‘Zeros and Ones’: 10 pra Abel Ferrara

‘Zeros and Ones’: 10 pra Abel Ferrara

Rodrigo Fonseca

12 de agosto de 2021 | 19h23

Ethan Hawke em “Zeros and Ones”


RODRIGO FONSECA

Abençoado por uma divindade da atuação chamada Ethan Hawke, “Zeros and Ones”, o novo filme do ítalo-americano Abel Ferrara, exibido nesta quinta, na luta pelo Leopardo de Ouro de Locarno, é uma das mais radicais (e poéticas) releitura da cartilha dos thrillers, incluindo os de cunho político, já feitos no cinema. Ao cruzar experiências de textura de vídeo com a linguagem do Zoom e com a cartilha dos filmes de espionagem, o diretor de “Vício Frenético” (1992), cria um mosaico plástico que renova, formalmente, o filão. Só “Guerra Sem Cortes” (“Redacted”), que deu a Brian De Palma o prêmio de melhor direção em Veneza, em 2007, atingiu algo tão possante na decantação da linguagem cinemática a partir de um diálogo com os códigos do YouTube. Na dramaturgia, Ferrara inflama (e joga sal sobre) as velhas feridas abertas na geopolítica internacional pelas práticas intervencionistas dos EUA. Os diálogos, ferocíssimos, abrem-se a pérolas como “Jesus foi apenas mais um soldado, uma casualidade de guerra”. Esse desenho narrativo híbrido de videoarte, artes plásticas, colagem de pinturas e suspense ganha um colorido a mais do carisma de Hawke, dividido em dois papéis.
“Sempre acreditei que meu trabalho começa nas minhas escolhas. E sempre quis trabalhar com Ferrara, sobretudo depois de ver o que ele vem fazendo com Willem Dafoe ao longo dos anos”, diz Hawke num vídeo enviado a Locarno para abrir a projeção de “Zeros and Ones”.

Sábado o festival vai chegar ao fim e é difícil não esperar um prêmio de peso para Ferrara. No longa, Hawke é um militar americano, conhecido como J.J. Ele vai até Roma (onde Abel mora) para uma missão antiterrorista. É o que parece, pelo menos, até sabermos que ele tem um irmão gêmeo, que corre perigo em meio a uma célula de terror que parece jihadista ao expor questões religiosas. Tais questões só reforçam o traço autoral de Ferrara.

“Falta autoentendimento no mundo. Falta um espaço para as pessoas se olharem nestes dias onde tudo é conectado e onde se rumina pouco as narrativas que a gente consome. É por isso que eu estou sempre retratando pessoas que estão buscando encontrar paz e equilíbrio. A fé é parte dessa busca, dessa trilha por resistência. Tenho interesse pela habilidade que muitas pessoas ainda têm de crer no Altíssimo, em Buda ou seja lá no que for. Eu acredito que exista o Absoluto, em parte por conta de minhas origens italianas cristãs, e em parte pelo fato de o cinema ter me apresentado ao Sagrado… um outro Sagrado, humanizado”, disse Ferrara ao Estadão em Berlim, em 2020, quando lançou “Sibéria”, um drama existencialista classificado como obra-prima, e exibido na Mostra de São Paulo.

Ferrara nas filmagens

Mas em “Zeros and Ones”, ele se supera. “Na nossa educação familiar numa América de gênese italiana, Os Dez Mandamentos crescem com a gente e nos oferecem histórias. Depois, já na minha adolescência de cinéfilo, o contato com Pier Paolo Pasolini me levou a ‘São Mateus’, numa revisão política e poética do Evangélico. A crença que o meu berço me deu no mistério do Céu foi seguida pela crença na linguagem cinetamtográfica, que veio de Pasolini, uma espécie de rockstar da invenção. Ele fez de sua morte uma imolação pública. E seu cinema é uma cartilha de reação. Acho que faço cinema hoje para buscar essa inquietação”.

Realizador de longas cultuados como “Rei de Nova York” (1990) e “Vício Frenético” (1992), Ferrara faz uma espécie de autobiografia, em 2019, no longa “Tommaso”, um díptico completado por “Sibéria”. Com a ajuda de Willem Dafoe, seu habitual parceiro, a produção narra a saga de um diretor, ator e professor de atuação americano, residente na Itália, que lida com conflitos de amor e com a educação de sua família pequena. Ele dá aula de encenação a uma claque de europeus enquanto cuida de sua filha. “Eu trabalho em trupe, em equipe, trocando ideias, num processo criativo que leva tempo, e este filme é parte desta construção em equipe”, diz Ferrara, que, num prolífico jorro de criação, tem rodado vários .docs, entre eles o ótimo “The projectionist”, radiografia do wildest side de Nova York a partir das histórias de Nick Nicolaou, um exibidor de filmes.

Sua filmografia documental sempre alia retrato de personagens pautados pela rebeldia com radiografias de cidades. Seu recente “Sportin’ Life”, que rodou em Berlim em 2020, ele mostra o cotidiano de Berlim em meio ao início do surto da covida-19. “Na visão estética que persigo, todo filme é um documentário, a partir do momento que tenta reproduzir uma realidade, seja ela qual for. Mesmo uma ficção ganha status documental em seu empenho de realizar um registro humano”, disse Ferrara, que enche “Zeros and Ones” de menções ao coronavírus, com personagens de máscaras, passando álcool gel.
Locarno termina neste dia 14/8, com a entrega de seus troféus e a exibição de “Respect”, biopic de Aretha Franklin.

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