‘Yardie’, pérola que o Brasil não viu

‘Yardie’, pérola que o Brasil não viu

Rodrigo Fonseca

05 de março de 2020 | 11h26

Um dos traficantes que ameaçam Londres em “Yardie”, de Idris Elba

Rodrigo Fonseca
Envolvido em “Three Thousand Year of Longing”, o novo filme de George Miller (de “Mad Max”), ao lado de Tilda Swinton, Idris Elba está de volta à grade do mundo streaming com a escalação de seu obrigatório “Luther” para o Globoplay. Mas falta ainda espaço para seu glorioso “Yardie”, o trabalho de estreia do ator na direção de longas-metragens, no circuito brasileiro, ou mesmo em nossa TV. Vai ter Elba ainda no novo “Esquadrão Suicida” e no faroeste “The Harder They Fall”. Só que não existe explicação para o desdém em relação à produção dirigida por ele, lançada em 2018 em Sundance e na Berlinale. Embebido em tintas sociais, assumidamente inspirado em “Cidade de Deus” (2002), o filme despontou sob os holofotes dos internautas no YouTube há dois anos. Falou-se dele por todo o lado da web desde que um teaser com imagens sobre a cruzada de vingança de um jamaicano no submundo da Londres dos anos 1980 mostrou a força visual de Elba como realizador.

Aos 47 anos, o ator britânico de descendência africana (seu pai é de Serra Leoa; a mãe, de Gana), adaptou em “Yardie” o romance de Victor Headley sobre a realidade de adolescentes negros marcados pelo crime em duas nações distintas, unidas pela língua inglesa. Exibida na seção Panorama do Festival de Berlim, esse drama criminal tornou-se um fenômeno midiático na web.

“Tentei buscar no crime um rito de passagem, uma narrativa de travessia ética tirada de um processo de amadurecimento, passando pela questão racial mas sem estacionar nela. Foi isso o que encontrei em ‘Cidade de Deus’ quando vi pela primeira vez. Era uma realidade nova, a vida das favelas do Rio, mas algo bem universal”, disse Elba ao P de Pop. “Eu não defino o cinema por cor da pele, e sim pela força das narrativas para além dos tipos que a impulsionam. Desde que eu perdi meu pai, há pouco anos, resolvi fazer a escolha pela arte que faz diferença, e não pela arte que dá fama e alimenta vaidades. Fui dirigir porque tinha algo a dizer como cineasta, e não pelo mero prazer de filmar”.

Encarado como um dos mais populares astros afrodescendentes do cinema, tendo sido cotado para substituir Daniel Craig no posto de James Bond na franquia “007”, Elba faz sucesso na TV europeia à frente do já citado seriado policial “Luther”, hoje no Globoplay. É dali que ele tirou muito da manha com a representação do crime que guia a trama de “Yardie”. Sua trama gravita entre a Jamaica de 1973 e os becos mais violentos da Londres de 1983, conforme acompanha o processo de amadurecimento de D. (Aml Ameen), um traficante que busca no crime meios de se vingar da morte de seu irmão.

“Londres eu conheço de berço, sobretudo a Londres da baixa e desempregada classe operária, com bolsões de pobreza, miséria e violência. Nunca fiz parte dela por ter um pai presente e companheiro do meu lado. Talvez por isso, ‘Yardie’ seja um drama sobre a ausência do lastro paterno. Mas o desafio para contar isso entre duas nações era mostrar uma Jamaica que soasse realista a quem vem de lá, sem parecer um cartão postal à avessas”, admite Elba, que exibiu o longa em Sundance, em janeiro, antes de entrar na Berlinale, onde foi um dos títulos de maior prestígio entre críticos e espectadores. “D. é o rapaz que cruza o mundo para honrar um amor perdido. E eu recheio o caminho dele de encontros com mulheres fortes, como sua namorada de infância e uma filha, para equilibrar a brutalidade do masculino. O equilíbrio mais duro de encontrar foi com a prosódia jamaicana do inglês. Não é fácil para um britânico entender tudo o que eles falam. Às vezes, eu pedia para que eles repetissem o take falando de uma forma mais próxima do inglês do Reino Unido, com menos sotaque, mas sem perder o regionalismo ao meu redor”.

Apelidado em Berlim de “o novo Denzel Washington”, Elba estrutuou “Yardie” como um filme de ação hollywoodiano, cheio de adrenalina nas cenas de perseguição e de trocas de tiros. Impactou a Berlinale pelo uso de cores saturadas, exacerbando o colorido cultural da Jamaica e dos subúrbios londrinos. Seu realismo torna a violência crua, sem estilizações, abrindo espaço para o exotismo apenas num flerte com o sobrenatural, nos diálogos entre D. e o fantasma de seu irmão morto.

“Personagens existem para sintetizar a diversidade de uma cultura. E no caso da realidade da Jamaica, a religiosidade e o misticismo estão por todo lado”, diz Elba. “Gosto de estar onde haja boas histórias, seja na Inglaterra, em Hollywood ou no Brasil, onde adoraria filmar”.

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