Charles Bradley, o “prisioneiro do amor”, foi embora sem cumprir uma promessa
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Charles Bradley, o “prisioneiro do amor”, foi embora sem cumprir uma promessa

Pedro Antunes

23 de setembro de 2017 | 20h34

Charles Bradley não cumpriu o que prometeu.

Dizia, ao celular, não gostar de papos telefônicos enquanto viajava de ônibus pela cidade de Nova York, numa tarde agradável em maio de 2015. Preferia olhar nos olhos de quem ouvia a sua voz.

Charles Bradley (Jean Christophe Bott / EFE)

Era ali que se criava uma conexão, dizia, sem interferências e ruídos – fossem eles chiados telefônicos, falhas na ligação. Era isso que o emocionava, contava. Talvez por isso chorava ao final de suas apresentações.

No palco, revisitava, em lembranças, o período no qual morou na rua, na vida sem holofotes como um imitador de James Brown, no vício em inalar cola de sapateiro. As lágrimas inevitáveis desciam pelas bochechas já marcadas pela idade, misturadas ao suor brotado de apresentações acaloradas.

Prometeu voltar ao Brasil. Prometeu ao repórter um papo frente a frente, olho no olho. Essa promessa, não cumprirá.

O papo de 2015 foi publicado aqui.

Charles Bradley, o prisioneiro do amor, se foi. Chamado de Screaming Eagle of the Soul, a Águia Berrante do Soul, ele morreu aos 68 anos, como foi anunciado no perfil dele no Twitter.

“É com profundo pesar que anunciamos a morte de Charles Bradley. Obrigado por seus pensamentos e orações durante este difícil período”, diz a mensagem tão perfurante quanto a voz de Bradley ao vivo, capaz de arrancar o coração do corpo, encontrar rachaduras e curá-las ou escancará-las ainda mais – isso dependia do ouvinte.

Da parte de quem escreve, a voz dele costumava machucar mais do que curar. Certos dias, era melhor não ouvi-lo cantar.

Diagnosticado com câncer de estômago em 2016, Bradley se recuperou e voltou aos palcos. Nas vésperas de voltar ao Brasil para participar do Rock in Rio e fazer um novo show em São Paulo, descobriu o retorno da doença. Desta vez, ela atingira o fígado.

Bradley venceu o câncer uma vez.
Perdeu na segunda.

Foram apenas seis anos “descoberto” e três discos lançados No Time for Dreaming (2011), Victim of Love (2013) e Changes (2016). Foi achado por Gabriel Roth, produtor da Daptone Record, quando ainda usava o codinome de Black Velvet e ganhava trocos com covers de Brown.

Antes disso, a vida tratou Bradley como quis, com descaso e abusos.

Caía, mas levantava – era durão esse aí. Nunca conheceu seu pai e viveu em Gainesville, na Flórida, com a avó, até os 8 anos de idade. Foi quando a mãe, que o abandonara ao nascer, retornou e levou-o para viver no Brooklyn, em Nova York, um lugar aterrorizante (antes da transformação e higienização dos anos 1990). No mesmo Brooklyn, transformado em capital da cultura hipster, morreu.

Nas entrevistas concedidas depois da fama e de ser alçado ao mesmo nível dos grandes nomes do soul e do funk, Al Green, Otis Redding, Bradley fazia questão de citar a primeira vez com James Brown diante de si.

Tinha 14 anos.
O que viu no Apollo Theater o transformou.

A força do ídolo, no palco, mudou a percepção a respeito da música, da entrega no palco e de entrega às palavras ditas, entrega ao choro que teimava em vir.

Não era inventado. Era possível sentir algo diferente ali. Como se o que sacudisse suas cordas vocais fosse mais do que sopro, fosse uma dor armazenada por sessenta anos.

Por isso era rouca, por isso era poderosa.

Era alguém que entregava o amor com a voz, mas maltratado pelo mesmo. E, ainda assim, acreditava no sentimento. Dizia que o amor o aquecia nas noites frias passadas nas ruas.

A sensação é que o tempo foi sacana conosco. Deu apenas 68 anos de vida a Bradley. E, desse período, apenas seis foram compartilhados com o mundo, conosco. Faltou muito a ser feito – inclusive, a promessa de uma entrevista não cumprida.