10 anos de ‘In Rainbows’: bandas brasileiras celebram o disco do Radiohead; ouça
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10 anos de ‘In Rainbows’: bandas brasileiras celebram o disco do Radiohead; ouça

Pedro Antunes

08 Dezembro 2017 | 09h27

Lembro de ser uma quarta-feira.
Havia aula de alguma teoria de alguma comunicação na faculdade.
Lembro de não ligar a mínima para o que acontecia na sala de aula.
O Radiohead havia lançado um novo disco. O disco.
No esquema “pague o quanto quiser”.
Paguei US$ 2 (era universitário, afinal, pessoal).

Thom Yorke, do Radiohead (Foto: Valerie Macon / AFP)

Como grandes acontecimentos da humanidade, a chegada de In Rainbows, nas primeiras horas daquele 10 de outubro de 2007, merece a pergunta: “onde você estava quando…?”.

Não era só a inovação mercadológica da coisa, embora isso tenha rendido umas manchetes a mais para Thom Yorke e companhia. A banda, sem contrato com gravadora após o fim da parceria com a EMI em Hail to the Thief, desafiava a indústria fonográfica que definhava.

Disseram: “Ninguém vai comprar o álbum físico”.
E erraram.

+++ Radiohead confirma dois shows no Brasil em 2018

In Rainbows, quando chegou nas prateleiras, em 1o de janeiro de 2008, foi para o topo das paradas norte-americanas.  Somente Kid A, o sucessor de OK Computer, obteve o mesmo êxito.

O amigo Alexandre Matias, do Trabalho Sujo, escreveu um ótimo texto no site Scream & Yell, do também grande Marcelo Costa, sobre a importância do álbum que vale a leitura.

Confesso, contudo, que todo esse contexto de In Rainbows me irrita. Tira espaço da arte produzida pela banda inglesa para falar de mercado. Uma injustiça, afinal. O sétimo lançamento do Radiohead, quatro anos após Hail to the Thief, que tinha uma pegada mais política, é um álbum quente, percurssivo e com algumas das melhores canções de amor de Yorke.

Que p… disco, meus amigos!

Dez anos, quase dois meses depois do lançamento de In Rainbows, o mundo mudou mais um montão de vezes. A música por streaming permite que ouçamos o álbum em qualquer lugar do planeta com conexão de internet, por exemplo.

Dez anos depois, o universitário do início do texto, escreve sobre música, veja só.
Dez anos depois, dez bandas brasileiras se reúnem para celebrar a década do disco que mudou o jogo em diferentes frentes.

Arte de ‘Br Rainbows’, por Aloizio

E assim chega, aqui no blog, Br Rainbows, um trabalho lindíssimo do músico e produtor Kelton, que reuniu os artistas para recriarem, em um ambiente livre, cada uma das faixas quentes do Radiohead. Kelton também assina a masterização do trabalho.

E convocou um time de impacto do indie nacional para o duro trabalho de reconfigurar o RadioheadBratislava (ficou com a música 15 Step), Peartree (com Bodysnatchers), Tuyo (com Nude), Aloizio e a Rede (com Weird Fishes/Arpeggi), Supercolisor (com All I Need), Amnesiac Kid (com Faust Arp), Zéfiro (com Reckoner), ele, Kelton (com House of Cards), Guaiamum (com Jigsaw Falling into Place) e Diego Marx (com Videotape).

Br Rainbows é uma viagem afetiva. Pela nossas próprias memórias com esse disco (que, se fosse físico, certamente teria sido furado pela agulha de tantas vezes que rodou por aqui) e, também, pelas lembranças das bandas que se propuseram a recriá-lo.

Victor Meira, da Bratislava, por exemplo, “entrou no Radiohead” por esse álbum. É do grupo a abertura do álbum, com a única, corajosa e viciante versão para 15 Step em português. “Parece que todas as minhas lembranças dessa época tem o In Rainbows como trilha sonora”, conta.

“Não é surpresa dizer que Radiohead estimula o apetite, a gana de ter banda, de ser banda para quem ‘adolesceu’ em algum momento dos anos 2000″, diz Lio Soares, da Tuyo, que reconfigurou as sensações de Nude a partir da estética própria deles.

A relação com essas canções é primordial para Br Rainbows “(Weird Fishes) é a minha música preferida da vida e com uma das frases que sempre quis tatuar: ‘I hit the bottom and escape'”, diz Aloizio, de Aloizio e a Rede.

A liberdade para brincar com as canções do Radiohead criou momentos memoráveis justamente por isso. Os ingreles formam uma banda que se desconstrói e se desconfigura a cada álbum favorece essa inventividade, afinal.

A Peartree, por sua vez, optou por seguir um caminho mais fabril. Sua versão de Bodysnatchers brinca com o industrial ao diminuir as BPMs da canção e engrandecer as pontes que levam para o refrão que nunca vem.

Kelton, veja só, fez de House of Cards um quase country saboroso, enquanto Guaiamum optou por trazer climas sombrios e amenos para Jigsaw Falling into Place.

Ouvir Br Rainbows é como assistir crianças a brincarem em um parque de diversões. Ou melhor: como ver adultos crescidos liberados para brincar como quiserem no parque de diversões que frequentaram tantas vezes na infância.

Portanto, vamos deixá-los brincar, certo? 

Abaixo, um faixa a faixa especial, preparado com a ajuda de André Felipe de Medeiros, que assina a comunicação desse lançamento que vai esquentar a sexta-feira de muita gente hoje.

Cada banda explica sua relação com o Radiohead e o processo pelo qual passaram para chegar à versão do álbum.

15 Step, por Bratislava: 

“Eu ‘entrei’ em Radiohead pelo In Rainbows, foi a minha porta de entrada. Imagino que a maioria dos fãs que tem a minha idade (30) começaram lá atrás, com o The Bends ou o Ok Computer, mas meu mergulho foi tardio e acho que isso me dá uma visão diferente da obra. Lembro que achei muito louco o lance de poder baixar e pagar o quanto eu quisesse, foi uma parada extraordinária na época. Alguns meses depois do lançamento do disco eu fiz uma viagem para pra fora do país e lembro que ouvi sem parar esse disco durante a trip – parece que todas as minhas lembranças dessa época tem o In Rainbows como trilha sonora. Em 2009 eu tava lá na Chácara do Jockey, completamente absorto com o show que eu tava testemunhando, um marco inesquecível pra mim. E um ano depois eu e o Xande resolvemos formar a Bratislava, ainda sob efeito desses ecos e já tendo o In Rainbows como um dos discos da vida. É emocionante poder participar dessa coletânea e honrar uma das nossas maiores influências com a nossa leitura de 15 Step.” por Victor Meira, da Bratislava.

Bodysnatchers, por Peartree: 

“Minha relação com o Radiohead vem desde Ok Computer. No início, confesso que parecia um tanto difícil de digerir, até por que eu era muito novo (tinha uns 10 anos), mas algo sempre me intrigou a ponto de dar à banda um lugar especial na minha memória musical. Mais tarde, já um pouco mais velho, comecei a genuinamente descobrir Radiohead e tudo o que antes não tinha maturidade para entender. A partir desse ponto, me apaixonei por algumas músicas e discos e passei a dedicar um bom tempo da minha vida à descoberta dessa banda tão diferente do que tinha anteriormente ouvido. In Rainbows já entrou em um momento da minha vida de conversão plena à causa. Logo, ouvir o disco foi, na época, uma experiência única e extremamente importante para a minha “saúde” musical.

Plenamente ciente de que não seria possível chegar perto do material original, meu objetivo foi levar a faixa para um caminho diferente. Pensava já em fazer algo um pouco mais lento e que desse um peso grande à linha de baixo, que por sua vez também teve seu timbre alterado para um synth. Em algum ponto do processo, com essas alterações já aplicadas, a ideia de levar a faixa a algo que lembrasse o “Industrial Rock” começou a se deixar cada vez mais clara para mim e acabei optando por trilhar esse caminho”, por Peartree

Nude, por Tuyo: 

Hail to the Thief, Kid A e OK Computer têm um caráter de cartilha muito cristalizado para nós. Não é surpresa dizer que Radiohead estimula o apetite, a gana de ter banda, de ser banda para quem “adolesceu” em algum momento dos anos 2000. Então, num oceano de pessoas que foram atingidas pelo “raio bandatizador” do Thom Yorke, estamos nós. Os três, individualmente, tiveram seus ciclos de maturação emocional e estética guiados pelas mãos desses caras: Jean recebendo os respingos dos hits (Creep, No Surprises, etc.), Lay num relacionamento forte com Kid A e In Rainbows, e eu (Lio) imersa em Hail to the Thief.

Mal tivemos tempo de agradecer a delicadeza do approach do Kelton, porque a gente precisava brigar por Nude, que sintetiza a nossa própria estética como trio compositor, nossa temática. Depois de garantida essa etapa, deu para entender o tamanho da beleza desse episódio, que vai ficar na nossa trajetória de banda e de indivíduo. E ainda tivemos a sorte de trabalhar com uma dupla que respeitou muito esse processo: Gianlucca e Pedro Soares (ainda vamos ouvir bastante o nome dessa dupla na produção).

Dadas as circunstâncias – ser uma banda que formou a gente etc. – o objetivo era manter a fidelidade das sensações que a sinuosidade de Nude providencia e aplicar nossas “assinaturas”, mais no sentido de oferenda à ela do que de “reajuste” para ficar com a tal “cara da banda”.

É isso. É consenso no trio que rolou uma oferenda para essa deidade, para esse emblema geracional que é Radiohead“, por Lio Soares, da Tuyo

Weird Fishes/Arpeggi, por Aloizio e a Rede:

“Cada geração teve o seu disco preferido do Radiohead e In Rainbows foi sem dúvidas o da minha. Esse disco e aquele show de 2009 mudaram absolutamente tudo. Eu lembro que a primeira vez que eu escutei Weird Fishes/Arpeggi, deixei ela no repeat por um bom tempo antes de deixar o disco continuar. Fiquei completamente fascinado pela dinâmica, a letra, as guitarras e o groove da bateria. É a minha música preferida da vida e com uma das frases que sempre quis tatuar: I hit the bottom and escape. Você consegue enxergar os traços desse disco em inúmeros trabalhos da música independente brasileira. O meu primeiro trabalho (Esquina do Mundo) tem muita influência do que o Jonny Greenwood fez no In Rainbows e no The King of Limbs. Minha ideia foi fazer (apenas) uma homenagem trazendo a música pro meu universo de produtor/compositor e guitarrista, usando várias das influências que eu ando escutando para o meu próximo disco”, por Aloizio, da Aloizio e a Rede.

All I Need, por Supercolisor:

“Vejo em Radiohead uma espécie de pedra angular da música contemporânea nos últimos 25 anos – é facilmente a banda que mais mexeu comigo, das que vi e acompanhei já consciente, e esse álbum em especial (lembro do dia do lançamento como se fosse hoje, me acordaram cedo num susto pra avisar que algo importante tinha acontecido, já sabiam da minha obsessão por esses caras) me soou como um swan song imediato, clássico de nascença. Não que essa assertiva não valha pros 5 discos anteriores (incrível constatar isso!): é justamente essa sucessão de lançamentos espetaculares que faz dessa banda o que eu, brincando, chamo de “Beatles do Milênio” nas mesas de bar. In Rainbows mudou a minha vida até em termos práticos – minha intenção de ser músico sempre existiu, mas foi ele quem concretizou uma clareza de pensamento para que isso se tornasse uma realidade (mais sobre isso no texto de apoio).

Em All I Need, o problema era “como mexer numa música que não precisa de contribuições?”. A solução foi não pensar muito e correr atrás da postura “se fôssemos tocar isso sem ‘fazer um cover’, como faríamos?”. O resto foi espontâneo, até porque a velocidade necessária pro lançamento forçou (e que bom que forçou) todos os envolvidos a entregarem resultados rápidos. O arranjo surgiu do nosso interplay, e rapidamente ficamos confiantes dos caminhos que fomos tomando. No entanto, pessoalmente, é possível que essa seja a minha faixa favorita de um álbum perfeito, então a responsabilidade afetiva era grande. O fato é que essa preferência já demonstrava indiretamente a relação forte dessa canção com o som do Supercolisor, então foi natural. A original tem um build-up claro, emocionante, dramático, e tentamos não esquecer disso na nossa leitura. Tem também micro-homenagens bem sutis a outras fases do Radiohead nessa gravação, inclusive linhas melódicas claras – quem descobrir, avisa! Como a faixa saiu na frente do lançamento (já no anúncio, nesta segunda-feira), ficamos bem felizes com o feedback super positivo que estamos recebendo – tanto de quem já nos acompanha quanto de fãs do Radiohead curiosos que acabaram de conhecer por conta do lançamento -, e já há cobrança pra incluirmos a versão nas apresentações, o que nos deixa com a boa desconfiança de não ter decepcionado nem os mais exigentes!

Muito feliz do Kelton ter chamado a gente e esses outros pesos pesados pra dar esse tratamento refrescante a uma obra tão significativa na vida de todos os envolvidos”, por Ian Fonseca, Supercolisor

Faust Arp, por Amnesiac Kid: 

“Comecei realmente a escutar Radiohead logo no In Rainbows. Esse disco foi um divisor de águas no meu gosto musical, na minha forma de tocar, de compor. Nunca tinha escutado tantas texturas se complementando juntas, composições que começam com poucos elementos e aos poucos, novos elementos vão sendo adicionados até que a música fique grandiosa. Arranjo de cordas, backing vocals bem molhados com reverb criam uma atmosfera única desse álbum. Fiz a música Faust Arp porque um dia estava tocando violão e vi que a melodia, os compassos ímpares, as sessões todas tinham muito potencial a ser explorado então topei o desafio de escrever um arranjo para bateria, baixo, piano e guitarra”, por Caio Fonseca, da Amnesiac Kid.

Reckoner, por Zéfiro: 

Radiohead é uma das principais referências da Zéfiro desde que começamos. Eles são um grupo completo, seja nos elementos musicais mais básicos – com melodias e harmonias marcantes e surpreendentes -, seja na finalização das canções, que trazem sempre timbres e uma mixagem fora do comum. Além disso, eles estão sempre em movimento, se reinventando, o que, para nós, como artistas, é um alimento pra criatividade. Ouvir Radiohead é inspirador.

Essa relação com o Radiohead se confunde com a que temos com o In Rainbows, pois foi a partir desse álbum que a banda realmente se consolidou como referência para nós. É um disco perfeito. As músicas são belíssimas e trazem consigo uma atmosfera acolhedora, mas, ao mesmo tempo, muito intensa. A cada vez que escutamos, e isso já tem 10 anos que se repete, descobrimos um novo detalhe que justifica a riqueza do que chega aos nossos ouvidos.

Para nossa versão de Reckoner, a ideia inicial era desconstruir os elementos mais marcantes da música, no que se refere ao instrumental. Por isso, optamos por uma levada de bateria e uma linha de guitarra completamente novas. No resultado, sobressaiu uma certa influência que temos de alguns nomes da música brasileira. Mas, fora essa mudança, nossa preocupação era simplesmente preservar a obra. Mantivemos o falsete, a harmonia, a estrutura. É a faixa que dá nome ao disco, e por isso tem um valor ainda mais especial. Não dava pra arriscar danificá-la por pura vontade de inovar. Creio que essa foi a opção da coletânea como um todo, porque é difícil desafiar e escapar de arranjos tão bonitos e de uma produção impecável”, por Pedro Menezes, da Zéfiro.

House of Cards, por Kelton:

Radiohead foi me conquistando aos poucos. Primeiro ouvi Ok Computer e, quando aquilo começou a me agradar, fui atrás do resto da discografia. Em 2006, Radiohead fez uma tour para testar repertório que viria a ser o In Rainbows e, só de ouvir as gravações dos shows, eu já estava muito feliz. Quando o disco saiu, fiquei ainda mais feliz, vendo que havia nascido ali  um clássico instantâneo. Para mim, o In Rainbows é o melhor disco deles em todos os aspectos, composições, timbres, arte gráfica etc. Fazer uma coletânea como essa é uma forma muito singela de prestar uma homenagem a esses músicos que contribuíram tanto para a minha formação, não apenas pela música em si, mas também pela postura do Radiohead fora do palco, sua atitude artística.

Não racionalizei muito o processo de arranjo não. Apenas fui tocando até chegar num resultado que me agradava. Acabou virando um quase country, não fossem pelas guitarras e pelas vozes meio fantasmagóricas. Gravei tudo sozinho em casa e também os overdubs foram acontecendo de forma super livre”, por Kelton.

Jigsaw Falling into Place, por Guaiamum:

“Meu primeiro disco do Radiohead foi o Pablo Honey, que comprei em ’95. Não me entusiasmei muito em meio da minha fase Zeppelin/Floyd e acabei deixando a banda de lado, vindo a conhecer somente os hits hits. Doze anos depois minha irmã me pergunta se já tinha parado pra ouvir “o novo do Radiohead” e as coisas mudaram muito dali pra frente. In Rainbows foi minha porta de entrada pra discografia da banda e em pouco tempo se tornou um dos meus maiores nortes musicais. Acho a beleza das composições e a maturidade da produção das mais impressionantes do catálogo da banda e garantem ao disco lugar confortável ao lado dos maiores da história.  

Jigsaw foi um desafio grande. Com que autoridade a gente arrisca uma releitura do Radiohead? O arranjo original tem violão, teclado, guitarras, synths… uma variedade de camadas gerando texturas complexas que aparecem em certos trechos e não se repetem no arranjo. A princípio não sabia como trazer isso pro universo mais enxuto e de certa forma sóbrio do Guaiamum. A única certeza era que precisava de alguma forma trazer um ar novo que representasse o arranjo inicial, mas trouxesse uma intimidade diferente. Então decidi trazer um pouco do clima introspectivo de estéticas como o ambient e o glitch, afinar o violão mais grave e tocar um pouco mais devagar numa tentativa de reler de forma mais sombria e claustrofóbica o frenesi desesperado da versão original”, por Guaiamum.

Videotape, por Diego Marx:

Radiohead sempre foi trilha pra vida. Eles ocupam esse lugar desde o The Bends até os dias atuais. Lembro claramente da sensação de perder o chão ao ouvir o In Rainbows pela primeira vez. Timbre, condução do álbum, ousadia… lá se vai 10 anos e o disco continua atual. Recomendo o uso não moderado acompanhado principalmente de viagens e romances”, por Diego Marx.