Tranquilo com a vida

Tranquilo com a vida

Patrícia Villalba

21 de dezembro de 2010 | 12h14

Edu Krieger no palco do Rival. 'Foto: Patrícia Villalba/AE

O cantor, compositor e violonista Edu Krieger mostrou ontem no palco, pela primeira vez, o samba que compôs em parceria com Oscar Niemeyer, a estreia do arquiteto de 103 anos na música.

Foi no charmoso Teatro Rival, na Cinelândia, que vem se tornando a casa da boa e despojada música carioca, à margem das casas imensas e impessoais intaladas dentro de shoppings lá longe, na Barra da Tijuca.

“Aconteceu um negócio surreal”, disse Krieger, começando a contar sobre a tarde em que recebeu o telefonema de uma amiga, Mônica, namorada de Caíque, neto de Niemeyer, que queria saber se ele toparia dar uma ouvida numa fita. Ali, ele ouviu um samba cantado à capela. “Eu disse pra ela ‘quer dizer que vou ser parceiro do Niemeyer? Vocês avisaram isso pra ele, né?'”, contou o músico, arrancando gargalhadas na plateia. “Depois, passeo uma tarde maravilhosa com ele. Mas o que mais me comove é poder participar disso e lançar luz sobre o que ele quis dizer. Ele estreia no samba agora, e veja só, é mais velho que Noel e Adoniran.”

Escrita por Niemeyer em parceria com seu enfermeiro de UTI, Caio Marcelo, Tranquilo Com A Vida é deliciosa. Fala de um sujeito que espera “a noite solta no ar”, tranquilo com a vida e tem o frescor de um cair de tarde no Rio de Janeiro. Mas não sem lembrar os ideais comunistas do arquiteto – não é ele o narrador, mas um morador de favela. “Quero ser um mulato que sabe a verdade”, diz a letra. 

Lançado na internet no seu aniversário, no dia 15, o samba foi classificado humildemente por Niemeyer como “uma besteirinha, nada importante”. Veja a gravação aqui.

Mas, como era de se esperar, a repercussão foi imensa. Por causa dele, Krieger já deu entrevistas para o mundo todo, conforme ele contou no show. “Não vou ter outro parceiro mais ilustre que esse”, disse o músico, que já compôs, por exemplo, com Geraldo Azevedo.

No show de ontem, Krieger apresentou também a Marchinha de Protesto, que ele vai defender no tradicional concurso de marchinhas da Fundição Progresso. Ele, que já venceu em 2009, está de novo entre os dez finalistas. O resultado, em grande baile, será conhecido em 20 de fevereiro. “Sempre ouço as pessoas dizerem que as marchinhas devem ser engraçadas, de duplo sentido e com erotismo. Mas eu fico pensando que as marchinhas tiveram sua decadência justamente quando resolveram que marchinha era só isso, só poderia ser assim”, disse ele, registrando protesto bem humorado. Daí, cantou: “Vem amor/Que hoje é carnaval/ Ser feliz é a nossa fantasia”, encerrando sob gritos de “já ganhou”.