Zequinha de Abreu nos acordes de Carlo Mossy

Zequinha de Abreu nos acordes de Carlo Mossy

Rodrigo Fonseca

31 de julho de 2020 | 13h47

Rossana Ghessa entre o ator Leonardo Arena (de barba) e o diretor Carlo Mossy: os três unem esforços e talentos em .doc sobre Zequinha de Abreu

Rodrigo Fonseca
Patrimônio (vivo) de valor inestimável da pornochanchada brasileira, o ator, produtor e diretor Carlo Mossy vem atravessando a década dedicado a um registro narrativo bem diferente das comédias eróticas (tipo “Com as Calças na Mão”) que fizeram de seu nome uma garantia do salas lotadas: o documentário. Debruçando-se sobre a não ficção, o realizador de “As Massagistas Profissionais” (1976) se dedica agora a lapidar uma biopic sobre o compositor Zequinha de Abreu (1880-1935). “Só Pelo Amor Vale a Vida” é o projeto, nascido de um papo com a produtora Mirella Spadon, que o astro de “Copacabana Me Engana” (1968) finaliza neste momento, transitando pela estética do docudrama, a reconstituir fatos do início do século XX, em Santa Rita do Passa Quatro, tendo o ator Leonardo Arena no papel do músico. Pra viver a mulher de Zequinha, Durvalina, Mossy convocou uma antiga parceira sua das telas: Rossana Ghessa, sua colega em “Lucíola, o Anjo Pecador” (1975).
“O que eu conhecia o Zequinha era a música ‘Tico-Tico no Fubá’ e o filme mais clássico feito sobre ele, com o Anselmo Duarte. Mas ao adentrar na vida dele, depois de uma conversa com a Mirella, e conhecer sua obra, descobri um poeta e um músico sem parâmetros em nossa cultura. Este filme ganhou muito das boas ideias do Leo Arena, que interpreta o Zequinha. E o nosso empenho foi pode apresentar os feitos do grande compositor de Santa Rita do Passa Quatro às novas gerações”, diz Mossy, cujos filmes dos anos 1970 e 80 são hits no Canal Brasil há anos.

O jovem Mossy com Odete Lara em “Copacabana Me Engana”

Em 2006, sua carreira como pornochancheiro ganhou uma retrospectiva no Cine Odeon, que mobilizou o Centro do RJ. Ele ainda imortalizou seus trabalhos pelas veredas do sexo em uma caixa de DVDs, hoje disputada a tapas pelos fãs das tramas de alcova que contabilizavam milhares de ingressos vendidos no país. Em 2012, ganhou um prêmio especial no Festival de Brasília, pelo conjunto de sua carreira, como menção honrosa por seu desempenho no filme “Boa Sorte, Meu Amor”, de Daniel Aragão. De quebra emplacou o personagem Lúcifer Santos, na série “Magnífica 70”, da HBO. Mas a inquietação criativa para dirigir nunca abandonou seus pensamentos, o que o levou a apostar nas narrativas documentais.
“O documentário, hoje, apresenta-se para mim com o um veio para apresentar fatos concretos sobre pessoas, lugares ou situações que mexem com a minha nostalgia. Sou muito saudosista e romântico. E Zequinha mexe com esse meu lado”, disse Mossy, que reuniu no longa uma (impressionante) montagem com cenas de reinterpretações dos acordes de “Tico-Tico no Fubá” pelo mundo afora, numa sequência onde esbanja exuberância e maturidade.
Em “Só Pelo Amor Vale a Vida”, Mossy resgata, por meio de entrevistas e pesquisas em documentos raros, o processo de aprendizado musical de José Gomes (Zequinha) de Abreu, cuja formação se inicia na infância, de maneira quase autodidata. Ainda guri, ele demonstrou grande facilidade com os instrumentos, tocando melodias simples em uma gaita, até aprender a tocar ocarina. “Sou ator há muitos anos, mas encarar um personagem da relevância do Zequinha é um marco. A Mirella achou que eu era muito parecido com ele e encarei essa responsabilidade”, diz Arena, que empresta carisma à recriação histórica promovida por Mossy.

Leonardo Arena em cena de “Só Pelo Amor Vale a Vida”

Ele e Rossana têm cenas luminosas. “A gente só sabia sobre a Durvalina a partir dos depoimentos dos moradores de Santa Rita do Passa Quatro. Sabia-se que era uma mulher apaixonada pelo marido. Mas a minha questão era ir além disso e mostrar o quanto ela foi uma mulher forte, que criou os filhos sozinha”, disse Rossana ao P de Pop. “Só conheci o Mossy como ator. Fomos parceiros em vários filmes. Em “Lucíola”, fazemos um par romântico maravilhoso. Segundo o meu entender, foi o par romântico mais bonito do cinema brasileiro. Mas eu não conhecia o diretor Carlo Mossy. E, como realizador, ele age como um regente de orquestre, sempre cuidadoso e me dando instruções para construir uma personagem de força. Acabei de convidar ele pra fazer comigo o filme ‘A Morte Está Online’. E ele aceitou”.
Em sua fase documentarista, Mossy filma a todo vapor. “Eu tenho quatro longas-metragens inéditos, nos quais estou mexendo continuamente, como fiz com ‘Só Pelo Amor Vale a Vida’. Neste, eu conto sempre com a visão do Leo Arena, que tem um olhar fantástico. E ainda contamos com reflexões de Ricardo Cravo Albin, decano da pesquisa musical no país, e de Ricardo Cota, curador da Cinemateca do MAM”, diz Mossy, elencando seus projetos. “Tenho um curta sobre o Retiro dos Artistas, que chamei de “Intervalo”. Tenho ainda um trabalho chamado ‘Metáfora de Mim Mesmo’. E sigo fazendo”.

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