‘Yakuza Princess’ enfim nas telas do Japão

‘Yakuza Princess’ enfim nas telas do Japão

Rodrigo Fonseca

30 de dezembro de 2021 | 11h11

O cartaz japonês do longa de Vicente Amorim

Rodrigo Fonseca
Um dos filmes mais originais do cinema brasileiro, nos últimos tempos, no empenho em se construir uma narrativa de gênero plural, “Yakuza Princess” acaba de estrear nas telas do Japão, contemplando a cultura de onde toma emprestada parte de sua força. É um filme que merece ser lembrado entre os achados nacionais deste ano, tendo estreado em outubro.
Exuberante em sua direção de arte de um detalhismo digno de ourives, capaz de catapultar o olhar cenográfico de Daniel Flaksman para a esfera dos gigantes do setor, “Yakuza Princess” é o filme de maior requinte plástico na recente leva de transposições de HQs nacionais pra tela. Uma leva iniciada com “O Doutrinador”, de Luciano Cunha, em 2018, e seguida por “Turma da Mônica – Laços”, de Lu e Vitor Cafaggi, em 2019. Neste fim de semana, a Mônica volta ao circuitão com “Lições”, de Daniel Rezende, aquecendo uma panela de pressão de criatividade e de investimento na fantasia – nosso ponto fraco histórico. E é justamente essa fraqueza que o longa conectado à Terra do Sol Nascente busca driblar. Fervido numa panela de pressão pop a temperaturas dignas dos thrillers de Takashi Miike (“Morrer ou Viver”, “13 Assassinos”), sua inspiração mais direta, o longa-metragem brasileiro – falado em Inglês e Japonês – vem correndo o planeta desde o dia 3 de setembro, levando consigo a potência gráfica de Danilo Beyruth. Consagrado com “Bando de Dois” como um dos mais criativos quadrinistas do país, o desenhista e roteirista paulistano já foi chancelado pela Marvel, desenhando Venom e o Motoqueiro Fantasma, mas encontrou um viés de brasilidade muito particular explorando bolsões culturais de nossa nação para os quais nossa sociologia poucas vezes olha, por ranços morais.

Akemi (Masumi) e o misterioso esgrimista vivido por Rhys Meyers

Seu objeto no frenético “Samurai Shirô” (editada pela Darkside Books em 2018), graphic novel que inspirou este novo longa da produtora Tubaldini Shelling (de “Divórcio” e “O Concurso”), é a São Paulo dos nisseis e sanseis numa Liberdade afogada em garoas, chuva ácida e mafiosos da Yakuza. E a fotografia de Gustavo Hadba (de “Veneza”) aproxima essa SP da Hong Kong de Wong Kar-Wai, lembrando muito “O Grande Mestre” (2013). Mas o que existe de mais afiado no universo de espadachins pós-modernos é a autoralidade de seu realizador, o diretor carioca Vicente Amorim. E este extrai de Jonathan Rhys Meyers (“Match Point”) uma potente atuação.
Tubaldini deu ao cineasta carioca a chance de explorar fantasmas do pop no thriller de timbre sobrenatural “Motorrad”, lançado (e aplaudido) no Festival de Toronto de 2017. O êxito dessa parceria levou a um novo convite, centrado na linguagem gráfica de Beyruth em “Yakuza Princess”, que começa com Akemi (Masumi), uma jovem descendente de japoneses, encontrando um estrangeiro ocidental sem memória, que carrega uma katana, a espada usada pelos samurais. Rhys Meyers é o tal desmemoriado, que estampa no rosto cicatrizes de cortes. A partir desse encontro, Akemi passa a ser perseguida por agentes da máfia nipônica. Para sobreviver, ela precisa enfrentar seu passado enquanto se arrisca nas ruas paulistanas usando sua destreza nas artes marciais e seus dons como esgrimista. A seu lado (ou quase), ela tem o atirador Takeshi (Tsuyoshi Ihara) que parece conhecer sua história familiar em seus segredos. Nessa peleja, Akemi se afina em plenitude com a fauna de figuras deslocadas (no espaço e na moral) de Amorim.

Desde sua estreia como realizador de longas de ficção, com o subestimado “O Caminho das Nuvens” (2003), Amorim se interessa por protagonistas cuja percepção é embotada por um olhar alienado (por vezes ideológico de mundo). Lá no início dos anos 2000, em sua primeira ficção, Wagner Moura não olhava nada a seu redor, empenhado no objetivo de arrumar um emprego capaz de pagar a ele R$ 1 mil: mesmo que para chegar a esse trabalho ele precisasse arrastar a família inteira do Nordeste para o Rio, de bicicleta. Depois, em “O Homem Bom” (2008, a obra-prima do diretor), foi a vez de um professor de Literatura, especializado em Proust (papel de Viggo Mortensen), que, em busca do tempo perdido da cultura europeia, não conseguia enxergar as cores mais sangrentas dos nazistas que rodeavam sua universidade e sua casa, sedentos por seu espírito. Em “Corações Sujos” (2011), a crença de que o Eixo teria derrotado os Aliados na II Guerra, levava colonos japoneses no Brasil a se digladiar contra o Estado Novo (e suas sequelas) num banditismo étnico e social mediado pelo sonho de um Japão onipotente. E em “Irmã Dulce” (2014), havia a loucura do fervor e do altruísmo a qualquer custo como foco para uma (inflamável) discussão sobre o poder social da Igreja. É um oceano de personagens míopes, presos na Caverna de Platão. Mesma caverna que o diretor foi buscar nas esquinas chuvosas de SP, construindo um turbilhão gráfico para debater a honra e os crimes que são cometidos em nome dela.

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