Xavier Dolan no Telecine Cult

Xavier Dolan no Telecine Cult

Rodrigo Fonseca

19 Abril 2018 | 10h11

Rodrigo Fonseca
Saiu nesta quinta-feira a lista de reforços para a competição da Palma de Ouro de 2018 – incluindo Un Couteau Dans le Cœur, do francês Yann Gonzalez; Ayka, do cazaque Sergey Dvortsevoy (o mesmo do cult Tulpan); e The Wild Pear Tree, do turco Nuri Bilge Ceylan -, mas o novo trabalho do canadense Xavier Dolan, o drama The Death and Life of John F. Donovan, ficou de fora, como esperado. Dolan quer o Oscar e fará todo o possível para ficar mais perto da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, esnobando a Croisette. Seu último trabalho na direção – um filmaço – foi revelado lá no balneário francês: É Apenas o Fim do Mundo (Juste La Fin Du Monde), que será exibido no Telecine Cult neste domingo, às 22h.

Ao conquistar o Grande Prêmio de Júri do Festival de Cannes de 2016 com a produção, o diretor foi às lágrimas num choro de dupla vitória: de um lado uma realização pessoal gigante para um realizador de (então) apenas 27 anos; do outro, a vingança contra o conservadorismo dos que patrulham a estética passional de seus filmes, sempre próximos das questões LGBT. “É em nome da paixão que eu recebo este prêmio, para que ela nos liberte”, disse ele, após ser galardoado na Croisette e ver seu trabalho coroado como um potencial sucesso de público.
“Família é o vetor daquilo que eu busco como um norte no cinema: retratar as formas de amizade que podem nascer entre irmãos, entre pais e filhos, dependendo da tolerância e da disposição para amar”, disse o cineasta ao P de Pop, em Cannes. “Não acredito em disposição de papéis numa estrutura que transcenda convenções sociais: este é o pai, esta é a mãe. Eu acredito em mobilidade, complementaridade”.

Campeã de bilheteria na França, onde atraiu 650 mil pagantes às salas de exibição em apenas duas semanas, a produção é uma releitura audiovisual de um texto teatral autobiográfico de Jean-Luc Lagarce (1957-1995) – o dramaturgo contemporâneo mais encenado do teatro francês – sobre sua despedida de sua família, ao se saber soropositivo. O fato de ter Léa Seydoux (a bondgirl de Spectre), Marion Cotillard (de Macbeth) e Vincent Cassel (Cisne Negro) em papéis de destaque transforma É Apenas o Fim do Mundo em um chamariz de plateias na Europa. Este drama, sobre lavação de roupa suja entre parentes, embalado, em sua trilha sonora, pelo hit Dragostea Din Tei, é baseada em experiências pessoais de Lagarce ligadas à Aids. Na tela, o ator e diretor teatral Louis (Gaspard Ulliel) volta para casa de seus pais, após um sumiço de 12 anos, para contar sobre sua morte iminente. Mas lá, vai cair em um bate-boca com seu irmão brutamontes (Cassel) e emendar uma conversa cheia de mágoas com a irmã mais moça (Lea).

“No teatro Lagarce, o texto é algo muito frio, calcado no silêncio, coisa que você raramente vai encontrar no meu cinema”, diz Dolan. “Para visitá-lo, eu levei comigo todos os meus ruídos mais patológicos e todos os barulhos da minha cultura”.