O medo está no rosto do carioca

O medo está no rosto do carioca

Patrícia Villalba

25 de novembro de 2010 | 12h38

Há dias eu abro essa janela de “adicionar novo post” e nem o que dizer num blog que foi criado para falar, essencialmente, das coisas boas do Rio. É que não me sinto à vontade para falar sobre uma boa pizza que encontrei ou sobre um delicioso sorvete de cachaça nesse momento tão assutador.

Enquanto escrevo esse post, o Wagner Montes diz no Balanço Geral (Record): “Pelo amor de Deus, não saiam de casa!”, enquanto a gente assiste a imagens de tanques de guerra invadindo a comunidade do Jacarezinho, na zona norte. “Não podemos deixar os vagabundos avançarem”, continua o apresentador.

Há um consenso na cidade, coisa que a gente ouve no táxi, na porta da escola, nos salões de beleza, enfim, em todo canto onde as pessoas se encontram, sobre a necessidade de se continuar com o plano da Secretaria Estadual de Segunça para o combate ao tráfico de drogas, com a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). O lamentável – e realmente espantoso, ainda mais para quem é forasteiro, como eu – é que a população fique tão à mercê das ações, dos dois lados, polícia e bandidos.

Ontem, ouvi um comentário tocante de um funcionário do mercadinho perto da minha casa, no Flamengo. Os trens que vão para o subúrbio pararam de funcionar, e ele não sabia como voltar para casa, depois de um dia de trabalho. Ele contava para a moça do caixa uma conversa que teve com a mãe, que recomendou: “Pega o ônibus, mas se entrar alguém com uma garrafa na mão, não pensa duas vezes: pula pela janela”, teria dito a senhora, como quem recomenda que o filho leve casaco num dia de frio.

Do lado de lá, dos bandidos que agora se autointitularam “Unidos Pelo Pó” (como se soube, facções que antes eram inimigas se uniram contra as UPPs), a coisa não é menos impressionante para mim. Vi uma imagem na Globo de rapazes fortemente armados que se refugiaram atrás dos muros da Igreja da Penha. Localizada no alto de um dos bairros violentos da cidade, o templo da fé se transformou em bunker do tráfico. Em outra imagem, na Record, o câmera (corajoso, diga-se de passagem), flagrou o momento em que rapazes incendiavam um carro. Franzinos, negros, esfomeados e, provavelmente, menores de idade. O que leva esses meninos a atenderem tão prontamente os desmandos de um barão do tráfico que está preso? Anos e anos de descaso social não poderiam dar em outra coisa.

Fica claro que a imprensa local apoia totalmente a ação da polícia e essa tentativa contundente de desarmar os morros. As autoridades têm voz nos telejornais e são várias as reportagens que mostram cidadãos comuns dando mensagens de apoio às ações da polícia. “Isso vai passar”, diz um senhor no RJTV (Globo), que comemora ter conseguido chegar ao trabalho hoje.

Na prática, entretanto, é difícil seguir o que o governador Sérgo Cabral pede, para que a população mantenha sua rotina normalmente, sem ceder à chantagem dos bandidos. Se não bastassem todos os acontecimentos que vejo pela TV, minha filha voltou da escola ontem contando, de olhos arregalados, que viu um “caveirão” (um blindado da PM), na volta do colégio, em Laranjeiras, depois de uma tarde de aula que não seguiu normal. A professora chegou a recomendar que os alunos evitassem ir ao banheiro, porque policiais estariam procurando bandidos na mata que fica atrás da escola. Não pode haver normalidade se atitudes como essa são necessárias.

Antes de me mudar pra cá, sempre ouvi dizer que “os cariocas estão acostumados com a violência”. Não é verdade.

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