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‘Better Call Saul’ chega ao fim sem a muleta de ‘Breaking Bad’

Pedro Antunes

08 de abril de 2015 | 20h43

Atenção, é quase desnecessário avisar, mas o texto abaixo contém spoilers.

Saul Goodman antes de se transformar em Saul Goodman.

A história de como o advogado trambiqueiro de Breaking Bad se tornou quem é na série protagonizada por Walter White (Bryan Cranston), encerrada em 2013, foi o tema central de Better Call Saul, derivado da principal obra de Vince Gilligan, produzido por ele e Peter Gould. Encerrado neste terça-feira, 7, com a publicação do último episódio na Netflix, o seriado funcionou tão bem que sequer precisou usar a série original como muleta. Andou sozinho, independente e com uma qualidade técnica impressionante.

A começar pelo próprio Saul Goodman que, afinal, não se chama assim. O personagem tão bem interpretado por Bob Odenkirk nas quatro das cinco temporadas de Breaking Bad não é o mesmo de Better Call Saul. A diferença é tão grande que o próprio nome da série, um bordão dos tempos nos quais ele ajudava Walter White e companhia, deveria ser desconsiderado. E isso, senhoras e senhores, é mais um ponto a favor do novo trabalho de Gilligan.

Em um arco de 10 episódios e cerca de 10 horas, o personagem James McGill, também conhecido como Jimmy Sabonete, é apresentado sem pressa. Camada por camada, a trajetória de Jimmy vai cativando e justificando, de forma singela e sutil, em como aquele sujeito interessado em mudar o mundo como advogado pode ser, um dia, o Saul Goodman, também conhecido como o salvador dos condenados.

Desde o primeiro episódio, exibido em oito de fevereiro, Jimmy é apresentado como um personagem mais destroçado do que o Walter White em Breaking Bad. Sim, White tem câncer e precisa enfrentar a morte, mas isso é um fato futuro que pode ser mudado (ops, spoiler, mas isso já estava avisado lá em cima). No caso de Saul/Jimmy, não. Os primeiros minutos de Better Call Saul são dedicados a um futuro sombrio para quem, um dia, já teve os próprios comerciais de televisão. Saul, ou Jimmy, é gerente de um café, como ele mesmo havia previsto. Alcoólatra, calvo, solitário. Presente e passado são imutáveis.

Não dá para dizer que Better Call Saul ganhou nota máxima em todos os quesitos, contudo. Enquanto os textos acertaram em praticamente tudo relacionado a Jimmy, o mesmo não pode ser dito de outros personagens apresentados ali – ou com o velho conhecido Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks), único de Breaking Bad a ter um papel fixo na nova série.

Gilligan e Gould falharam com todos os outros personagens. Profundidade mínima para os interessantíssimos Kim Wexler (Rhea Seehorn) e Howard Hamlin (Patrick Fabian), por exemplo. Michael McKean, que interpretou Chuck McGill, irmão mais velho de Jimmy, ainda tem alguma alma, principalmente no penúltimo episódio, mas é pouco.

Já a presença de Mike, vamos ser sinceros, não passa de um fan service. Um agrado aos fãs de Breaking Bad. Não há justificativa, ao longo dos dez episódios, que prove o motivo pelo qual o personagem devesse estar ali. O episódio dedicado ao passado de Mike, quando é revelado o segredo que o assombra para a vida toda, talvez até estrague, um pouco, o jeitão misterioso que o personagem manteve ao longo de todos esses anos.

Better Call Saul, contudo, acertou. Decididamente, de Breaking Bad, aproveitou-se apenas o esmero. Os ângulos de câmera continuam impecáveis – no último episódio, dirigido pelo próprio Gould, então, está demais – e as corem continuam com uma força enorme nas telinhas. Ponto, no fim das contas, para a Netflix, que conseguiu criar um produto derivado de Breaking Bad, sem cair nas saídas mais fáceis. Ao fim, temos uma pequena ideia de como Saul Goodman se tornou Saul Goodman, mas ainda existe a impressão de que ainda há muito caminho a ser desvendado até que o bordão “better call Saul” seja repetido nas televisões de Albuquerque, Novo México. Ainda bem.

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