Gorduratrans comenta as faixas do novo disco ‘Paroxismos’
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Gorduratrans comenta as faixas do novo disco ‘Paroxismos’

Pedro Antunes

12 de julho de 2017 | 05h00

Depois do ótimo e sujaço disco Repertório Infindável de Dolorosas Piadas, de 2015, o duo Gorduratrans, do Rio de Janeiro, lança Paroxismos, um segundo álbum, pelo selo Balaclava Records.

Banda carioca Gorduratrans (Foto: Lucas Santos)

Trata-se de uma evolução natural. A poluição sonora, tão pertinente no primeiro trabalho, se mantém. Talvez, mais polida, no sentido técnico da palavra. Paroxismos é um retrato do Gorduratrans com tempo e mais recursos para criar. Seus temas soam ainda mais densos.

“Acho que é um disco menos pop do que o anterior”, contou Luiz Felipe Marinho, em entrevista ao Estado (leia aqui). Faz sentido . Repertório, o primeiro álbum, tinha um punhado de canções mais palatáveis e ainda trazia a incrível Você Não Sabe Quantas Horas Eu Passei Olhando Pra Você.

Ainda, contudo, é um álbum que deixa um zumbido no ouvido ao fim da última música – e são nove –, e seus versos, extremamente pessoais, mantêm a capacidade de funcionar como um abraço nos corações mais desesperados.

A pedido do Outra Coisa, a dupla aceitou guiar o ouvinte pelo novo trabalho da banda. Leia (e ouça):

1) 7 segundos

“Nessa música, a linha de bateria está intrinsecamente ligada à letra.  e ao que ela pretende passar ao ouvinte. Claro que as sensações que sentimos em relação a uma música é algo completamente subjetivo, tal qual a forma como as pessoas se apropriam dela. O fio condutor, a meu ver, está no instrumental, que pretende passar um pouco do sentimento de confusão do eu-lírico em relação aos seus próprios sentimentos, o que pode ser lido com um certo pessimismo, mostrando, de certa forma, uma falta de esperança em relação ao rumo que a vida tem tomado. Uma das referências principais dessa faixa é o Elliott Smith, em especial a música “Little One”, do From A Basement On The Hill, de 2004. Acredito que, mesmo sendo completamente diferentes, no sentido estrutural, as músicas dialogam. Assim como as linhas vocais do Kendrick em To Pimp a Butterfly, no sentido rítmico.”

“Contudo, há uma relação paradoxal em 7 Segundos. Ao mesmo em que pode ser entendida como desesperançosa, no fundo o eu-lírico busca melhorar e compreender melhor a si mesmo através da solitude. Seria o momento em que ele pode refletir e entender aspectos da própria existência, e de como ele lida com problemas mentais, muitas vezes se utilizando de muletas emocionais para conseguir seguir em frente, o que não é necessariamente algo bom.”

2) vejo fantasmas em seus olhos

“É a mais shoegaze do disco. Abusamos um pouco mais do glide de guitarra e da bateria bastante reta nessa faixa. Foi a segunda música do disco a ficar pronta. Já tocávamos em shows ainda na metade de 2016. Terminamos ela assim que voltamos da nossa turnê pelo nordeste, em fevereiro deste mesmo ano.”

“Eu acho essa música uma das menos tristes do disco. Tem um ar de esperança, de final feliz. As coisas ainda estavam meio incertas naquela época (desemprego, final da faculdade, TCC). Depois tudo foi se acertando e encontrando seu lugar de estagnação.”

3 – problemas psicológicos se tornam físicos (o homem mais forte que eu conheço)

“Essa é a música mais importante do disco, e uma das minhas favoritas. Foi a primeira música do disco a ser composta. Nos nossos primeiros shows, depois do lançamento do repertório infindável de dolorosas piadas, ela já estava no setlist. Minha referência principal aqui foi Sonic Youth, apesar de não parecer muito ouvindo ela pronta. Fica mais perceptível nas notas dissonantes do final, na entrada dos tambores em crescimento e quando a bateria entra de vez.”

“Eu fiz essa letra pro Luiz, quando ele passava por um momento difícil. Por isso acho essa música tão importante. Porque é a única que é da gente pra gente mesmo; não sai da banda, apesar da força dela. Quando a gente toca é como se a gente tivesse conversando, e ela ao vivo tem muito disso: a gente se olha bastante nas transições, numa comunicação pelo olhar mesmo. Fica bonito.”

4 – fotocópia

“Essa música foi construída em parceria com Cássio Fiqueiredo, grande amigo e artista de noise/drone de Volta Redonda, cidade do interior do Rio de Janeiro. Cássio estuda e mora em Niterói, no Grande Rio, o que nos deu proximidade. No começo de 2016, Cássio lançou um álbum chamado “Presença”, que fez nos apaixonar pelo seu trabalho. E foi em um show nosso, também no começo de 2016, que nos conhecemos pessoalmente pela primeira vez e já fechamos a parceria em uma das músicas de um futuro disco novo nosso. Fotocópia é essa música.”

“Ela foi a primeira música do disco a ser 100% finalizada, antes mesmo da finalização da produção das outras músicas. Eu mandei pra ele o primeiro protótipo da música, ele devolveu com um projeto pensado em cima desse protótipo, e eu juntei tudo na mixagem final da música. Foi uma construção bem lenta e natural, sempre trocando informações e ideias sobre a música. Nunca tínhamos feito nada parecido antes.”

5 – quando boas lembranças se tornam uma tortura

“Foi uma das músicas que chegamos a tocar no ano passado, no último show que fizemos antes de gravar o disco, que foi no casamento de um amigo nosso, o Gabriel, baterista da El Toro Fuerte, de Belo Horizonte. É a música mais animada do disco, que tem um viés diferente, com guitarra mais limpa e menos distorção, tem outras referências embutidas. A letra é bem direta, como várias outras músicas nossas. É uma musica mais “clean”, rápida, que menos se encaixa no conceito de shoegaze. É uma das músicas que eu, Felipe, mais gosto no disco.”

6 – um samba sobre a minha cova

“Foi uma das últimas músicas que compomos pro disco. Foi feita muito rapidamente. Em uma noite ela foi criada e terminamos de produzi-la bem no final do processo de feitura do disco. A ideia de utilizar mais tambores veio de outras referências, com as notas menos trabalhadas, uma coisa mais crua, direta. Com uma ideia de ter umas quebras na bateria que fogem das referências clássicas do shoegaze, como o próprio samba, mesmo que quase ninguém consiga visualizar (aqueles de desfiles de escolas de samba mesmo, não os populares, que mesclam com pagode; o Luiz é natural de Nilópolis, terra da Beija-Flor, e cresceu por lá). A letra dessa também pode ser considerada bem direta – mesmo havendo algumas nuances interpretativas: como na parte que fala de traição, que não é, necessariamente, no sentido do amor romântico como o conhecemos.”

7 – linha tênue

“Essa foi uma das músicas que mais demorou a ser finalizada. O Felipe começou a escrevê-la no começo de 2016, e só conseguimos terminá-la no meio de 2017, praticamente um ano e meio fazendo a música. Tanto em relação à letra, quanto pelo final instrumental. É uma das músicas mais longas da história da banda, mais da metade dela é toda instrumental, com crescendos casando guitarras e baterias, sequências de notas mais interessantes, comparando com nosso trabalho como um todo, com algumas dissonâncias. E também não é uma guitarra tão suja, mas tem bastante dinâmica, com dedilhados. Acho que características diferentes do que temos usualmente. Acreditamos que essa seja a faixa que mais se destaca no trabalho, em termos de fugir de uma certa padronização, até pelo fato da guitarra ser limpa o tempo inteiro, e ter uma harmonia que ondula, varia mais. É a nossa música preferida do disco.”

8 – raso demais

“É uma música bem crua, tem poucas notas. A intenção dela é muito clara desde o começo. Tem a explosão na segunda metade, quando a guitarra e bateria entram mais pesadas. Já tem uma pegada mais Sonic Youth. É uma das poucas músicas do disco em que há dobra de guitarra, com solo por cima – uma característica bem marcante no nosso primeiro trabalho. Há esse resgate nessa música. A ideia inicial seria que “raso demais ” fecharia o disco, com a guitarra arrastada no final, dissonante, com sonoridade quebrada.”

9 – outra vez

“Essa é teria apenas violão e voz, mas decidimos colocar guitarra no fundo, que dá um ar meio Slowdive, Ride, fica parecendo que tem um órgão no fundo, mas é guitarra. Achamos que combinaria como música de fechamento do disco, por ser mais calma e por passar a mensagem através de uma história bem direta. A letra conversa com algumas músicas do nosso disco anterior, e no final de outra vez há um link com o início do disco. As últimas notas de outra vez são parte das do início de “7 segundos”, como se a obra fosse algo uníssono, contínuo, em loop, sem quebras no meio – o que também dialoga com a letra a própria canção.”

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