio que o compositor expõe em seu quarto disco com a banda.

Temos, aqui, um Maglore raçudo, que dá sangue e suor, colhe as lágrimas e as traduz em canções. Seu melhor disco, disparadamente, é resultado de tropeços emocionais e topadas com os dedões do pé nas quinas da vida.

Principalmente, Todas as Bandeiras é um disco sobre vitórias, mesmo que elas ainda tenham gosto de derrotas. É o choro que, sim, pode se tornar em riso. É a dor que eventualmente volta a ser gozo. É um álbum com guitarras sem toneladas de filtros e efeitos para celebrar a vida.

Como se canta em Aquela Força, a parceria de Teago com Luiz Gabriel Lopes, do Graveola e dono de um lindo disco solo lançado neste ano, o Mana: “Você só vai saber vivendo / Você só vai saber sendo.”

Musicalmente, Maglore explora as possibilidades que a nova formação lhe oferece. Com mais uma guitarra e uma nova linha de baixo à disposição, a banda mergulha em novas cores e texturas, nunca deixando de lado a leveza que sempre lhe fez bem.

Há os ecos das influências, sons que emulam as décadas passadas, anos 1960 e 1970, houve quem ouvisse também Clube da Esquina ali. O que chama a atenção não é de onde vem o Maglore, contudo. É para onde a banda está indo.

Fundamentada no rock (sim, nesse grande gênero que inclui de nu metal ao soft rock), a banda experimenta e encontra a própria razão musical. Com a voz de Teago, a banda principalmente inspira leveza.

E é tão difícil encontrar a leveza em tempos ásperos, não é?

Maglore resume bem a vida, afinal: “Dor de amor e contas pra vencer”, como canta Teago na ótima Clonazepam 2mg.

E a dor, essa de amor que não é física mas parece ser, rege o disco. O álbum nasce de um momento pós-dor, digamos assim. Surge do entendimento da ausência, da compreensão de que mesmo sem a outra metade é possível sair para dançar – ouça a eletrizante Hoje Eu Vou Sair se lhe faltar pique para curtir a noite com os amigos nesta sexta-feira.

Teago havia dito que Todas as Bandeiras tinha ardor. E ele existe, mais escancaradamente em Eu Consegui, mas todo o discurso parte do presente, num olhar para um passado imutável. “O perigo mora no espelho, já não dá pra se repetir”, canta ele.

“Eu ainda estou sofrendo, mas uma hora isso vai passar”, diz a melancólica Quando Chove no Varal. E ela é seguida por Calma: “Calma, não vê que você já tá diferente  / E isso faz todo sentido agora / Mais tempo, pra pôr as coisas todas no lugar”

Mais do que espantar fantasmas – os erros passado estarão sempre ao seu lado, não importa o que se faça, o Maglore propõe a avaliação sobre si. O que importa, aqui, é o presente. E o futuro. Em ambos os casos, o sorriso deve sobressair. 

Todas as Bandeiras, o quarto disco dos caras, é um álbum para se colocar para tocar do início ao fim, refestelado em um sofá confortável. Sozinho ou acompanhado, não importa. Ouça-o em silêncio.
Ele apazigua.
Ele acalanta.
Ele acalma.

(O autor do blog publica, todos os dias, no Instagram, os drops Tem um Gato na Minha Vitrola, com dicas e avaliações sobre o melhor da nova música brasileira. Nos vemos por lá?) 

Ouça Todas as Bandeiras: 

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