‘Wonder Woman 1984’: maravilha pura

‘Wonder Woman 1984’: maravilha pura

Rodrigo Fonseca

17 de dezembro de 2020 | 13h53

Patty Jenkins dirige Gal Gadot nos sets de “WW84”

Rodrigo Fonseca
À saída da sessão de “Mulher-Maravilha 1984”, embevecido, o P de Pop postou no Facebook:
a) É magnífico, como filme de aventura e como releitura das mitologias DCnautas. Gal Gadot É a Mulher-Maravilha que as HQs de George Perez idealizaram;
b) É o mais inteligente ataque a Trump que o cinema já fez;
c) Patty Jenkins promove a mais fina homenagem ao colossal “Superman” (1978) que Richard Donner poderia ganhar;
d) Tarantino tem toda razão de adorar Chris Pine;
e) Pedro Pascal tá do tamanho de Gene Hackman.
Parece que a Warner Bros. entregou aos fãs de quadrinhos, a cinéfilos não quadrinhófilos e a audiências que só querem curtir um cineminha um dos filmes de maior vigor plástico e maior fúria sociológica do ano. Transformado na vilã do momento aos olhos do mercado exibidor de filmes por sua decisão de lançar seus próximos longas-metragens simultaneamente em salas e na plataforma HBO Max, o estúdio WB pode, paradoxalmente, ser a salvadora dos cinemas, neste fim de ano, ao levar o esperadíssimo regresso da super-heroína aos multiplexes, a partir deste fim de semana. Neste momento em que os complexos exibidores passam o pires para fechar as contas do mês, prejudicados pelo esvaziamento de muitas atividades artísticas em função da pandemia, a vigilante criada por William Moulton Marston em 1941 dispara no Ingresso.Com como um ímã para os pagantes perdidos, apoiado no carisma da atriz Gal Gadot no papel central. No Brasil, a superprodução dirigida por Patty Jenkins começou a ser exibida na quarta-feira. No Rio de Janeiro, a luta da Princesa Diana contra o empresário Maxwell Lord (vivido pelo chileno Pedro Pascal, o protagonista do fenômeno “O Mandaloriano”) estará em 59 salas, dividas por 29 complexos. A maioria das cópias é dublada, com Flávia Saddy fazendo a versão brasileira de Gal, que esbanja carisma em um longa calcado numa reflexão sobre o ideal de “verdade”.
Sua trama é uma finíssima alegoria política em sua reflexão sobre a gênese de figuras como Donald Trump: magnatas que encontram no exercício do Poder uma satisfação de sua libido de comando. Esse é o lugar simbólico ocupado pelo vilão Maxwell Lord, empresário que sempre se apresenta como uma estrela da TV e vai, minuto a minuto, depurando sua sordidez em prol de um projeto de controle, sem perder um quinhão de humanidade. Parte dessa força vem do talento de Pedro Pascal, o Mandaloriano, que transforma Lord em um yuppie nem um pouco confiável, qual aparecia nas HQs de seus criadores, o trio Keith Giffen, J. M. DeMatteis e Kevin Maguire, na “Liga da Justiça dos anos 1980. Aliás, o filme promove uma série de tributos a estética desses autores e também à estética de Marv Wolfman e George Pérez, a dupla que redefiniu MM a partir de uma aproximação da personagem com os mitos gregos. Esses autores, cada um à sua maneira, investiam nas fraquezas das heroínas e dos heróis, dando uma humanizada também em vilãs e vilões, como se vê em Lord e na Mulher-Leopardo, papel de uma Kristen Wiig super à vontade fora do registro do humor, onde ela se destacou.

Flávia Saddy dubla Gal na versão brasileira da heroína, sempre com o Laço de Héstia

A chegada do longa é alimentada por toda uma variedade de produtos em diversos segmentos da economia nerd, começando por roupas: nos shoppings do RJ, a loja Piticas tem camisetas com múltiplas estampas da Princesa das Amazonas. Nas bancas daqui, a Panini lança o número 44 da revista mensal da Mulher Maravilha, relançando, paralelamente, a edição nº 36. Já nos EUA, a DC Comics, selo editorial há décadas ligada à Warner, aposta em capas de luxo para edição nº 769, com roteiro de Mariko Tamaki e desenho de Steve Pugh, a chegar às gibiterias no dia 23 de dezembro, dois dias da dupla estreia do filme por lá: nas telas e no HBO Max, confirmando a aposta de seu estúdio em estreias multimídias.
“O que a gente buscou aqui foi entregar um espetáculo visual”, disse a cineasta Patty Jenkins em agosto no evento online DC Fandome, fórum promocional das atrações da editora, que foi fundada em 1934, com o nome de National Allied Publications, alcançando fama em 1938, com o lançamento do Superman; reafirmando sua força comerial em 1939, com a primeira HQ do Batman; e solidificando de vez sua boa reputação em 1941, com a Mulher-Maravilha. Durante o painel de Patty no DC Fandome, Gal exultava de orgulho ao lado de Pascal e da atriz Lynda Carter, que viveu a Mulher-Maravilha no seriado dos anos 1970. A veterana estrela da televisão cravou: “Quando minha filha viu Gal no papel, ela me disse: ‘Mãe, agora eu entendo porque as pessoas te idolatram’. A personagem representa muito para o mundo”. A fala de Lynda celebra a força da Princesa Diana para a representação do empoderamento feminino. O longa anterior a “Wonder Woman 1984”, que fez a fama de Gal e coroou Patty como diretora de blockbusters, estreou em 2017. O filme custou US$ 149 milhões e faturou US$ 822 milhões, além de ter faturado fortunas na venda de bonecos e roupas. E vale aguardar as cenas após os créditos de “MM84” para ver Lynda gloriosa em cena.
Patty regou o longa de adrenalina, evocando todo o tempo o uso do Laço da Verdade… o Laço de Héstia. O objeto é usado não apenas como fetiche mágico, para saber os segredos por trás do regresso de seu amado, Steve Trevor, vivido por um genial Chris Pine. Ele vira uma arma, num estilo parecido com o chicote de Indiana Jones. E sua utilização garante sequência antológicas de ação.
Em 2021, a Mulher-Maravilha vai aparecer ainda em “Liga da Justiça: Snyder Cut”, nova versão de “Justice League” (2017), recauchutada por seu diretor, Zack Snyder. A DC investe ainda na continuação de “Esquadrão Suicida” (2016), agora com Alice Braga e Sylvester Stallone em seu elenco; em “Adão Negro”, com The Rock; em “The Flash”, com Ezra Miller; e em “The Batman”, com Robert Pattinson de Bruce Wayne e Colin Farrell de Pinguim. Quando é que vão trazer o Constantine de Keanu Reeves de volta.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.