‘Wife of a Spy’, o ‘Interlúdio’ de K.Kurosawa

‘Wife of a Spy’, o ‘Interlúdio’ de K.Kurosawa

Rodrigo Fonseca

18 de setembro de 2020 | 20h39

Rodrigo Fonseca
Depois de amanhecer vendo Woody Allen revisitar sequências antológicas de “Jules et Jim” e “Persona” em seu “Rifkin’s Festival”, San Sebastián, cidadezinha do norte espanhol, fecha o primeiro dia de sua 68º maratona cinematográfica deslumbrada diante de outra revisão de cartilhas audiovisuais – agora as do suspense – pelas mãos de Kiyoshi Kurosawa. Difícil pensar em algo mais Alfred Hitchcock, mais “Interlúdio”, do que “Wife of a Spy”, thriller ambientado na II Guerra pelo qual o realizador japonês de 65 anos recebeu o troféu de melhor direção em Veneza, no sábado passado. Nele, somo apresentados àquela que periga ser a grande heroína do cinema autoral deste 2020 pandêmico: Satoko Fukuhara, vivida estonteantemente por Yu Aoi, numa interpretação que escorre inteligência. No longa, ambientado em 1940, o marido de Satoko, o comerciante Yusaku Fukuhara (Issey Takahashi), viaja pra Manchúria momentos antes de um levante de Hitler e de Mussolini pela Europa, que viria a respingar na Ásia. Sua mulher fica em casa, guardando a propriedade e os negócios do clã. Mas, em sua jornada Yusaku traz evidências (em forma de película) de um crime bárbaro do Eixo: o teste químico de uma doença similar à peste negra em presos políticos. Com a prova dessa barbárie em mãos, ele decide denunciá-lo, o que gera o desdém de outros mercadores e da aristocracia nipônica. Mas Satoko entende a importância da missão de seu amado e fará de tudo para que a verdade venha à tona, criado os mais variados estratagemas para isso. Num diálogo, ele diz: “Eu não sou espião”. E ela retruca: “Se vier a ser, eu serei mulher de espião”, deixando claro não só o seu companheirismo, mas sua resiliência. Yu Aoi faz dela uma valquíria que não abre mão de suas convicções numa narrativa que o mestre do suspense asiático (conhecido por joias como “Creepy” e “Pulse”) enquadra como se fosse um plano de filme de terror. O terço inicial de seu novo longa se arrasta a passos de cágado, porém, passados uns 30 minutos, cada movimento parece conduzir a um susto, a um assombro.

Tem François Ozon inédito em San Sebastián neste sábado: “Été 85”

San Sebastián encerra suas atividades no dia 26, com a entrega da Concha de Ouro e outros prêmios, a serem votados por um júri chefiado pelo diretor italiano Luca Guadagnino (de “Me Chame Pelo Seu Nome”), que inclui a produtora espanhola Marisa Fernández Armenteros, a figurinista sueca Lena Mossum, o ator inglês Joe Alwyn e o cineasta mexicano Michel Franco. Este exibe “Nuevo Orden” no evento, em sessão paralela à competição. Entre os concorrentes às Conchas estão “True Mothers”, de Naomi Kawase; “Été 85”, de François Ozon; e “Another Round”, de Thomas Vinterberg. O Brasil bate ponto aqui com “Todos os Mortos” (indicado ao Urso de Ouro em fevereiro) e “Casa de Antiguidades”, com Antonio Pitanga.

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