Zhang Yimou chega à ‘Tela Quente’

Zhang Yimou chega à ‘Tela Quente’

Rodrigo Fonseca

07 de setembro de 2019 | 09h41

Matt Damon protagoniza esta superprodução chinesa de US$ 150 milhões que arrecadou US$ 355 milhões


RODRIGO FONSECA
Veneza termina neste sábado (com a consagração de J’Accuse, de Roman Polanski, com o Prêmio da Crítica), o ano cinéfilo já está se encaminhando para o fim e, até o momento, ninguém se pronunciou sobre os rumos de One second (Yi miao zhong) , o mais recente trabalho de Zhang Yimou que foi retirado da competição da Berlinale, em fevereiro, sem detalhes. Estima-se que foi censura do governo da China contra o diretor, que vai mobilizar a Tela Quente, da TV Globo, na segunda, às 22h20, após A Dona do Pedaço, com o eletrizante A Grande Muralha (2016).
É difícil aceitar o fato de o Cinema valorizar tão pouco a obra de Zhang Yimou mesmo sabendo de toda a sua contribuição seja em termos de cifras altas, seja em termos estéticos, afinal foi ele, lá atrás, em 1987, quem apresentou o audiovisual chinês moderno ao mundo, quando seu Sorgo Vermelho ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Foi a partir dele – e de Chen Kaige, com Adeus, Minha Concubina, de 1993 – que uma China de implosões e de geopolíticas outras que não a da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung ganhou as telas do planeta. Ali, abriu-se um terreno que para uma esquadra asiática de diferentes latitudes daquele continente pudesse ganhar circuito global. Se não bastassem filmes de tessitura dramática sofisticada como Tempo de Viver (Grande Prêmio do Júri em Cannes, em 1994) e Nenhum a Menos (Leão de Ouro em Veneza, em 1999), ele ainda surpreendeu exibidores com as bilheterias milionárias de Herói (2002) e da obra-prima O Clã das Adagas Voadoras (2004). Porém, a fama de pelego, de servidor do lado mais reacionário do Estado, ampliado quando dirigiu a festa de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, tolheu qualquer boca a boca fervoroso em prol de sua arte. O desejo de filmar com astros de Hollywood, como o galês Christian Bale, em Flores do Oriente (2011) tornou o diretor mais polêmico na visão dos puristas, que irão ao desespero ao ver o que ele faz em A Grande Muralha (The Great Wall), uma aventura com “A”.
Esperava-se que o longa-metragem pudesse entrar na Berlinale 2017, mas, não. Foi direito pro circuitão, onde disputou plateias a tapa com Fragmentado, de M. Night Shyamalan.
Gritarias correram à solta na Ásia quando ele escalou os americanos Matt Damon e Willem Dafoe para liderarem um elenco que valoriza uma estrela oriental de talento GG: Jing Tian. Num formato à la Mad Max: Estrada da Fúria (no qual Charlize Theron brilha mais do que Tom Hardy), é ela a heroína nos moldes clássicos deste épico estimado em US$ 150 milhões (algumas fontes dão mais) que, segundo o site Box Office Mojo, faturou US$ 335 milhões pelo mundo afora. Jing é a comandante Lin Mei, líder das tropas responsáveis por guardar a Grande Muralha da invasão de criaturas escamosas.
Escamas, guelras e garras se espalham pela telona neste espetáculo visual da mais pura transcendência que mistura a tradição asiática do gênero “filme de monstro” à cartilha do épico. Nele, vemos China que se estima ser do fim dos anos 1200, quando guerreiros europeus visitam a região à cata de pólvora. Os mercenários William (Damon, ótimo) e Tovar (o chileno Pedro Pascal, elemento cômico infalível) fazem parte da turba de invasores que buscam o “pó negro” dos chineses. Mas a passagem deles se dá num momento de conflito das tropas imperiais contra os Taoties, raça de répteis (ou algo assim) vinda de outro mundo que deseja se reproduzir pela Terra, comendo tudo o que se move. É mais uma metáfora para o canibalismo, tema da onda na ficção, vide The Walking Dead e derivados zumbis – não por acaso, um dos roteiristas é Max Brooks, do livro Guerra Mundial Z, filmado em 2013, com Brad Pitt. E também tem um quê de Alien.

Fora o ritmo e o virtuosismo das sequências de luta, A Grande Muralha surpreende por seu descaso com o realismo: não há um esforço de se enquadrar efeitos especiais ao Real, de modo a imprimir mais verossimilhança; há, sim, uma saturação das cores e da velocidade dos ilusionismos, de modo a acentuar o que há de mágico. É uma lógica similar àquela utilizada por ele em A Maldição da Flor Dourada (2006). Cada efeito parece uma animação, em especial os balões usados como transporte pelos chineses, no comando de Lin Mei, que lembra uma heroína de mangá, galvanizando o apreço do cineasta por guerreiras femininas impávidas, mas… humanas. E a presença do grande ator Andy Lau como um estrategista de guerra é um mimo à parte de um filme que parece uma mistura de O Senhor dos Anéis com A Invenção Hugo Cabret, sendo meio epopeia de formação nacional, meio fábula escapista.
Podem-se apontar, contudo, deficiências berrantes, como o esforço de se despolitizar os fatos em torno da criação da murada, atribuindo sua edificação apenas a folclores. E há certas inconsistências de roteiro, sobretudo na figura do mercenário vivido por Dafoe, cuja presença é desvalorizada e cujo personagem não para de pé. Mas nada disso dilui o viço do projeto, que expõe toda a ouriversaria deste mestre da direção que é Zhang Yimou.

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