Atração do Lollapalooza 2018, Ventre anuncia pausa e EP mergulhada na intensidade de seus próprios versos; ouça
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Atração do Lollapalooza 2018, Ventre anuncia pausa e EP mergulhada na intensidade de seus próprios versos; ouça

Pedro Antunes

23 Março 2018 | 09h00

Na Ventre, fins são começos, inícios são términos, tudo se mistura, se une, se esparrama, junto, como se fosse um riff derretido de guitarra escorrendo por uma tarde quente de solitude.

Porque a Ventre anuncia um fim, ou melhor, uma pausa – ou, ainda, uma “suspensão”, como diz Larissa Conforto (bateria e voz) -, com um novo começo.

A Ventre é formada por Gabriel Ventura (guitarra e voz), Larissa Conforto (bateria e voz) e Hugo Noguchi (baixo e voz) (Foto: Hannah Carvalho)

E, desde seu começo, a Ventre já escancarava o fim.

Veja só: encerramento de um ciclo dessa banda de quatro anos de existência e dois discos (um de estúdio, chamado Ventre, de 2015, e o Ao Vivo no Méier, de 2016) estava justificado lá atrás, na faixa que inicia o disco de estreia.

“Quero um novo começo / 
Iniciar assim do nada / 
Quero a surpresa de novo / 
E o cheiro de mofo da mudança / 
E quando esse dia chegar”, canta Gabriel Ventura, também guitarrista, em Bailarina. E segue:

“Peguei o meu medo e pus na mala pra sair / 
Se fiquei mais um pouco era pra me despedir / 
Só entendo agora o quanto eu desejei”. 

E se o início já trazia consigo o fim, o fim, pausa ou suspensão da Ventre entrega o novo.

Em breve, será lançado o EP Saudade (O Corte ??, pela Balaclava Records, um trabalho com quatro faixas novas de uma banda que, ao silenciar seu estrondo sonoro no show do Lollapalooza 2018 (iniciado às 11h50, no palco Onix, neste sábado, 24), vai entrar em um “modo avião” muito próprio.

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Duas dessas faixas gestadas para o que seria um disco e acabou se condensando em um EP ganha vida hoje, a partir deste texto do blog – e podem ser ouvidas no player abaixo. São elas Pulmão e Alfinete, músicas nascidas para serem uma só: Pulmão foi um poema escrito e recitado por Conforto como uma introdução a Alfinete, música de Ventura.

No improviso de estúdio, as duas faixas se alongaram, ganharam vida própria, embora tenham a mesma origem – são canções gêmeas, portanto.

São, também, as duas músicas que fecham o EP – sim, as músicas finais são as primeiras a se tornarem públicas, em mais uma prova de que fins são começos e vice-versa.

Ventre (Foto: Hannah Carvalho)

E, afinal, a Ventre surgiu assim, de um pós-ciclo marcado por um Lollapalooza. Ventura e Conforto fizeram o último show com a banda Tipo Uísque na primeira edição do festival de Perry Farrell no Brasil, em 2012. Depois daquele show, se uniram a Hugo Noguchi, que é um mago do baixo, para fundar a Ventre.

Agora, a Ventre também se despede, por tempo indeterminado, em um Lollapalooza.

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A apresentação, curtinha, de 35 minutos,  será muito própria. Como conta Conforto, as músicas novas estarão ali, alinhadas às músicas antigas – estas, retratadas como memórias, lembranças, não exatamente fiéis às suas origens.

Será como a conversa definitiva de um casal diante de uma separação sem mágoas e madura.

A vida, afinal, é isso: encontros, caminhos e despedidas. Em pouco tempo, a Ventre vivenciou seu próprio ciclo. Criada a partir de outras despedidas, a banda se formou no encontro de três músicos (Ventura, Conforto e Noguchi), viveu intensamente os caminhos deles pelo País e, agora, se despede.

A Ventre, a partir deste sábado em estado de inanição, também expõe a fragilidade das certezas – do que é certo como eterno, para sempre, da segurança ilusória de um relacionamento e por aí vai.

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O que era um disco, o segundo álbum de estúdio, tornou-se esse EP gravado na Casa do Bóris, em Cotia, São Paulo, mixado e masterizado por Diego Poloni. Agora, possivelmente, teremos três discos solo, um de cada integrante da Ventre.

Como diz Conforto, a Ventre “nunca foi monogâmica” nesse sentido. Ventura, por exemplo, é guitarrista de Cícero, gravará o novo disco de Duda Brack e integrava a banda Posada e o Clã, de Carlos Posada. Noguchi, também parte do Clã do Posada, integra a banda SLVDR e segue no seu trampo de produtor, recentemente ele trabalhou com Luísa Boê. Por fim, Conforto tem integrado um sem-número de projetos e irá acompanhar BEL em uma turnê pelo Uruguai e Argentina.

 

Capa do EP Saudade (O Corte), da Ventre, uma arte criada por Victor Reis

“No momento de praticar a poligamia mais profunda”, explica Conforto, “a Ventre estava exigindo demais da nossa energia”, ela explica, ainda sem acreditar que o dia do anúncio da pausa chegou. “Tenho gestado esse fim há muito tempo”, ela diz, “agora é hora de pari-lo”.

“Não foi briga, não foi nada disso”, ela se adianta, “era o momento de viver o novo, experimentar outra coisa. E é difícil viver muita coisa ao mesmo tempo. Lançamos essas músicas para agradecer pelo que vivemos”.

E, quando ela se emociona, não é ao falar da suspensão e, sim, da lembranças boas reunidas até aqui. “Fomos a muitos lugares que jamais tínhamos visitado, houve muito amor trocado. Foi muito lindo”, ela conta, com a voz embaralhada pelos sentimentos nascidos com essas palavras.

“Pensando em tudo isso, a gente precisa respirar, repensar. O mínimo que podemos fazer por todo o carinho, amor e por aquilo que aprendemos juntos é deixar o que estávamos produzindo, o início da ideia de um disco, é deixar guardado até dar vontade, dar tesão. Para a gente, um dia, ouvir e ficar com vontade de tocar junto de novo. Porque é muito gostoso, é muito bom.”

Com isso, a Ventre anuncia essa pausa já manifestada antes mesmo de existir, lá em Bailarina. Agora, quando canta, Ventura é soa mais conformado com o que sempre foi inevitável.

“É mais fácil começar do zero do que consertar do que quebrou”, dispara ele em Alfinete, a última faixa do EP Saudade (O Corte ??.

Ouça Pulmão e Alfinete, da banda Ventre: