Lembranças de uma noite com Daniel Johnston, o herói indie de Kurt Cobain, Beck e Wilco
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Lembranças de uma noite com Daniel Johnston, o herói indie de Kurt Cobain, Beck e Wilco

Pedro Antunes

27 de julho de 2017 | 11h43

Diagnosticado com esquizofrenia e transtorno bipolar, músico decide se aposentar e ganha, de presente, uma turnê na companhia daqueles que influenciou

Cena do documentário ‘The Devil and Daniel Johnston’ (Crédito: Complex Corporation)

Ele tocava a guitarra de forma vacilante. As mãos tremiam. Nervoso, perdia compassos, esquecia as entradas.

Não poderia saber o que se passava dentro da cabeça de Daniel Johnston naquele momento. Tormento, fantasmas. Ninguém poderia.

Ainda assim, aguardei até o fim da primeira música, Mask, em silêncio, apreensivo. Todos ao redor também.

Ao fazer soar o último acorde, ainda sozinho no palco, Johnston foi ovacionado. Sorriu bonito. Sorriso inocente. Agradeceu e se acalmou.

O Beco 203, localizado no Baixo Augusta, não estava lotado, mas um bom punhado de gente havia se reunido ali naquela noite de Poploag Gig, para ver de perto uma figura lendária.

Era noite de sexta-feira. Abril de 2013. A apresentação estava para ocorrer em março, mas foi cancelada. Johnston alegou questões de saúde. Sua cabeça não estava bem.

Ídolo de gente como Wilco, Kurt Cobain, Beck, entre tantos outros, Johnston é um tipo único.

Cobain costumava vestir uma camiseta com a capa do disco Hi, How Are You?, lançado em 1983.

Perseguiu a vida artística desde pequeno, com ilustrações e música. No Texas, registrou seus primeiros discos em fita K7 gravadas uma a uma, do começo ao fim, no órgão do sobrinho. Entregava suas músicas para jornalistas e músicos.

Era promissor. Mas o problema estava dentro dele.

De criação religiosa, Johnston é atormentado com a ideia de viver entre demônios. Quando a gravadora Elektra lhe ofereceu um bom contrato para gravar um disco, não aceitou o acordo por temer que o Metallica, banda que também integrava o casting do selo, iria matá-lo.

Depois de experimentar LSD pela primeira vez, nunca mais foi o mesmo. Via os mesmos demônios por todos os lugares. Eles se escondiam nos cantos mais escuros de sua cabeça.

Frágil, tinha rompantes de fuga da realidade. Um amor da adolescência quebrou seu coração. É para ela quem ele canta até hoje.

Aos 56 anos, ele percebeu que estar no palco é uma batalha perdida. Anunciou uma turnê de despedida.

Em outubro e novembro desse ano, fará suas últimas cinco performances. As bandas que o acompanharão serão formadas por músicos influenciados por ele.

Jeff Tweedy, do Wilco, estará ao lado de Johnston em Chicago, no dia 20 de outubro. Built to Spill o acompanhará na apresentação em Vancouver, em 10 de novembro.

Cena do documentário ‘The Devil and Daniel Johnston’ (Crédito: Complex Corporation)

Em 2005, o documentário The Devil and Daniel Johnston levou a história do músico às telas do festival de cinema em Sundance por Jeff Feuerzeig.

Depois do filme, Johnston experimentou mais uma porção de fama, mas não a suportou.

No Beco 203, sua apresentação durou menos de uma hora. Johnston tomava Coca-Cola e sorria entre as músicas. O nervosismo o abandonava.

Cantava com uma melancolia que escorria, transbordava por uma voz vacilante.

Quando Johnston bateu nas cordas o primeiro acorde de True Love Will Find In The End, arrepiei.

A música, de 1990, é tão atual quanto na época do lançamento.

Amores fugazes, passageiros, a era dos “contatinhos”. Frágeis, quase sempre desmantelados antes mesmo de se erguerem fortes.

A música entrou na trilha sonora de Medianeras, filme argentino lançado em 2011 – assista ao trecho abaixo.

Era uma prece, um pedido, uma oração otimista jogada ao vento. O verdadeiro amor vai encontrá-lo. “Não desista”, cantava Johnston. Para nós. Para mim. Para ele.

Ao meu lado, um amigo chorava sem tirar os olhos de Johnston. Deixava as lágrimas escorrerem, sem interromper o curso delas com as mãos.

Contido, guardei as minhas próprias lágrimas na manga da camisa de flanela.

O que consegui escrever sobre aquela noite está aqui, nesse texto publicado pela Rolling Stone Brasil.

Menos tenso do que quando entrou subiu ao palco, Johnston se despediu. Cantou para ela, aquele amor jovem que nunca existiu. E isso o acalmou. Acalmou a todos nós. 

Intenso. Curto. E choroso.  

Abaixo, uma versão de True Love Will Find You in the End, pelo Wilco.