X da questão: David Duchovny vira cineasta

X da questão: David Duchovny vira cineasta

Rodrigo Fonseca

08 de fevereiro de 2020 | 10h04

Rodrigo Fonseca
A chegada de “Arquivo X” (“The X Files”) à grade do Globoplay, revivendo a mítica da série que redesenhou a história da ficção científica investigativa no audiovisual, coincide com uma nova fase de David Duchovny, o eterno Fox Mulder, ainda fiel ao lema “A verdade está lá fora”. Um lema agora não mais ligado ao espaço sideral, e sim à música… e a experimentações narrativas no cinema. Aos 59 anos, ele está preparando sua estreia como cineasta para 2021, filmando um romance de sua autoria: “Bucky F*cking Dent”, lançado em 2017. A trama narra o dia a dia de um aspirante a escritor, acompanhado apenas de um peixinho de estimação, que regressa à casa onde viveu na infância para se despedir do pai, condenado à morte por um câncer terminal. Ele ainda está envolvido na filmagem do terror “The Craft”, uma adaptação para os anos 2020 do cult “As Jovens Bruxas” (1996), no qual será dirigido por Zoe Lister-Jones. Além disso, o intérprete de Mulder investe pesadamente em uma carreira paralela de cantor. Após uma série de shows em 2019, com direito a uma releitura gutural de “Heroes”, hit de David Bowie, ele parou com a turnê do disco “Every third thought” para se dedicar a um novo álbum, escolhendo baladas e compondo um som com um pé no blues. “Vou pedir desculpas a vocês, mas eu trago aqui canções que falam de solidão. Se pesar muito, a gente pula pra poder descarregar a tensão. A questão aqui é reencontrar o rock’n’roll”, dizia ele à plateia vienense Arena Wien, na Áustria, em um show conferido pelo P de Pop, no qual o ator esbanjou uma disposição de garotão. “Tem horas que a gente precisa deixar o rock conduzir a vida”.

Revelado em “Twin Peaks” (1990) como a trans Denise Bryson, Duchovny bateu a cabeça nos sets de produtoras indie, há três décadas, atrás de um bom papel. Suou a camisa até fazer “Kalifórnia” (1993), de Domic Sena, com um ainda pouco conhecido Brad Pitt e a então estelar Juliette Lewis. Foi ofuscado por Pitt, mas provou ter talento e carisma, um binômio essencial para a televisão numa época em que seriados, embora bem-sucedidos, ainda não eram o coração da indústria do entretenimento nos EUA… e no mundo. Foi aí que veio “Arquivo X”, projeto do jornalista e roteirista da Disney Chris Carter para explorar a mística em torno de ETs. Duchovny foi escolhido para ser Mulder, um agente “chave de cadeia” do FBI, daquele tipo que coleciona encrencas, escolhido para encampar uma divisão nova, dedicada a explorar fenômenos sobrenaturais. A seu lado, havia Gillian Anderson, a cerebral agente Dana Scully. Mulder era pura crença: em ETs, em lobisomens, em fantasmas e na irmã que seres do espaço levaram. Dana era o ceticismo em pessoa, incumbida em impedir o parceiro de fazer loucuras, até perceber que ele tinha razão. A primeira temporada está na íntegra no Globoplay, com direito a episódios que marcaram época, como “O Fantasma da Máquina”, ambientado no Halloween.
“Muita gente vai aos meus shows atrás de Mulder, mas é bom deixar ele na nossa memória e se dedicar música agora”, diz ele no palco, ao cantar seu hit, “Hell or highwater”, que disfarça sua alma melancólica numa batida pop. “Minha ideia é levar ao público uma batida como a das baladas dos roqueiros dos anos 1970. Tento compor minhas músicas sendo o mais universal possível, sem especificar temas. Só tento ser o mais pessoal possível”, disse ele, em 2018, ao site AXS.Com.

Gillian Anderson vive a agente Scully, contraponto de Mulder

Cantar letras como “Someone else’s girl’, uma das canções mais pedida do CD “Every Thrid Thought”, hoje é mais significativo para Duchovny do que relembrar a trajetória que fez dele um fetiche das fãs da ficção científica, coroado com um Globo de Ouro, em 1997. A série ainda inspirou um par de longas-metragens, sendo que o primeiro, lançado em 1998, faturou US$ 189 milhões – menos do que o esperado. Duchovny e Dana ficaram no ar até o fim dos anos 1990, quando o astro pediu à Fox para sair, a fim de ensaiar um protagonismo em Hollywood que nunca colou. O ator Robert Patrick (lembrado até hoje como T-1000, o androide de metal líquido, de “Exterminador do Futuro 2”) ficou em seu lugar, como agente John Doggett. Ele foi fazer filmes como a comédia romântica “Feitiço do coração” (2000), com Minnie Driver, e a chanchada sci-fi “Evolução” (1991), que fracassou fragorosamente. Acabou voltando para encerrar a saga de Mulder e se reinventar pelas vias da canção. “Hoje o que me mais interessa é ser um músico em evolução, que se arrisca a compor com dedicação”, disse ele ao lançar “Every third thought”, repetindo nos shows um outro bordão, que não o “A verdade está lá fora” de Mulder, mas sim o xingamento “Motherfucker!”, este habitualmente gritado por seu segundo personagem mais famoso, o escritor mulherengo Hank Moody, de “Californication”, que lhe valeu outro Globo de Ouro, em 2014. “Tem horas que a gente precisa apenas se divertir e fazer o que a alma deseja”.

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