Exclusivo: Siso revira o baú de memórias, boas e ruins, para deixar o passado para trás no disco de estreia; ouça
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Exclusivo: Siso revira o baú de memórias, boas e ruins, para deixar o passado para trás no disco de estreia; ouça

Pedro Antunes

01 de novembro de 2017 | 09h45

O passado lá mora.
Lá atrás, nessa linha reta que é o tempo.
A memória, essa bastarda, traz o que não se quer reviver.
E, de súbito, o passado aqui fica.
Aqui, no presente.
De novo.

Siso (Foto: Suelen Calonga)

A dor da lembrança reverbera no primeiro disco cheio do músico mineiro Siso, lançado com exclusividade aqui no blog Outra Coisa.

O que reverbera em Saturno Casa 4, o disco, são as realidades intercaladas, o ontem e o hoje, como espectros fantasmagóricos do que já foi, mas ainda capazes de afetar o presente.

É saudade, arrependimento, abuso sofrido na infância, o corpo espichado demais na adolescência.

Desse bololô, esse caldo de experiências, Siso ressurge grande, adulto e consciente de quem é no hoje, anos depois.

As respostas estão no título do disco, Saturno Casa 4. Na astrologia, quem nasce quando o planeta passa pela quarta casa sente o peso das raízes, daquilo que nos forma, nos molda.

Ao escancarar seu passado, Siso mostra a força do hoje. Só a compreensão do que já foi é capaz de ajudar a encarar os resquícios do trauma que ainda afetam o presente.

Saturno Casa 4 chega com a leveza do perdão. Perdoa-se a si e aos outros.

Siso deixa sua intenção evidente. Com Tentação, recorda-se dos tempos de escola. Espinhosos são os vestígios, o bullying e a sensação de ser um estranho no pátio durante a hora do recreio.

Seria fácil cair, de joelhos, diante dessa avalanche de recordações.

Siso, contudo, encara-as em pé. De frente. Adulto. 

“O presente tem seus problemas /
O passado não importa /
O futuro nos acena”, diz a letra de Tentação.

Rebate com a cintilância de beats, do funk melódico e do charm. São camadas sonoras que auxiliam nessa viagem pelo tempo e espaço de Saturno Casa 4. Situa o ouvinte em outro ciclo, algum momento na virada das décadas de 1980 e 1990.

É ali que vivem essas memórias – e lá deveriam ficar.

Sofre, também, com a lembrança de alguém que se foi na infância:

“Vai rir de mim /
Se eu te disser /
Que nunca usei /
O presente que você deixou?”, canta Siso, em trecho de Onde Termina a Calçada – cujos vocais são divididos entre ele e Paula Cavalciuk.

É daquelas estrofes que perfuram o coração saudoso.

Siso (Foto: Suelen Calonga)

Na sequência, o disco e Siso chegam no seu momento mais sombrio com Violado. Compositor de versos longos, narrativos, o artista revisita talvez a pior das memórias, o abuso sofrido ainda na infância.

“Nem tinha quatro anos” quando ela, uma “jovem adulta”, sufocou o corpo dele com o dela. Em Violado, Siso reflete sobre a culpa, sobre as consequências daquela ação na sua vida de hoje.

Dói ouvir reviver com ele a experiência.

De Letícia Novaes, a Letrux (do ótimo disco Letrux em Noite de Climão), ele pega emprestada a canção 198 Centímetros, uma ode às transformações do corpo na infância. Sugere, com essa leveza, o fim de Saturno Casa 4 menos nebuloso.

Letícia também participa da visceral O Amor é 1 Arma de Destruição em Massa:

“Vem me desintegrar, meu bem /
Me deixa só o pó /
Vem desorientar também /
Desata todo nó /
Vem me eletrocutar, meu bem /
Nunca me deixe só”

Das dez músicas de Saturno Casa 4, duas não têm a assinatura de Siso na composição. Além da já citada 198 Centímetros, há Saudade, de Leonardo Onerio. São dela os versos que reerguem o ouvinte.

“Saudade é coisa que dá e passa”

Siso encarou o passado, suas amarguras e os tijolos rachados da sua construção pessoal.
E o fez de frente. Em pé.
Como todos nós deveríamos fazer, em algum momento da existência.
Só assim o passado vai permanecer onde nunca deveria sair.
Lá atrás.

Ouça Saturno Casa 4, de Siso:

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