Wilson Rabelo, um professor de inclusão

Wilson Rabelo, um professor de inclusão

Rodrigo Fonseca

05 de julho de 2021 | 15h30

Wilson Rabelo é Arcanjo em “DOM”

RODRIGO FONSECA
Antenas cinéfilas de todo o Brasil devem sintonizar hoje na projeção de “Parasita”, de Bong Joon-Ho, na “Tela Quente”, às vésperas do início do 74º Festival de Cannes, que terá em seu júri – presidido por Spike Lee – o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho. “Bacurau”, que Kleber codirigiu com Juliano Dornelles, saiu da Croisette com o Prêmio do Júri, em 2019. Sucesso de público e crítica, o longa-metragem integra uma seleção de títulos chancelados pela curadoria cannoise transportados para o Telecine Play (incluindo “Terra em Transe” e “Deus E O Diabo Na Terra Do Sol”, de Glauber Rocha). No elenco dessa aclamada produção está Wilson Rabelo, que hoje rouba as cenas na série “Dom”, fenômeno da Amazon Prime. Wilson foi o professor Plínio da cidade de Bacurau e vai voltar às telonas, em breve, em “O Pai da Rita”, de Joel Zito Araújo.
Desde sua estreia, no início de junho, “Dom”, projeto do diretor Breno Silveira sobre os feitos do ladrão Pedro Machado Lomba Neto (1981-2005), o “Bandido Gato”, chamado Pedro Dom, virou o assunto mais comentado em sua pátria sobre a representação do crime na arte, consagrando-se como um acontecimento da streaminguesfera. Uma segunda temporada acaba de ser encomendada, abordando situações pouco conhecidas da vida de Dom, interpretado por Gabriel Leone, e por seu pai, o policial civil aposentado Luiz Victor D. Lomba, encarnado por Flávio Tolezani. As atuações de ambos, em estado de graça, tornaram-se um ímã de elogios. Mas há um ator que vem se destacando tanto quanto os protagonistas nessa superprodução da Conspiração Filmes: Wilson Rabelo. É ele quem vive o agente Arcanjo, figura enigmática que está para “Dom” como o Canceroso esteve para “The X Files”: ninguém sabe exatamente quem ele é e o que representa. Nos anos 1970, é Arcanjo quem convence Victor, então um mergulhador, a se infiltrar num morro do Rio pra ganhar a confiança do traficante local (Fábio Lago), testemunhando como o narcotráfico espalhou seus tentáculos. Arcanjo virou um dos papéis mais populares do invejável currículo de Rabelo.
“A gente não tem um combate claro e democrático à droga, principalmente, em relação aos negros, a grande massa brasileira. O Brasil é um país majoritariamente não branco, negro e indígena. Por isso, acho importante o Arcanjo ser negro. Isso não mostra uma democracia racial no exército ou na polícia, pelo contrário, é uma exceção na hierarquia militar, retratando a presença de negros. É importante a gente desestigmatizar”, disse Rabelo ao Estadão. “É coerente a gente começar a mostrar negros, também, representando outros patamares da sociedade, mesmo com suas contradições humanas. Nós somos pessoas com todas as possibilidades, potencias e defeitos”.

O ator viveu o professor Plínio em “Bacurau”

Mineiro de Belo Horizonte, Rabelo, hoje com 64 anos, começou a carreira como sonoplasta e iluminador nos palcos de Minas Gerais. Lá, ele se apaixonou pelo teatro e se envolveu intensamente no mundo da interpretação. Decidiu partir para São Paulo, onde iniciou sua vida como ator. Passaram-se 44 anos desde então e seu nome correu por muitos musicais, novelas, filmes e séries, como “Jogo da Corrupção”, a próxima temporada da série Original Amazon, “El Presidente”, na qual ele interpreta o padre Pascual. Ele tem pela frente projetos esperados como as longas-metragens “Paterno”, de Marcelo Lordello (de “Eles Voltam”), e o já citado “O Pai da Rita”. “Já tenho uma carreira de 44 anos e sou basicamente do teatro. Uma das maiores características da direção de ‘Bacurau’ foi a possibilidade que tivemos de vivenciar fisicamente o Seridó. Alguns atores ficaram quatro meses, eu fiquei quase três meses. Essa horizontalidade que aparece no filme, vem do fato de que a gente vivia na cidade”, conta Rabelo. “A nossa relação com a comunidade foi muito horizontal. Aquela cena de o Plínio ensinando me lembra muito ‘O Povo Brasileiro’, do Darcy Riberio. Os indígenas estão sempre agachados para falar com os curumins. Eles vão à altura da criança. Isso é uma cosia que estava na minha cabeça. As relações lá são tão horizontais, que eu considero o Professor Plínio, mais que um professor: ele é um facilitador”.

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