Nara Leão, cantora fundamental

Estadão

14 de fevereiro de 2012 | 12h31

 

Suave e sofisticada. A serviço da letra da canção e cercada de maravilhosos musicos, arranjadores, compositores. Sempre do melhor. Aloysio de Oliveira a fez estreiar em disco no lendário selo Elenco.  Esteve no nascimento da bossa nova, recebendo, acolhendo, facilitando e assim que a bossa chegou nos discos já estava em outra. Foi tropicalista de primeira hora e mesmo cantando Chico Buarque não andou nas ruas contra a guitarra. Do pop foi pro samba de Zé Kéti e nunca se acomodou.  Nara Leão foi um furacão.

Em contraste com sua aparência frágil e voz pequena, nessa mulher sobravam atitude e opinião. Recusou o título de musa da bossa nova o quanto pode e causou polemica defendendo o samba e  as letras mais engajadas já no começo da carreira. Vendia muitos discos, era um sucesso nacional e o público a identificava com a turma do cantinho e o violao. Já na estréia tinha certeza do direito de cantar o que quisesse, mas é inegável que seu jeito, independente do gênero, é o mais bossa nova de todos.  Em 64, um jornalista da revista Fatos e Fotos, José Carlos de Oliveira escreveu numa crônica sobre Nara: “Você não ilude ninguém, Nara, pois qualquer coisa que você cante vem cheia de mar, de flor, de Copacabana”.  Ela foi, sem querer, a primeira namoradinha do Brasil.

De verdade mesmo namorou na adolescência Roberto Menescal,  parceiro de toda vida e pra quem apresentou o jazz. Depois Ronaldo Bôscoli, que fez pra ela o Lobo Bobo. Boscoli a perdeu depois de uma turnê pela América Latina com Maysa. Essa, de olho e de caso com ele, armou uma chegada bombástica no Santos Dumont com jornalistas esperando por eles na pista. De braço dado com o noivo de Nara anunciou que iria se casar com ele. Mais uma das histórias saborosas que conta Sergio Cabral na definitiva biografia de Nara Leão, um livro indispensável pra entender vida e obra dessa grande mulher.

 

Mas voltando ao Canto Livre de Nara Leão (nome de seu segundo lp em 1965 com direção musical de Luiz Eça), seu jeito timido de cantar foi evoluindo e se fortalecendo sempre atrelado ao discurso. Cuidadosa e aplicada, teve aulas de música com o maestro Moacir Santos. Gostava da intensidade das canções mas deixava que a letra se impusesse por si. Nas audições com gravadoras sempre levava “Insensatez”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Com a dramaticidade no ponto certo era suave sempre. Mesmo cantando “eu , voce, nos dois sozinhos nesse bar a meia luz…”   em Fotografia, de Tom Jobim, que gravou em 71 em Paris com Roberto Menescal ao violão.  Essa música de 1967, do lp a Certain Mr.Jobim, foi gravada por Dick Farney, Sylvia Telles, Elis Regina em 68, Astrud Gilberto e depois por Mariana de Moraes, , Rosa Passos, Gal Costa, Paula Morelenbaum… um clássico.

 

O repertório de Nara Leão apontava tendências e esteve sempre a frente, antecipando movimentos e lançando compositores. No Tropicalismo gravou Lindonéia, feita a seu pedido por Caetano e Gil sobre um quadro de Rubens Gershmann. A faixa entrou no Panis et Circensis e no lp de Nara todo arranjado por Rogério Duprat em 68. Nesse disco ela misturava “Mamãe Coragem”, de Caetano Veloso e Torquato Neto com “Odeon” de Ernesto Nazareth que ganhou letra de Vinicius de Moraes a pedido da cantora. Paulinho da Viola fez seu primeiro lp nesse mesmo ano e já em 69 ganhava de Nara a gravação de Coisas do Mundo Minha Nega. O samba abria o disco de Nara Leão e dava nome ao Lp. Coisas do Mundo trazia também Fez Bobagem, de Assis Valente, sucesso na voz da grande Aracy de Almeida – a Araca, Duquesa do Encantado (abro parentêses pra lembrar do livro de Herminio Bello de Carvalho que homenageia a cantora preferida de Noel Rosa e que deve fazer parte de toda biblioteca básica de um admirador da música brasileira, porque Aracy foi grande!)

Tarik de Souza escreveu muito bem sobre a sensibilidade de Nara Leão: “descobriu novatos, renovou esquecidos… e abriu a mente da multidão que a ouvia.”

Numa prova de psicologia, faculdade que cursou em 74, Nara escreveu sobre o uso da linguagem: “Pela palavra a comunicação se faz, mesmo que aquela encubra verdadeiros sentimentos. A palavra, muitas vezes é a saída. Mas ainda estamos longe de usar a linguagem como ela merece.”

Nara Leão é parte de uma linhagem nobre dentro da história da nossa música. Interpréte inteligente nas escolhas, musicalmente inovadora, afetiva e convicta.

Ele teria feito 70 anos agora em 19 de janeiro. Morreu em 89 deixando uma obra memorável que recomendo ouvir. Em 2001 a Universal lançou uma caixa  referência com seus primeiros discos e Fernanda Takai fez o lindo e premiado tributo “Onde Brilhem os Olhos Seus” em 2007. O site oficial de Nara Leão traz coisas incríveis como essa prova de psicologia que citei aqui e toda sua discografia (http://www.naraleao.com.br). Mesmo que Nara Leão não toque mais no radio, é fundamental ouvi-la. Talvez até por isso mesmo.

 

OBS: Esse texto foi publicado na coluna Ouvido Absoluto do Cadrno C2+Música do último sábado.

 

 

 

 

Tudo o que sabemos sobre:

Nara LeãoOuvido Absoluto

Tendências:

  • Stan Lee: todas as 29 aparições nos filmes da Marvel
  • Projeta Brasil do Cinemark apresenta filmes brasileiros por apenas R$ 4
  • Glória Maria faz cirurgia para remover lesão cerebral e passa bem
  • MIS abre novo lote para exposição imersiva de Da Vinci 
  • Mônica San Galo lamenta morte de Jesus Sangalo: 'pode-se morrer de mágoa'