‘You Tubers’: Curta! um novo audiovisual

‘You Tubers’: Curta! um novo audiovisual

Rodrigo Fonseca

04 de setembro de 2020 | 12h01

Jout Jout em uma das cenas de “You Tubers”: dia 11/9 no ar no Curta!

Rodrigo Fonseca
Celebridades da arte de resistir (via web), Jout Jout, Rita von Hunty, Apóstolo Arnaldo e Spartakus – influenciadores digitais de perfis distintos, mas de causas complementares – abrem o verbo sobre a conjugação da resiliência e a batalha contra a intolerância na primeira pessoa do plural no documentário “You Tubers”, em cartaz no Canal Curta! a partir dia 11. A primeira exibição será às 21h30, no dia 11/9. Outras sessões estão marcadas para 12/09 (à 1h30 e às 15h); dia 13/09/2020, às 22h30; dia 14/09, às 15h30; e dia 15/09, às 9h30. A direção é de Sandra Werneck (da delícia “Amores Possíveis” e de “Cazuza – O Tempo Não Para”) e de Bebeto Abrantes (de “Recife/Sevilha – João Cabral de Melo Neto”), que assinou com o crítico Carlos Alberto Mattos a curadoria do evento do ano, o seminário Na Real_Virtual. Nesta conversa com o P de Pop, os dois falam sobre a jornada documental que fizeram em busca de compreender a jornada ética e estética de artífices de uma nova comunicação.
O que a pesquisa e a execução do doc apresentou a vcs sobre esse universo dos YouTubers e seu papel social? Seria possível definir a atividade deles como arte, como jornalismo, como sociologia?
Sandra Werneck:
Acredito não ser possível encaixar a atividade que estes personagens exercem em qualquer rótulo anterior a estes tempos. Esses criadores de conteúdo trabalham com suas personas, aquilo que projetam para a rede, muitas vezes sem filtros ou, algumas vezes, mais produzidos, para tornar essa persona palatável ao grande público da internet. É uma nova face da comunicação, direta e sem intermediários entre o emissor e o receptor, algo novo, do nosso tempo. Dessa forma, esta mensagem, com todo conteúdo que pode compartilhar, seja de entretenimento ou de engajamento social, ganha uma dimensão sem fronteiras através da universalidade da internet.
Bebeto Abrantes: A questão dos YouTubers é um verdadeiro fenômeno com mais de dez anos de existência. Num mundo onde tudo é tela, cada um é (pode ter) seu próprio canal de TV. A televisão no Brasil sempre foi um meio de comunicação centralizadíssimo nas mãos de poucos e privilegiados megagrupos de comunicação. Com as novas plataformas digitais, isso vem mudando e é nesse contexto que surgem os YouTubers. Mas, apesar da força e da importância social do fenômeno, pouca gente sabe como funciona e o que se passa e é passado para a sociedade, nesse universo de redes individuais e coletivas de comunicação. As novas gerações, com menos de 30, conhecem e interagem fielmente com esses novos influenciadores digitais. As que vieram antes os desconhecem e/ou os ignoram. O fato é que se trata de um mundo repleto de mundos, da culinária às causas sociais, do puro divertimento à nada ingênua produção de fake news. Nesse sentido, a atividades dos YouTubers são um mix de arte, jornalismo, ativismo e, muitas vezes, embromação. Isso foi o que a pesquisa para realizarmos ‘You Tubers’ nos mostrou.
Os youtubers escolhidos têm um perfil nas franjas do ativismo, em campos diversos, ou nas franjas de batalhas políticas pela afirmação da tolerância. Como foi o critério de seleção deles e qual foi a dinâmica de diálogo com eles na construção da linguagem?
Sandra Werneck:
Com a “liberdade de fala” que a internet proporciona (trazendo com isso uma face perigosa do ódio e das fake news, por exemplo), quisemos tomar o cuidado de trazer pessoas reais, histórias reais, pois nosso filme é predominantemente sobre os criadores que fazem este novo audiovisual. O fato de alguns dos influenciadores em questão possuírem um posicionamento mais forte em suas causas é consequência desta seleção por pessoas de verdade, e não robôs ou propagadores de desinformação.
Bebeto Abrantes: O principal critério foi o da diversidade temática. Temática e da linguagem audiovisual dos programas exibidos nos canais dos protagonistas. Jout Jout, a mais experiente e com maior número de seguidores (2,3 milhões), tem como marca a espontaneidade e o humor ácido como trata as questões de gênero. Spartakus, negro, homossexual e nordestino, aborda suas vivências amorosas e sexuais com uma delicadeza e sinceridade comoventes. Apóstolo Arnaldo faz um incômodo, surpreendente e irônico ataque à banda podre das poderosas igrejas e pastores pentecostais. E, Rita von Hunty, a persona Drag Queen de Guilherme Terreri, louca amante dos livros, é a clareza e a racionalidade crítica em carne e osso. Como estratégia de abordagem e apresentação desses protagonistas, optamos por revelar com um delicado equilíbrio a PESSOA e a PERSONA de cada um deles. A narrativa do filme avança trançando, entrelaçando, esses dois lados de cada um dos nossos protagonistas. No plano da linguagem, optamos por uma linguagem cinematográfica com planos longos e sem a edição clipada que caracteriza os programas desses e da maioria dos YouTubers. A linguagem “deles” entra, pontualmente, a partir de trechos de seus programas, quebrando, mas sem descaracterizar, o fluxo de nossa montagem cinematográfica. Chegamos a pensar em elaborar uma linguagem mais com a cara dos programas de YouTubers, mas, optamos por construir uma linguagem que misturasse a nossa linguagem, com a das pessoas entrevistadas.

O filme vai pro Curta!. Que papel o canal hoje estabelece na carreira de um filme como esse? O que as TVs a cabo e as plataformas de streaming expressam na economia do documentário brasileiro?
Sandra Werneck:
Canais como o Curta! são um respiro para o cinema documental brasileiro, com pouco espaço nas salas de cinema. Acredito que canais e plataformas de streaming podem abrir uma janela para o público conhecer histórias, se informar e formar sua própria opinião, um direito de todos e essencial para qualquer democracia.
Bebeto Abrantes: As TVs a cabo foram um dos fatores responsáveis pela ampliação da cultura dos documentários em nosso país e no mundo. Existem vários outros, como os equipamentos digitais, festivais e mostras de cinema, e mesmo, a produção acadêmica a respeito dos filmes do real. Posteriormente, as plataformas de streaming entraram no jogo com toda a força, dando sua contribuição também. Mas, sem ilusões, muito timidamente, muito mesmo! No cenário da produção e difusão audiovisual, em particular da economia do documentário brasileiro, o .doc ainda continua o primo pobre. Mas, quem há de negar que seja o primo mais instigante, o primo que alimenta de novidades a linguagem audiovisual? Detalhe: há quem diga que isso sempre foi assim na história do cinema…

Que Brasil está refletido ali em ‘You Tubers’? E com que Brasis ele pode conversar?
Sandra Werneck:
O Brasil se enxerga nos personagens de “You Tubers”, não só através de causas que alguns deles vivem e discursam, mas também à medida que nossos jovens cada vez mais se relacionam pelas redes, como forma de conhecimento e intercâmbio de ideias, contribuindo para a construção de um amplo diálogo entre múltiplas realidades do país. Desta forma conversa com os Brasis reais, os Brasis dos preconceitos, das diferenças, das desigualdades sociais como reflexos de anos de uma sociedade patriarcal e colonialista.
Bebeto Abrantes: O Brasil refletido em “You Tubers” é um Brasil do Bem, que não se cansa de dizer – inclusive com muito humor e agudeza política – que as diferenças são o sal da terra. O filme grita: paremos de transformar diferenças em desigualdades! Esse é o grande mal de nossa formação histórica: o OUTRO é sempre menos. Burrice, o OUTRO é TUDO, é o que nos enriquece como seres humanos.

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