O Mundo Novo Antigo de Filipe Catto

Estadão

01 de março de 2012 | 13h11

399870_293443930719386_185942848136162_764564_944157158_n.jpg Filipe Catto na gravação do Vozes do Brasil. Para ouvir siga o link.

 

Porto Alegre é um manancial. Por ali nascem, crescem e se reproduzem talentos que muitas vezes ficam por lá, satisfeitos. Não foi assim com Filipe Catto. Quando se viu pronto lançou pela internet um ep para dowload gratuito e fez barulho na imprensa de todo Brasil. Esperteza de um jovem veterano.

Ainda menino cantava em bailes e festas com o pai e numa de suas primeiras experiências enfrentou uma platéia de 3 mil pessoas. Nenhuma timidez. Foi criado para isso, jamais pensou em fazer outra coisa da vida que não cantar e compor. Daí a sua naturalidade impressionante. Filipe domina o microfone, a dinâmica da banda e tem carisma de sobra para calar a audiência mais barulhenta, no palco se sente em casa.

Sua voz de timbre raro, seu canto afinadíssimo, estão à serviço de um discurso coerente. Dramático sem ser nostálgico, atitude rock’n roll com a sofisticação estética de um Oscar Wilde contemporâneo. Suas leituras de Hilda Hilst ou Caio Fernando Abreu se misturam às crônicas de um cotidiano romântico e compoem um repertório  cheio de charme e crueza. Filipe gosta de falar de amor. Do amor entregue, da paixão desregrada, passional. Pra isso se serve do tango, do samba canção e do blues. Brinca com gêneros e ritmos levando muito a sério a missão do intérprete. É um cantor que se dá para à canção como fazem suas musas e referências para o ofício: Cássia Eller, Elis Regina, Janis Joplin, Bethânia, P.J.Harvey, Maysa. Sem fronteiras para épocas e estilos. Qualquer coisa entre Dolores Duran e Amy Winehouse.

Filipe é um contratenor, uma definição que se aplica muito mais à música erudita do que à popular, mas tecnicamente falando é um cantor de voz especialmente extensa que atinge graves de barítono ou baixo se quiser, mas que lembra uma voz feminina de registro mais grave. Segundo Suely Mesquita, cantora, compositora e preparadora vocal, o cantor com esse tipo de voz incomum tem a capacidade de comover com a delicadeza e as nuances de timbre que se prestam muito bem a efeitos dramaticos. Mas é claro que não basta ter esse registro de voz para gerar impacto na platéia, é necessário ter estilo e expressão própria, o que não é problema para Filipe Catto. Há quem se apaixone por ele só de ver um videozinho no Youtube.

E esse jovem letrista, que admira Chico Buarque, é um compositor que não tem medo da palavra, diz que gosta de falar de sentimentos inconfessáveis. Essa coragem, ou despudor juvenil, lhe confere uma personalidade encantadora e fascinante. É ele mesmo um personagem, um poeta de séculos passados usando jeans e tenis All Star. Bonito e sedutor como um jovem Rimbaud. Com a liberdade dos artistas de seu tempo – que hoje tem o privilégio de fazer música por amor a arte e não para atender as demandas de um mercado falido, Filipe canta a sua verdade, e é esse o mundo que queremos conhecer. Uma Saga que, na verdade, está só começando.

 

 

 

 

FILIPE CATTO – FOLEGO (o disco faixa a faixa)

 

 

 

Depois de dito isso tudo vamos ao disco de estréia.  Filipe já vem com duas músicas em novela, o que não é pouco pra um artista que se lança agora comercialmente.

Está impresso aqui o desejo de gravar ao vivo, com a intensidade da criação, com o espírito que ele tem no palco. Filipe tem um gestual importante pra sua interpretação, ele precisa de espaço pra cantar, pra se expressar  por completo. E se entregar pra canção é técnica vocal pra ele. Cantou num microfone de show sem errar, sem desafinar com todas as manhas, toda a respiração registrada. Ele gosta de ritualizar as canções, pensar roteiros,  filmes, personagens.

A banda se reuniu no estúdio com a produção de Dadi e Paul Ralphes e os arranjos foram feitos ali. A partir desse encontro o disco tem uma dramaticidade pop que se ouve pelas 15 faixas. Fôlego passeando solto, livre e feliz por vários gêneros.

O recado é simples, “eu sou Filipe Catto e é isso aqui, eu canto”. E como canta!

 

01-Adoração

(Filipe Catto)

É uma canção de amor com acorde maior, de tesão e alegria, uma melodia antiga que ganhou letra dias antes de entrar no estúdio, me lembra uma boa balada pop de Belchior. Delicioso coro de Blubell e Marcia Castro

2-Gardênia branca

(Filipe Catto)

Gardenia Branca é uma homenagem a Billie Holiday e a Elza Soares, musas de Filipe Catto. A heroina é a mulher. A letra veio toda na cabeça numa caminhada há dez anos enquanto Filipe lia a biografia de Billie. Lindo o banjo de Fabá Gimenez.

3-Johnny, Jack & Jameson

(Filipe Catto)

Um outro Filipe, morador de Nova Iorque, boêmio e bebedor , fez a música de brincadeira no violão e virou uma das mais pedidas em seus shows.

4-Redoma

(Filipe Catto)

Uma canção muito antiga, uma cama perfeita pro intérprete mostrar toda sua voz. Se tivesse cor seria um azul profundo, se fosse um brinquedo seria um carrossel. Lúdica e apaixonada. As guitarras de Gui Held e Dadi conversam a respeito.

5-Juro por Deus

(Filipe Catto)

Um samba de pandeiro e voz que virou um blues e que vira um samba depois que a personagem muda de atitude. A letra veio de sopetão numa horinha de espera.  Mais uma heroina safada, esperta. Adriano G

6- 2 Perdidos

(Dadi /Arnaldo Antunes)

Musica que não precisa de ornamentos, uma letra simples, melodia fácil e diz tudo. Balada soul com acento Cat Power. Pop perfeito com a base clássica do baixo de Deco Telles e a bateria de Thiago Rabello.  O mix vem nas teclas de Adriano Grineberg.

7-Alcoba azul

(Hernan Bravo Varela)

Da trilha Sonora do filme Frida, o tango entre duas mulheres vira aqui um encontro mais rock’n roll, com couro e motocicletas.

8-Saga

(Filipe Catto)

Saga entrou na trilha sonora da novela Cordel Encantado ao lado de icones como Caetano, Gil e Zé Ramalho. Uma música forte que já abriu as portas pro cantor e compositor, pro seu estilo e força e não poderia ficar de fora. Ganhou novo arranjo com violoncello de Marcos Ribeiro, bandoneon  de Carlittos Magallanes e

percussão de Filipe Catto  e  Sérgio Guidoux

 

9-Nescafé

(Alexandre Kumpinski / Ian Ramil / Diego Grando / Marcelo Souto)

Versao da banda Apanhador Só, despida, nua, a letra diz muito mais. Filipe ouviu no show e se apaixonou. Guitarra, piano e voz. De rasgar o coração mas na maior elegância.

10-Garçom

(Reginaldo Rossi)

Garçom – Arranjo que destaca o clima da canção, a letra evidencia com a qualidade do cantor, acento Maysa pra um sucesso brega. Fossa num bar de beira de estrada. Piano, orgao e Wurlitzer de Adriano Grineberg.

11-Crime passional

(Filipe Catto)

Da mesma fase de Saga mas composta por um observador. Resultado da pesquisa sobre tango, samba e samba canção que foi mostrada no primeiro EP.  A balada é do personagem. Dadi Carvalho assume o baixo, cavaquinho e pandeiro  de André Ressel se misturam ao violoncello  de Flavio DePaoli e ao Bandolim  de Sérgio Guidoux .

 

 

12- Roupa do corpo

(Filipe Catto)

Um samba, mais um dedicado a Elza Soares, nossa heroina. Ao contrario da mulher que aparece nos sambas tradicionais, ela aqui é aquela que vai, ela é o malandro. Percussão de Guga Machado.

13-Rima rica frase feita

(Nei Lisboa)

Atmosfera Angela Ro Ro, canção do gaucho Nei Lisboa gravada com a lembrança de Cássia Eller pairando pelo estúdio. Pra selar a pluralidade!

 

14-Dia perfeito

(Marcelo Gross)

Alto astral, o cantor deita e rola, se diverte com a ironia. Mais uma tirada do rock’n roll , uma homenagem aos tempos de loucura adolescente em Porto Alegre, ainda assim com as bençãos de Nina Simone misturando lindamente  piano com  percussão

15-Ave de prata

(Zé Ramalho)

O maravilhoso cancioneiro de Zé Ramalho visitado por Filipe Catto por intermédio de Elba. Essa maravilha estava no primeiro disco dela e foi pescada de lá. Momento de conexão com o divino. O violão de Dadi faz participação preciosa.

 

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