Análise: Fim da sexta temporada de Game of Thrones é calmaria antes da tempestade – ou assim esperamos
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Análise: Fim da sexta temporada de Game of Thrones é calmaria antes da tempestade – ou assim esperamos

Pedro Antunes

27 de junho de 2016 | 09h04

Se a série inspirada nos livros de George R.R. Martin ensinou algo aos telespectadores é de desconfiar quando tudo dá certo demais para os seus protagonistas

Quando George R.R. Martin, criador da série de livros na qual é baseada a produção da HBO, dá uma esmola grande demais, é bom desconfiar. E, em seis temporadas, Game of Thrones nunca havia exibido um episódio no qual seus protagonistas têm perspectivas tão positivas quanto nesse que foi ao ar na noite deste domingo, 26.

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(Cuidado: spoilers do último episódio estarão espalhados pelo resto desse texto.)

A sempre sádica forma de contar sua história foi deixada de lado. (Quase) tudo funcionou devidamente bem para os personagens principais da saga fantasiosa. E é justamente o problema.

É claro, os fãs, machucados depois de testemunharem terríveis mortes de nomes queridos, devem ter adorado ver um novo Rei do Norte – Jon Snow é o Lobo Branco, e seguirá os passos de Robb Stark na tentativa de ter um reino para chamar de seu -, assim como devem ter vibrado com o retorno de Arya Stark a Westeros, usando todas as técnicas de assassina na qual foi treinada no último ano e dando cabo dos líderes da casa Frey que figuravam na sua lista de “aqueles que devem morrer”.

Curiosamente, contudo, é o oposto de tudo aquilo que Game of Thrones nos fez acreditar. Desde a primeira temporada. Basta lembrar da decapitação de Ned Stark, até então o protagonista e mocinho da trama. Ali, Martin praticamente dizia: “não amem ninguém nessa série, pois todos vão morrer de forma sangrenta”.

No episódio mais longo de toda a série, com 69 minutos, Game of Thrones afunila sua gama de personagens e locações. Enquanto Martin sofre para finalizar o sexto livro (de um total prometido de sete), dada à complexidade da trama, a série limpa todas as gorduras justamente na temporada na qual, pela primeira vez, não há um livro para se basear.

O sexto ano de GoT ultrapassou os escritos de Martin e, com isso, libertou-se. É criativamente interessante perceber que já não existe a necessidade de justificar alguns personagens desnecessários (para a TV, veja bem), que chegavam e morriam sem tempo para grandes desenvolvimentos na telinha. Algo bem diferente dos livros, quando Martin gasta capítulos inteiros e intermináveis para mostrar as perspectivas desses nomes que, por vezes, são até difíceis de lembrar.

Esses novos ventos criativos chegam com o inverno tão prometido em Westeros. Depois de tanto ouvirmos “winter is coming”, ele finalmente chegou. E isso quer dizer uma coisa: os caminhantes brancos, aqueles zumbis de gelo que aterrorizaram a Muralha de Jon Snow nos anos recentes, farão sua investida final para tomar todo Westeros. Nada disso teve espaço neste último episódio, contudo. A batalha contra esses seres sobrenaturais ficou para as prometidas sétima e oitava temporadas.

A liberdade dos livros, contudo, também deu a chance para Game of Thrones apressar suas saídas. O último episódio da sexta temporada só deixou isso mais claro. Embora tenham sido pouco mais de 60 minutos de cenas lindas, uma trilha sonora pomposa e tudo mais, a série mostrou seus buracos de roteiro. Correu com as conclusões.

Arya, por exemplo, ressurge já assassinando Walder Frey e seus dois filhos. Varys, o eunuco que está por trás de toda a manobra para tirar a atual ocupante do Trono de Ferro, Cersei (falaremos sobre ela em breve), surge no episódio em Dorne, sul de Westeros, e minutos depois em um navio que atravessa o Mar Estreito em companhia de Daenerys Targaryen, que enfim regressa ao continente em busca de vingança contra as famílias que mataram seus parentes e proclamando-se rainha por direito.

O último episódio estabeleceu, de forma correta, o destino de cada um dos principais protagonistas que ainda respiram na trama. Jon Snow e sua irmã Sansa Stark agora dominam o norte. E partem em busca de vingança. Cersei, a rainha mais fria e durona que se teve notícia, explodiu uma parte da cidade de King’s Landing de uma só vez, incluindo grande parte dos seus inimigos políticos. Tentou salvar seu filho, o então rei Tommen, mas o guri não aguentou  a ideia de sua esposa queimada viva e saltou da janela para dar fim à própria vida. A morte do garoto não parece ter chocado sua mãe, mais preocupada em ocupar novamente o posto de rainha. A ausência do luto pela morte do filho era algo a ser explorado, mas não foi.

Daenerys Targaryen, após de seis anos, enfim navega de volta a Westeros. Depois de tanto brigar para libertar escravos, perder-se em desertos intermináveis e se envolver em disputas as quais, convenhamos, não lhe diziam respeito, ela partiu para reivindicar o trono que julga ser seu por direito.

Tudo fácil demais. Tudo inocente demais. E isso é um perigo.

Veja bem, quantas dicas foram dadas, ao longo da temporada, de que Cersei iria queimar metade da cidade com aquela substância verde? Citou-se fogo-vivo mais do que qualquer outra coisa ao longo desse sexto ano. Estava tão escancarado que a cena de longos e intermináveis minutos que antecedeu a explosão foi desnecessária. Qual é o motivo de passar tanto tempo revelando algo que já estava bem claro antes?

A origem de Jon Snow também, enfim, foi confirmada. Ele não é um bastardo de Ned Stark. O Lobo Branco é, de fato filho de Lyanna Stark, irmã de Ned, algo que os fãs já diziam saber há tempos. Lyanna Stark havia sido prometida a Robert Baratheon, mas fugiu (ou foi raptada) por Rhaegar Targaryen (irmão mais velho de Daenerys), numa ação que levou Robert a chamar pela revolução e destituir a família Targaryen do Trono de Ferro.

Game of Thrones nos fez esperar pelo pior. Sempre. Por mortes difíceis de assistir, de corações quebrados ao ver personagens amados terem seus olhos perfurados em batalha. Esse princípio de Game of Thrones não existiu com tanta intensidade na sexta temporada e foi deixada ainda mais de lado no derradeiro episódio.

Ora, depois dos acontecimentos do Casamento Vermelho, alguém ainda é capaz de acreditar que essa calmaria e essa paz durarão par sempre em Game of Thrones? Sinceramente, espero que não.

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