Nos 100 anos de Herivelto Martins, vamos lembrar do seu louco amor por Dalva de Oliveira.

Estadão

31 Janeiro 2012 | 16h50

Foi em 2010 que a tv Globo colocou no ar a história de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins contada por Maria Adelaide Amaral. Só perdi o primeiro capítulo e devo confessar que só não gostei mais do que vi por conta da minha própria ansiedade. Não é fácil ver uma cantora admirável, um ícone como Dalva de Oliveira como uma mulher que dorme no carro enquanto o marido agarra uma cabrocha dentro da gafieira. E Herivelto como um conquistador compulsivo. Me interessam especialmente aqueles momentos em que o genial compositor faz a parceria de sucesso “Praça Onze” com Grande Otelo e ganha o carnaval concorrendo com Ataulfo Alves. Mas eu sei que a série não era sobre música, mas sobre um relacionamento amoroso, ou vários, permeados pela música.
Sempre gostei dessa história, desse drama real e rodriguiano que rendeu tantos clássicos pra canção brasileira. Fico comovida com as composições que amigos de Dalva fizeram pra ela cantar ou ainda a maravilhosa “Segredo”, escrita pelo próprio Herivelto e seu grande parceiro Marino Pinto e que de certa forma deu origem à série de canções sobre sua história de amor em 1947. “Segredo” foi um grande sucesso da carreira de Dalva de Oliveira e uma das músicas pelas quais ela é conhecida até hoje ao lado de “Ave Maria no Morro”, também de Herivelto.
Era uma grande dupla. Posso até dizer que Dalva esteve para Herivelto como Aracy de Almeida para Noel Rosa. Duas vozes tão particulares, personalíssimas e que traduziam muito bem o espirito de seus criadores preferidos. Dalva tinha uma extensão vocal assustadora, de contralto à soprano. Deu voz à primeira Branca de Neve em versão brasileira, um personagem inesquecível. Foi faxineira de salão de baile antes de começar a cantar, quase foi cantora lírica mas foi mesmo como a estrela Dalva que se tornou conhecida no Brasil todo e brilhou nas décadas de 40, 50 e 60. Com Herivelto Martins teve grandes sucessos e uma vida atribulada.
O casal de separou durante uma viagem de trabalho. Eram muitas, sempre ovacionados, sempre em conflito. Dalva voltou ao Brasil em 1950 sem o marido compositor, e foi Vicente Paiva quem acreditou em seu retorno às paradas com a composição “Tudo Acabado”, de J.Piedade e Osvaldo Martins. Vicente Paiva (autor de Mamãe eu Quero e outros sucessos de Carmem Miranda) na época era diretor artístico da Odeon e deu um tiro certo. Dalva arrebentou com a canção, cantou pra fora das quatro paredes de “Segredo” todos os seus males de amor.
Francisco Alves já havia gravado “Caminhemos”, samba canção de 1947, onde Herivelto já anunciava o rompimento. Mas foi a partir da separação de fato que o ex-casal começa a expor suas diferenças. Não sei se fez bem a eles, mas para o repertório da canção brasilera foi uma maravilha. Exemplos: o bolero “Que Será”, de Marino Pinto e Mário Rossi que tem os famosos versos sobre a luz difusa do abajur lilás, e o samba “Errei sim”, que completa o título com “mas foste tu mesmo o culpado”, de Ataulfo Alves, ambas gravadas em 1950.
Essas canções estiveram no ar outra vez por mérito da série de tv, o que me deixa imensamente feliz. No rádio, só mesmo no Vozes do Brasil ou nas emissoras públicas como a Cultura Am.
Quer saber mais? Siga esse link para ler o texto sobre as letras da maravilhosa briga que nos deu tantos clássicos. E viva Herivelto Martins que ontem, dia 30 de janeiro, completou seu centenário! Esse texto foi escrito em 2010 e resolvi copia-lo aqui pra lembrar desse nosso gênio da canção brasileira.