Wolverine regressa aos holofotes em ótimas HQs

Wolverine regressa aos holofotes em ótimas HQs

Rodrigo Fonseca

04 de janeiro de 2022 | 12h05

RODRIGO FONSECA
Há tempos não era tão prazeroso ler um gibi do Wolverine como aconteceu com a leitura do nº 29 da atual revista “X-Men”, da Panini. A saga em que o carcaju corre mundo atrás de seu antigo colega de armas Maverick conta com a esplendorosa arte de Adam Kubert e parte de um vertiginoso enredo cheio de participações de antigos coadjuvantes do herói como o Ômega Vermelho. Igualmente saborosa é a leitura do encadernado “Marvel Essenciais – A Morte de Wolverine”, escrito por Charles Soule e desenhado por Steve McNiven. É a compilação da saga que pôs o carcaju mutante de molho, encapando-o de adamantium, o metal mais resistente do universo, na lógica das HQs. São duas publicações para se ter na estante sob holofotes. E é curioso que esses quadrinhos cheguem às bancas o momento em que: a) Logan voltou a dar o ar de sua graça no gibi mensal da Escola para Jovens Superdotados do Professor Xavier, após uma longa e azada ausência; b) Karl Urban, o Billy Bruto de “The Boys”, começa a ser cotado para substituir Hugh Jackman nas aventuras cinematográficas do vigilante criado por Len Wein, Roy Thomas e John Romita Sr., em 1974, como coadjuvante do Hulk. Estima-se que Wolvie faça uma participação no futuro de “WandaVision”. Jackman deu adeus a ele após “Logan”, longa orçado em US$ 97 milhões que encerrou a programação da Berlinale 2017 e faturou US$ 619 milhões. Até indicação ao Oscar – de melhor roteiro adaptado – o filme de James Mangold recebeu. Essa joia dirigida por Mangold andava pela garde do Telecine Play. E, ó, tem “Marvel Anime: Wolverine” na Netflix.

Ilíada de um tempo em crise com o conceito clássico de heroísmo, a franquia “X-Men” e seus derivados – Wolverine é o mais famoso deles, consolidando o arquétipo de um Ulisses trágico – são rebentos do que se poderia entender como o legado nº 1 da cultura digital para a dramaturgia audiovisual: o conceito de meta-cinema. Filhos do Átomo, os discípulos de Charles Xavier, criados nas HQs por Stan Lee em 1963, tornaram-se cinema como Filhos da Geração DVD. A partir do final dos anos 1990, quando a tecnologia informática permitiu o advento das bolachinhas chamadas de Digital Versatile Disc, toda a memória fílmica produzida no mundo, até aquele momento, encontrou um escoamento (e um veio de preservação) biblioteconômico, que nos permitiu não apenas acesso a cópias, por exemplo, de uma comédia de Harold Lloyd (1893-1971) feita em 1919, mas também a toda uma fortuna crítica (mais contemporânea) sobre ela: os chamados Extras. Diferentemente do que se viveu na era VHS, todo DVD era um casamento de entretenimento com aula de História, o que alfabetizou uma nova linhagem de cinéfilos e reeducou o olhar dos mais velhos, criando, em ambos, uma percepção de que a realidade – do Presente e do Passado, sobretudo – é mediatizada, ou seja, existe o passado real, concreto, e existe o passado que o cinema nos ensinou. Nossa ideia da Chicago dos gângsters não é a Chicago dos documentos, calcada em fatos: nossa Chicago é a de Brian De Palma em “Os Intocáveis” (1987). Ou seja… verdade dá lugar a simulacros. E simulacros produzem simulações da vida, ou seja, uma meta-vida, onde imagem não é só um corredor que nos leva a experiências sensíveis: imagem é a experiência em si. E o último bom fruto da grife X-Men, dirigido por James Mangold, é uma delas. Das melhores.
O que a práxis do simulacro produziu foi um meta-cinema. Veja, por exemplo, o caso de alguns de seus maiores artesões. Pedro Almodóvar (“Fale com Ela”) e Wong Kar-Wai (“Amor à Flor da Pele”, hoje em cartaz na MUBI) criaram com base em seu mergulho em mestres do cinema e do folhetim (Vincente Minelli e Douglas Sirk sobretudo) uma ideia de meta-melodrama, ou seja, uma reflexão sobre os sofrimentos do querer calcados não em registros do Real, mas em noções de amar, sofrer, perder e reconquistar que o Cinema ensinou a eles. Já Quentin Jerome Tarantino (“Bastardos Inglórios”) passou os últimos quatro anos dedicado à lapidação do que podemos chamar de meta-melodrama: os geniais “Django Livre” (2012) e “Os Oito Odiados” (2015) não são apreensões reais de questões do Oeste “de verdade”, mas sim do Oeste de papelão que Hollywood e os spaghetti italianos nos legaram. São “mentirinhas” erguidas sobre “mentirinhas”, ficção da ficção.

Embora não tenha – ainda – o peso destes cineastas, mas já tenha um lastro autoral com base na contínua discussão da farsa como prática de sobrevivência, o diretor James Mangold fez da franquia baseada nas aventuras do mutante de guerras metálicas – o magnético “Wolverine – Imortal” (2013) e, na sequência, o brilhante “Logan” – a instância do meta: não o meta-quadrinho, mas o meta-filme. Por um bom tempo das quase 2h20 minutos de Logan, esquecemos estar diante de um filão consagrado: o “filme de super-herói”. Estamos, sim, num thriller sobre formação familiar, bem parecido com os que Sam Peckinpah fazia entre os anos 1960 e 70, sobretudo “Os Implacáveis” (1972). A secura narrativa é a mesma, uma vez que mantém os pés fincados no realismo, com um ritmo de ação febril, sem jamais abrir mão de sua amargura estrutural.
Tem um tempero de “Stranger Things” na fuga de Logan para proteger a menina Laura Kinney (Dafne Keen) da tropa dos Carniceiros chefiados por Donald Pierce (Boyd Holbrook, da série “Narcos”). Neste filmaço sem cena após os créditos, reina a metalinguagem, usada por Mangold ao mostrar gibis na tela várias vezes, como um registro mítico de um herói que se esforçou para não deixar laços atrás de si. Mas estes laços, na trama, foram criados à força de seus feitos. E, na vida real, a mitologia é sequela da evolução (espantosa) de Jackman na pele deste semideus caído. No Brasil, o atorzaço Isaac Bardavid dubla Logan com um desempenho dramático memorável. Ele também dublou o mutante de ossada inquebrável na série de desenhos dos “X-Men” aqui exibida nos anos 1990 e, hoje, disponível na Disney +, ali, do ladinho do “Get Back” de Peter Jackson, entre outras iguarias.

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