Wim Wenders e a fé no Real

Wim Wenders e a fé no Real

Rodrigo Fonseca

18 Abril 2018 | 09h13

A sueca Alicia Vikander encarna uma cientista em “Submersão”, drama de Wim Wenders

Rodrigo Fonseca
Um dos pilares do Novo Cinema Alemão, entre os anos 1970 e 80, quando Paris, Texas (1984) fez dele um mito da autoralidade coroado com uma Palma dourada, Wim Wenders tem andado ocupado com os desígnios de Deus, finalizando o documentário sobre o Papa Francisco para exibir no 71º Festival de Cannes. A projeção por lá é fora de concurso, para abrir um debate sobre a representação do Poder no seio do fervor cristão. Um cruzamento entre a Fé e o Real é o limite que ele deseja transpor depois de defender a tese de que o terrorismo não é um produto das religiões e sim da discrepância econômica entre pobres e ricos em Submersão (Submergence), seu mais recente exercício de ficção, que estreia quinta-feira no Brasil. O longa-metragem foi recebido com ovação pela plateira de quase mil espectadores (entre moradores locais, produtores, críticos e artistas em geral) do auditório Kursaal, o centro nervoso do Festival de San Sebastián, onde foi exibido na condição de atração de abertura, em setembro passado. É um drama sobre o querer estrelado por dois astros da vez: a sueca Alicia Vikander (ganhadora do Oscar de coadjuvante por A Garota Dinamarquesa) e o escocês James McAvoy (do sucesso Fragmentado). Entre os dois, vemos um cineasta de 72 anos, com status de mestre, três vezes indicado ao Oscar (sempre como documentarista, por O Sal da TerraPina Buena Vista Social Club), ganhador de uma Palma dourada e de um Leão de Ouro (por O Estado das Coisas). Sob a orquestração dele, Alicia vira a biomatemática Danielle, que, em busca de indícios geofísicos capazes de revelar a origem da vida na Terra, deixa-se atropelar por uma paixão. Seu coração acaba nas mãos de James (James McAvoy), um empreiteiro ligado ao Serviço Secreto inglês. Em meio ao romance, ele acaba nas mãos de jihadistas africanos, enquanto ela prospera em sua pesquisa. Mesmo no risco, ou na devoção cega ao trabalho, More e Danielle não se esquecem. Estão tão longe e tão perto, numa alusão a um filme homônimo do cineasta, hoje envolvido na produção de um documentário sobre o Papa Francisco.

Na entrevista a seguir ao P de Pop, diretamente da Espanha, Wenders fala do Real, de sua irmã gêmea (a ficção) e analisa o papel do silêncio em sua obra.

Qual é o coração do romance de J. M. Ledgard e filme que você tirou de seus parágrafos? Submersão fala do quê?
WIM WENDERS: O amor é um objeto raro. Os filmes de amor são mais raros ainda. Ao menos aqueles que entendem o amor em relação a paisagens, ao mundo ao nosso redor e suas doenças. Graças aos bons produtores que eu tive aqui, entre os quais o fiel Juan Gordon, da Espanha, pude buscar uma locação na África, representada como um hotel, que um dia foi um local de cultos religiosos. Há uma energia única ali, que me ajuda a falar o lado mais sombrio do querer. Amor se faz de doação. Mas doações exigem paz.

Qual é a importância do discurso amoroso num tempo de virtualidade plena nas relações?WIM WENDERS: Existe uma questão urgente no mundo hoje contra a qual eu tento lutar: a intolerância. Ela está vencendo o jogo. Tem uma frase do Dr. Martin Luther King de que gosto muito: “A escuridão não pode expulsar a escuridão, apenas a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio, só o amor pode”. Eu fiz este filme para buscar a condição transcendente do amor, tirando-o do lugar de inocência. O amor tem breus. Este filme ilumina estes breus ao unir dois intelectuais fraturados.

O que essa alternância entre ficções e documentários garante a seu cinema?
WIM WENDERS: O documentário é uma contingência poética, como a ficção, só que ele parte de situações que driblam a fabulação. Há documentários de encantamento. Talvez a dimensão de movimento de Pina faça dele algo assim. Mas, em geral, o que eu busco neste formato é me aproximar de uma perspectiva sem ilusões, adulta, da vida. Existe ficção adulta: é a que se faz quando a câmera de um contador de histórias se abre para a Realidade, aproximando-se dela o máximo possível, como tentamos fazer em Submersão, ao refletir sobre o jihadismo. Eu só não esperava que a intolerância religiosa ia crescer de maneira tão desenfreada no mundo desde que pensamos esse filme e esboçamos seu ponto de vista sobre células de terrorismo.

As resenhas sobre Submersão têm sido boas, algumas das melhores de sua carreira recente na ficção. A crítica ainda serve como um farol para o senhor?
WIM WENDERS: O rock’n’roll é o guia da minha vida. E os homens que formaram meu olhar: Bergman e Antonioni. Espero que a imprensa não fique chateada comigo, mas tem muito tempo que eu deixei de ler críticas sobre mim. Leio até sobre outros filmes. Sobre os meus, não. Se falam muito bem, você corre o risco de se achar bom demais. Se falam muito mal, você pode se travar. Melhor não cair em nenhum dos dois pecados. O mundo tem vaidades demais.