Carne Doce se entrega aos desencontros e descompassos do fim no Dia dos Namorados com nova música; ouça ‘Nova Nova’
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Carne Doce se entrega aos desencontros e descompassos do fim no Dia dos Namorados com nova música; ouça ‘Nova Nova’

Pedro Antunes

12 Junho 2018 | 10h33

Dia dos Namorados. Na banca de flores do Largo do Arouche, no centro de São Paulo, os lojistas comemoram o início do dia. É dia 12 de junho. Todo ano é igual, buquês de rosas são preparados a toque de caixa e cartões apaixonados, escritos ali mesmo, com a caneta que o florista carrega consigo no bolso do avental.

Salma Jô, vocalista da Carne Doce (Foto: Luis Felipe Moura)

O amor, lindo como deve ser, cheira o perfume das flores.

O desamor, sofrido como por vezes é, machuca como nunca quando o outro lado da cama amanhece vazio, dias a fio.

Dia dos Namorados, afinal. Data comercial, é claro, daquelas que os mais descolados tendem a ignorar, mesmo que as redes sociais escorram declarações açucaradas e pegajosas de quem ama desavergonhadamente.

Dia dos Namorados, pois é. Data que também rasga, abre o que ainda cicatriza, como se a saudade ou a ausência fossem, neste dia, um bisturi nas mãos trêmulas de um cirurgião em crise de abstinência de álcool.

12 de junho de 2018 – sim, o tal Dia dos Namorados! -, também o dia escolhido pela Carne Doce para lançar a primeira música do novo disco, o terceiro deles, ainda sem nome, uma pedrada que vem não para abraçar, mas, sim, para ajudar a recolher os cacos.

Nova Nova é a canção que estreia aqui no blog, uma forte bofetada criada pela banda de Goiânia para este novo álbum, ainda sem nome e com data de lançamento prevista para julho – um álbum realizado com o auxílio do edital da Natura Musical.

Carne Doce, no estúdio, na gravação do novo disco

A letra, escrita por Salma Jô e João Victor Santana é gélida, mesmo na quentura da voz dela, sempre potente. Porque, afinal, ela trata daquilo que a gente não quer sentir, mas, invariavelmente, sente quando se está vazio por dentro – a saudade do preenchimento e do quentinho de um (ou daquele) amor.

Era linda sua nova namorada /
Foi feliz, foi bem aceita em sua casa/  
Foi boa nora, boa cunhada /
Quase uma filha, era engraçada“, canta Salma, na abertura da música.

A canção estabelece, primeiro, a lembrança, para, então, deixar o campo das memórias e chegar no presente. Ele, sim, frio. Ele, sim, inevitável.

Salma Jô, durante as gravações do álbum da Carne Doce (Foto:Macloys Aquino)

Salma Jô, Macloys Aquino, João Victor Santana, Ricardo Machado e Aderson Maia experimentam, também, nesta música (e só nela, de todo o disco), o uso das colagens e recortes eletrônicos. Carne Doce soa, aqui, sintético e orgânico.

Deliciosamente dicotômico, afinal, de coisas absolutas, temos pouco, quase nada – a não ser quando somos acometidos por uma nova e delirante paixão e, aí sim, tudo é calor e gozo, ainda bem.

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Não é o caso de Nova Nova. Nela, o que se ouve de Salma são versos que ressentem o relacionamento findado, de duas pessoas que, agora, seguem caminhos opostos. Dói ouvir, na voz dela, como se dissesse para alguém, um ex-alguém:

Mas você continuou
E o seu bonde não parou
Pois você sempre engraçado
Sua fonte não secou“.

Ou, ainda:

Mas por sorte é um ovo essa cidade
Você logo encontrará sua metade
Com seu talento e criatividade
Com sua entrega pela metade“.

E, assim, a banda diz a que veio na canção. Nova Nova é sobre descompassos, como uma tabelinha mal feita entre dois jogadores do mesmo time que resulta numa jogada morta  naquela partida de futebol do seu time do coração. Uma metade do casal toca para a outra, corre para receber a bola de volta, mas o passe é torto. Fim. Descompasso. “Com sua entrega pela metade”, afinal, diz Salma.

A capa do disco, revelada recentemente, tem a mesma linguagem estética do videoclipe de Nova Nova, lançado com exclusividade aqui (assista ao final do texto).

Capa do novo disco da Carne Doce

Nela, Salma Jô foi fotografada por Macloys Aquino vestida com uma meia arrastão, amarrada por um barbante. No vídeo, ela dança, hipnotiza com movimentos vagarosos e sem pressa. Tudo a seu tempo.

Nova Nova entrega o que tem de mais íntimo na Carne Doce. Um discurso que, mesmo que trate de dois, é escrito de tal forma que também diga algo para todos nós, como sociedade. Somos, todos, “pela metade”? Possivelmente, sim.

Bastidores da gravação do novo disco da Carne Doce (Foto: Macloys Aquino)

Sucessor de Carne Doce (2014) e Princesa (2016), o novo álbum da Carne Doce se mostra preciso nas doses de entrega de cada um. Com sintonia entre discurso, canto, harmonias, Nova Nova é um cartão de visitas que leva, estampado, um coração lindamente estilhaçado.

É Dia dos Namorados. Os floristas celebram as vendas dos casais apaixonados. E a Carne Doce entrega os versos para quem não têm mais a quem se declarar.

Novo edital

O edital Natura Musical, aliás, abre, nesta terça, 12, as inscrições para o patrocínio de projetos em 2019, pelo site natura.sponsor.com. No total,  são oferecidos R$ 4,5 milhões – com a combinação de recursos próprios, da lei Rouanet (Nacional) e leis estaduais – para o auxílio no lançamento de trabalhos como álbuns, EPs, vinis, shows, clipes e livros. Em 2018, o programa também abre espaço para coletivos culturais (selos, grupos, blocos, casas de show de pequeno porte, centros culturais, etc).

Ouça (e assista) Nova Nova, da Carne Doce: 

Nova Nova
(Salma Jô | João Victor Santana)

“Era linda sua nova namorada
Foi feliz, foi bem aceita em sua casa
Foi boa nora, boa cunhada
Quase uma filha, era engraçada

Mas você continuou
E o seu bonde não parou
Pois você sempre engraçado
Sua fonte não secou

Mas por sorte é um ovo essa cidade
Você logo encontrará sua metade
Com seu talento e criatividade
Com sua entrega pela metade

No seu ritmo, a vapor
Com seu pique, seu vigor
Te deixando apaixonado
Te deixando só a dor
E aí você vai entender
E aí, enfim, se ver em mim”