No vagão delas

No vagão delas

Patrícia Villalba

26 de outubro de 2010 | 21h41

Expresso rosa-choque funciona das 17 às 20h. Foto: Patrícia Villalba

Hoje eu andei no vagão das mulheres do Metrô do Rio, reservado a elas das 17h às 20h. Ao que parece não é todo canto da cidade que respeitam a lei estadual que instituiu o vagão exclusivo em 2006. Mas eu dei sorte, e entrei num vagão cheio de passageiras, e apenas elas, hoje à tarde, na Estação Siqueira Campos, em Copacabana.

Na plataforma, um usuário mané foi advertido pelo segurança do Metrô que, com carqa e pose de Capitão Nascimento impedia que os homens entrassem no vagão exlcusivo, assim como quem não quer nada. O sujeito se valeu da condição de turista, e demonstrou espanto diante do fato de que há um vagão cheio de mulheres – as cariocas, como no seriado do Daniel Filho – se aproximando da parada.

Lá fomos nós, as meninas, rumo à Estação da Pavuna. Imagino o que Will Eisner, o cartunista americano, faria se pegasse aquele metrô. Eram mulheres de todo o tipo, altas,baixas, gordas, magras, a maioria de cabelo pintado e unhas das cores mais berrantes que eu já vi juntas – você olhava para cima e via um monte de mãos femininas, uma com a unha de cada cor.

O vagão é uma falação danada. Não tenho certeza, mas desconfio de que o vagão feminino seja mais ruidoso que os vagões mistos. E sem homem por perto, a gente fala muito mais, não tenho dúvida.

Uma está brava com a chefe, que escolheu outra funcionária para desempenhar determinada tarefa, e outra ensina para a que está ao lado (desconfio de que se conheceram ali) como aproveitar os talos do espinafre. À minha direita, uma diz que a cunhada é metida porque foi viajar num cruzeiro, e, à esquerda, outra diz à amiga que vai “quebrar a cabeça” do filho que foi mal na prova.

Quando desço no Flamengo, não deixo de reparar que o vagão é um sucesso, está muito mais cheio do que os outros que são mistos. Fiz uma anotação mental para prestar atenção e tentar saber o que teriam feito os cariocas para que as cariocas reivindicassem espaço exclusivo no transporte público.