‘Zama’: Lucrecia Martel ao alcance da MUBI

‘Zama’: Lucrecia Martel ao alcance da MUBI

Rodrigo Fonseca

14 de outubro de 2020 | 11h49

Aos 53 anos, Lucrecia Martel prepara um novo longa, o .doc “Chocobar”, enquanto seu “Zama” faz carreira na MUBI

Rodrigo Fonseca
Tendo um leopardo dourado como símbolo, o Festival de Locarno, evento suíço respeitado no mundo todo como um reduto de investigação de linguagens, não pode sair do papel neste ano de pandemia, mas premiou projetos filmes que ainda estão em andamento como um gesto de chancela estética para ideias pautadas pela ousadia: caso da atual aventura cinematográfica da argentina Lucrecia Martel. Associado ao Sundance Institute. “Chocobar” seguiu em gestação ao longo da 40ena. Nele, a realizadora de “O Pântano” (“La Ciénaga”, 2001) resgata a memória de lutas do fotógrafo e ativista Javier Chocobar (1941-2009), um ferrenho defensor dos povos indígenas, assassinado como sequela de suas pelejas pela reforma fundiária. O .doc marca o regresso da realizadora de 53 anos à direção de longas depois de sua aclamada experiência em “Zama” (2017), laureado com 40 prêmios. Feito em parceria com a Bananeira Filmes, da mineira Vânia Catani, este sinestésico drama de época acaba de entrar para o menu da MUBI, o streaming de curadoria humanizada, especializada em produções calcadas no risco. Em cena estão estrelas nacionais como Mariana Nunes, Evandro Melo e Matheus Nachtergaele. Estão na grade dessa plataforma de escopo mundial os longas brasileiros “Canção da Volta”, de Gustavo Rosa de Moura, e “A Floresta de Jonathas”, de Sérgio Andrade. Na sexta, entra para esse cardápio o curta-metragem “Alfazema”, de Sabrina Fidalgo: uma celebração do carnaval a partir de uma fábula na qual Deus (Elisa Lucinda) participa da folia.
Mas do que se trata “Zama”? Homem cordial, mas de uma cordialidade com aquele senso de obediência utilitária apontado sociologicamente por Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), Zama, o protagonista do longa-metragem homônimo de La Martel é uma espécie de Policarpo Quaresma na colonização espanhola. Não entra no delírio do ufanismo patriótico, ao contrário do que faz o personagem de Lima Barreto (1881-1922). Ainda assim, como ele, Zama é o único herói possível (mesmo que num heroísmo involuntário) para uma pátria moldada na rapinagem. No quarto longa da diretora de “A Menina Santa” (2004), Zama, um nobre inspetor da Coroa de Espanha, interpretado por Daniel Giménez Cacho (de “Má Educação”) no limite da contenção de gestos, é a única pedra no caminho do mecanismo de corrupção estabelecido entre a metrópole e suas colônias. Isso se dá num século XVIII maculado por banditismos sociais. Não é da natureza inercial dele combater os corruptos. Contudo, sua retidão no dever atrapalha a demanda por vista grossa feita por seus superiores. E embora saiba se adaptar às necessidades do meio, pela sobrevivência dos fortes e a resignação dos fracos, Zama é a encarnação do burocrata kafkiano: leva às últimas consequências as exigências que as engrenagens da máquina do Poder necessitam para sobreviver. Mas sabe que isso irrita aqueles que, longe da Europa, estabeleceram um estado de exceção do Mal, ou seja, o Estado da Propina, da Derrama, de Caixa Dois.

Não por acaso, o filme – uma expedição ao passado colonial das Américas, organizada a partir de uma exuberante engenharia visual na fotografia do português Rui Poças e na direção de arte da pernambucana Renata Pinheiro – tem DNA brasileiro. Não há ninguém capaz de entender melhor, na carne, a dor de um pretérito imperfeito de corrupções do que nós, do Brasil. Até porque, um dos desejos da diretora é expor essa imperfeição de gênese de nosso continente sob uma ótica multinacional. O que dói aqui também dói na Argentina de Martel, assim como na paraguaia Asunción, para onde o Policarpo de Lucrecia é transferido, na caça por um terrorista chamado Vicuña Porto.
Como um castigo por seu exercício burocrático (de olhos abertos ao que não deveria ter visto), Zama é obrigado a caçar Vicuña, nos rincões praianos do Novo Mundo sul-americano. Ali, o anacoreta acaba se aproximando de figuras estranhas como o mercenário vivido por um inspiradíssimo Matheus Natchergaele. É um homem que fascina, mas, ao mesmo tempo, aterroriza Zama, como tudo em sua volta, nas horas que antecedem seu sonho de regressar ao posto de cidade grande que tanto deseja ocupar. Até a caça ao bando de Vicuña começar, Lucrecia faz uma espécie de geografia – física e humana – dos feudos que se constroem na colônia, cimentados pela subserviência, pela prevaricação e pelo jeitinho ibérico de driblar convenções morais. Parece uma estrutura nova para uma cineasta acostumada ao intimismo e uma investigação de sentimentos que beira o existencial, como vimos no supracitado “O Pântano” ou em sua obra-prima, “A Mulher Sem Cabeça” (2008). Mas há algo de familiar, para além das marcas autorais de direção. A principal delas é o cuidado dela com o desenho de som, dando a ruídos e engasgos o peso de uma fala.

O funcionário da Coroa Zama (Daniel Giménez Cacho) cruza com uma misteriosa figura vivida por um Matheus Nachtergaele em estado de graça

O ponto mais comum é a contenção, assunto central de sua obra, que soma já 32 anos de cinema. Em 1988, “El 56”, um curta-metragem de animação, marcou a estreia dela na telona; ainda que Lucrecia considere outro curta, “Rey Muerto”, de 1995, como o primeiro filme genuinamente seu como realizadora. Em seus dramas sobre mulheres da província de Salta, ambientados nos dias de hoje, o foco do drama são verdades contidas: a opção em se represar vontades. “Zama” é um filme de época. Um filme sobre um homem. E um filme sobre os efeitos cancerígenos do dinheiro. Mas, na prática, o ontem que o longa recria (com a magistral luz de Rui Poças) não é muito distinto das zonas pantanosas flagradas pela cineasta nas mulheres dos nossos dias e nos homens que as sufocam. O relato histórico deste seu precioso novo filme dispensa cartilhas da narrativa épica – tão comuns a reconstituições – e aposta numa psicologia do impasse, na tentativa de entendimento acerca da burocracia interna de Zama, estudando que carimbos legitimam seus medos e suas perversões. É um estudo da alma, com a crueza desconcertante que faz de Lucrecia um patrimônio cinéfilo da América Latina e com um ritmo de contemplação do Espaço e do silêncio a seu redor que consagra a montadora Karen Harley como uma de nossas mais criativas editoras de imagem. Coproduzido pela El Deseo, dos irmãos Agustín e Pedro Almodóvar, o filme é um olhar atônito para uma América de desesperanças.

p.s.: Helena Petrovna Blavatsky foi uma das figuras mais notáveis do mundo nas últimas décadas do século 19, tornando-se imprescindível para o pensamento moderno. O monólogo “Helena Blavatsky, a voz do silêncio”, que estreia, dia 18 de outubro, em ambiente virtual, apresenta ao público a vida e obra desta renomada pensadora russa e instiga uma profunda reflexão sobre a busca do homem pelo conhecimento filosófico, espiritual e esotérico. Escrita pela filósofa Lucia Helena Galvão, a montagem retoma a parceria entre a atriz Beth Zalcman e o encenador Luiz Antônio Rocha, depois do sucesso da peça “Brimas”, pelo qual a atriz foi indicada ao prêmio Shell de melhor texto. As sessões serão aos domingos, às 19h30, e às terças, às 20h30h, com venda de ingressos pelo Sympla e transmissão do espetáculo pela plataforma Zoom (www.sympla.com.br/helenablavatskyavozdosilencio). Logo após cada sessão, haverá um bate-papo com o diretor, a autora e o atriz do espetáculo sobre o legado deixado pela escritora.

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