‘Zeroville’, de James Franco, tem poesia, mas desaponta

‘Zeroville’, de James Franco, tem poesia, mas desaponta

Rodrigo Fonseca

23 de setembro de 2019 | 03h18


RODRIGO FONSECA
Laureado em San Sebastián em 2017 por seu delicioso “O Artista do Desastre”, o ator e cada vez mais diretor James Franco foi eliminado da competição oficial do festival espanhol de 2019 nas vésperas da projeção de seu (confuso, mas corajoso) “Zeroville”, depois de vazar a notícia de que um distribuidor russo lançou seu longa-metragem novo em terras e telas eslavas. Por regulamento, os concorrentes à Concha de Ouro da Espanha precisam estar inéditos em circuito no Velho Mundo. Mas o novo exercício autoral do astro de “127 horas” (indicado ao Oscar em 2011) faz jus aos bons trabalhos dele, como realizador, no passado. Falta concisão e rumo ao roteiro desta comédia de narrativa experimental sobre os bastidores da Hollywood de 1969. Concorrem com ele produções inéditas pilotadas por Louise Archambault, Guillaume Nicloux, José Luis Torres Leiva, Ina Weisse, Adilkhan Yerzhanov e David Zonana. É Franco quem protagoniza seu novo exercício por trás das câmeras, numa investigação sobre a indústria de cinema dos EUA há 50 anos. Ele vive Vikar, um arquiteto que acaba sendo tragado pelos estúdios, indo trabalhar como montador. Seth Rogen e Will Ferrel estão em seu elenco, mas não fazem mais do que repetir cacos e cacoetes de atuações anteriores.

É inegável o tônus poético do olhar de Franco, sobretudo na paixão de Vikar por Montgomery Clift (1920-1966) e sua atuação, ao lado de Elizabeth Taylor (1932-2011, em “Um lugar ao Sol” (1951). Chega a ter essas duas lendárias estrelas tatuadas em sua cabeça raspada. Numa Los Angeles selvagem e egoísta, esse cinéfilo vai se tornar um artista, aprendendo as regras da sobrevivência sob os holofotes. Mas Franco desperdiça muito da força dessa trama centrada em um processo de educação sentimental com uma edição trôpega, que repete, à exaustão, planos dele mesmo em close. A pontuação de sua gramática é equivocada, agilizando em demasia o que precisa ser lento e arejado e ralentando preguiçosamente o que precisa de um ritmo mais febril.
No domingo, na disputa pela Concha de Ouro, San Sebastián conferiu um concorrente da China: “Llamo and Skalbe”, de Sontha Gyal. Na trama, um casal apaixonado tem que abrir mão do sonho do matrimônio porque ele não completou seu divórcio legalmente e a ex pretende trazer problemas para os anseios românticos de seu antigo parceiro. Mas as razões disso não são movidas pelo egoísmo e sim por feridas profundas. Até o momento, no evento, que abriu as portas na sexta-feira, o longa em concurso com maior destaque é “Próxima”, da francesa Alice Winocour (de “Augustine”), no qual Eva Green vive uma astronauta com conflitos em um planeta não muito distante, chamado Maternidade.
Porém a produção com mais visibilidade da mostra oficial foi exibida hors-concours: a dramédia argentina “La Odisea de Los Giles”, de Sebastián Borensztein, com Ricardo Darín e seu filho ator, Chino. Vista por 1 milhão de pagantes na terra de nossos hermanos, o longa põe o astro no papel de um ex-craque de futebol que, em 2001, no ano da falência financeira de sua pátria, reúne um grupo de vizinhos, em uma cidadezinha do interior, para abrir uma cooperativa. A aposta desta segunda é “The other lamb”, da polonesa Malgorzata Szumowska (de “Body” e “Mug”), centrado nos feitos de uma seita religiosa.
San Sebastián segue até o dia 28, quando será realizada a cerimônia de premiação, precedida pela exibição de um filme surpresa, o que todos aqui acreditam ser o novo Woody Allen: “A rainy day in New York”.

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