‘Zeros and Ones’ de Ferrara busca visibilidade

‘Zeros and Ones’ de Ferrara busca visibilidade

Rodrigo Fonseca

27 de dezembro de 2021 | 08h49

RODRIGO FONSECA
Lançado nos EUA em novembro, meio na surdina, sem fazer alarde, “Zeros and Ones” tem alcançado os olhares (e o aplauso) da crítica internacional devagarzinho, caminhando para um lançamento forte em telas europeias a partir de fevereiro e já previsto para ser prensado como DVD e blu-ray no Canadá, em janeiro. Abençoado por uma divindade da atuação chamada Ethan Hawke, o novo filme do ítalo-americano Abel Ferrara disputou com garra o Leopardo de Ouro de Locarno, valendo-se da potência de ser uma das mais radicais (e poéticas) releituras da cartilha dos thrillers, incluindo os de cunho político, já feitos no cinema. Não por acaso, saiu do evento suíço com o troféu de melhor direção, uma das mais significativas honrarias que seu realizador recebeu em quatro décadas de invenção.
Ao cruzar experiências de textura de vídeo com a linguagem do Zoom e com a cartilha dos filmes de espionagem, o diretor de “Vício Frenético” (1992), cria um mosaico plástico que renova, formalmente, o filão. Só “Guerra Sem Cortes” (“Redacted”), que deu a Brian De Palma o prêmio de melhor direção em Veneza, em 2007, atingiu algo tão possante na decantação da linguagem cinemática a partir de um diálogo com os códigos do YouTube. Na dramaturgia, Ferrara inflama (e joga sal sobre) as velhas feridas abertas na geopolítica internacional pelas práticas intervencionistas dos EUA. Os diálogos, ferocíssimos, abrem-se a pérolas como “Jesus foi apenas mais um soldado, uma casualidade de guerra”. Esse desenho narrativo híbrido de videoarte, artes plásticas, colagem de pinturas e suspense ganha um colorido a mais do carisma de Hawke, dividido em dois papéis.
“Sempre acreditei que meu trabalho começa nas minhas escolhas. E sempre quis trabalhar com Ferrara, sobretudo depois de ver o que ele vem fazendo com Willem Dafoe ao longo dos anos”, diz Hawke num vídeo enviado a Locarno para abrir a projeção de “Zeros and Ones”.
Em “cartaz” nas livrarias com o romance “Código de um Cavaleiro”, lançado aqui pela Harper Collins, Hawke encontrou em Ferrara um parceiro valioso, em meio a uma carreira pontuada por trocas com mestres como Hirokazu Koreeda, Peter Weir, Rebecca Miller, Antoine Fuqua, Andrew Niccol e Richard Linklater (de quem também é parceiro de escrita). Sob a orientação de Abel, ele interpreta um militar americano, conhecido como J.J. O tal soldado vai até Roma (onde Abel mora) para uma missão antiterrorista. É o que parece, pelo menos, até sabermos que ele tem um irmão gêmeo, que corre perigo em meio a uma célula de terror que parece jihadista ao expor questões religiosas. Tais questões só reforçam o traço autoral de Ferrara.
“Falta autoentendimento no mundo. Falta um espaço para as pessoas se olharem nestes dias em que tudo é conectado e onde se rumina pouco as narrativas que a gente consome”, disse Ferrara ao Estadão em Berlim, em 2020, quando lançou “Sibéria”, um drama existencialista classificado como obra-prima, e exibido na Mostra de São Paulo.
Mas em “Zeros and Ones”, ele se supera, unindo o melhor dos dois mundo de sua obra. Temos, de um lado, a experimentação (quase no plano da textura) e, do outro, a habilidade de investigar a brutalidade como um cronista do desassossego alimentado pela contravenção.

Realizador de longas cultuados como “Rei de Nova York” (1990) e “Maria” (Grande Prêmio do Júri em Veneza, em 2005), Ferrara faz uma espécie de autobiografia, em 2019, no longa “Tommaso”, um díptico completado por “Sibéria”. Com a ajuda de Willem Dafoe, seu habitual parceiro, a produção narra a saga de um diretor, ator e professor de atuação americano, residente na Itália, que lida com conflitos de amor e com a educação de sua família pequena. Ele dá aula de encenação a uma claque de europeus enquanto cuida de sua filha. “Eu trabalho em trupe, em equipe, trocando ideias, num processo criativo que leva tempo, e este filme é parte desta construção em equipe”, diz Ferrara, que, num prolífico jorro de criação, tem rodado vários .docs, entre eles o ótimo “The projectionist”, radiografia do wildest side de Nova York a partir das histórias de Nick Nicolaou, um exibidor de filmes.
Sua filmografia documental sempre alia retrato de personagens pautados pela rebeldia com radiografias de cidades. Seu recente “Sportin’ Life”, que rodou em Berlim em 2020, ele mostra o cotidiano de Berlim em meio ao início do surto da covida-19. “Na visão estética que persigo, todo filme é um documentário, a partir do momento que tenta reproduzir uma realidade, seja ela qual for. Mesmo uma ficção ganha status documental em seu empenho de realizar um registro humano”, disse Ferrara, que enche “Zeros and Ones” de menções ao coronavírus, com personagens de máscaras, passando álcool gel.
Que chegue logo ao Brasil, de carona no barulho que Hawke há de fazer como vilão na série da Marvel “Cavaleiro da Lua”, enfrentando Oscar Isaac.

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