Xodó da APCA, ‘M8’ ganha novas latitudes

Xodó da APCA, ‘M8’ ganha novas latitudes

Rodrigo Fonseca

12 de março de 2021 | 10h35

Juan Paiva com Zezé Motta em “M8”

RODRIGO FONSECA
Especula-se por aí que “Prisioneiro da Liberdade”, de Jeferson De, possa integrar a seleção do Festival de Cannes 2021 (6 a 17 de julho), passando pelo crivo do presidente do júri: Spike Lee. Mas nada é certo. Tudo é especulação… e torcida. O projeto é uma reconstituição das lutas do líder abolicionista baiano Luiz Gama (1830-1882), que foi escravizado ainda menino, mas conquistou sua alforria, lutando para libertar seu povo no Brasil do século XIX. Na longa, a vida de Luiz Gama será contada em três fases: na infância, interpretado por Pedro Guilherme; na adolescência, por Angelo Fernandes; e na idade adulta, por César Melo. Seu realizador brilhou na Berlinale, há onze anos, com “Bróder”, e brilhou em 2020, na votação anual da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) com “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida”. A turma de SP deu a ele o prêmio de melhor filme, num empate com “Sertânia”, de Geraldo Sarno. O filmaço pilotado por De está agora na Netflix e é o programa ideal para este fim de semana na streaminguesfera.
Rezam as mitologias associadas ao ioruba que “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só arremessou hoje”, por ser uma esfera que gira e nunca para. É uma frase que muito vem se repetindo por aí, pelo menos desde sua menção no longa “AmarElo”, sobre Emicida. Nessa lógica, ou melhor, nessa mística, “M8 – Quando a morte socorre a vida” é um perfeito exemplar do que seria um “filme exu”. E o é não apenas por congregar em sua narrativa a onipresença de uma luta secular – a do respeito às populações negras – mas por servir de mensageiro a muitas vozes que clamam pelo fim da intolerância. É uma narrativa mensageira que saiu do Festival do Rio 2019 laureada com uma menção honrosa e com o prêmio do júri popular, numa dupla vitória que coroa seu elenco em estado de graça, com Mariana Nunes em seu apogeu. O desempenho dela é histórico, algo de se dividir águas na maneira como se atua no cinema neste país. Não é um longa-metragem de digestão fácil – assim como nosso país -, o que faz dele uma experiência de ruminação… algo a ser absorvido aos poucos, pra doer, em sua percepção das microfísicas do racismo numa terra onde um estudante de Medicina negro é sempre discriminado. Há ainda muitas camadas na cartografia de exclusão empreendida por seu realizador: fala-se de orientação homossexual, de desequilíbrio de classes, da miopia das instituições de ensino em relação aos desajustes de classes, de solidões que se aguardam. E Cida, personagem de Mariana, a enfermeira que criou um filho sozinha, é quem vem expor o fardo de mulheres solitárias que, na maternidade, reinventam-se em guerreiras.

O cineasta Jeferson De

Num domínio pleno da direção, Jeferson transborda sua autoralidade, que vem lá de “Bróder”, não só pela menção a grandes ícones das lutas raciais (a doce menção à escritora Conceição Evaristo é um dos sinais), como por sua habilidade de investigar vários vértices da geometria do Real, sempre do ângulo do desdém e do abandono político, indo e voltando às mesmas situações de modo a expor podridões institucionalizadas. Baseada em um romance de Salomão Polakiewicz, a trama parecia ser algo próximo de “Morto não fala” (2018), ou seja, um rapaz que transita entre cadáveres consegue se comunicar com um deles. Parecia ser um devir exu num prisma mítico, metafísico. Mas o universo temático de Jeferson é físico e ferido demais pra isso. O caminho de Jeferson é outro, bem distante da trilha do dito ExtraOrdinário (termo da moda na crítica) das narrativas de gênero. É um drama de exumação de escoriações sociológicas que perduram desde o crime da escravidão.
Analisamos as dissonâncias do Brasil, guiados por Jeferson, com foco nas transformações na rotina do estudante Maurício (Juan Paiva, de uma retidão invejável), que cursa Medicina na UFRJ. Em meio à dissecação de um corpo no Fundão, para estudar sua anatomia, ele, ligado a religiões de matriz africanas, sente que a alma do tal corpo está por ali. Essa é a sensação inicial. E, de fato, há algo de errado com essa alma, associada a um corpo (negro) batizado de M8 – quem dá vida a essa figura, que se manifesta como assombração, é o ótimo Raphael Logam, da série “Impuros”. Mas a inquietação de Maurício não é com encostos e sim com a injustiça social que reduziu aquela pessoa a uma sigla, sem um enterro, sem mãe para reclamar sua pertença. Mais do que isso, incomoda o fato de todos os corpos para estudo serem corpos negros, enquanto ele é o único afrodescendente de sua classe… quiçá de toda a universidade. Segue-se aí uma jornada de múltiplas vias.
Muitos ventos sacodem sua jornada, mas há uma brisa que o acolhe: a brisa dos conselhos de Cida, enfermeira que dá a Mariana Nunes a deixa para botar o cinema brasileiro no bolso. E ainda tem cena dela com uma lenda morta em 2020, Pietro Mário. Eternizado como o Capitão Furacão na TV, o ator e dublador (voz de Tony Soprano no Brasil), brilha no papel do médico rico que é patrão de Cida e tutor-padrinho de Maurício. Um brilho que a fotografia construída por Cristiano Conceição valoriza bem, sem nunca incorrer em excessos, demarcando bem a geopolítica de brutalidade à nossa volta.

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