Who watches ‘Gringo’

Who watches ‘Gringo’

Rodrigo Fonseca

21 de outubro de 2019 | 11h01


Rodrigo Fonseca
Zapeando a HBO à cata de tudo que possa ampliar a epifania que foi assistir “Watchmen”, a série, o P de Pop esbarrou com esta gema: “Gringo: Vivo ou Morto”. Há anos Hollywood não emplaca uma comédia digna da tradição de gargalhadas do gênero. “Ted” (2012) foi o último grande exemplar do filão nestes tempos de crise moral. Logo, não é por acaso que um dos filmes americanos mais engraçados dos últimos anos seja um thriller… e um thriller violentíssimo… mas com um certo perfume de irmãos Coen (tipo “Arizona nunca mais”) em sua rocambolesca estrutura de roteiro. Embora não tenha conexões direta com os Coen, o hilário (mas sangrento) “Gringo” (2018) lembra os filmes mais brincalhões de Joel e Ethan, tendo em seu volante um dublê australiano com vasto currículo de direção de curtas-metragens e clipes, Nash Edgerton. Ele é irmão mais velho do (ótimo) ator Joel Edgerton (de “O Grande Gastby”), que brinca de cafajeste no elenco desta produção do Amazon Studios, fotografada com olho vivo (e requinte plástico) pelo catalão Eduard Grau. Quem deita e rola na tela é o inglês de origem nigeriana David Oyelowo (“Selma”), hilário na pele de um executivo de uma empresa corrupta que, enrolado por todos, durante uma visita ao México, tenta dar o troco. O histórico de Oyelowo em Hollywood e na ala indie dos EUA é de dramas (quase sempre de cunho social). Por isso, é uma grata surpresa vê-lo brincar de Eddie Murphy (a analogia é imediata) numa trama que se pauta em viradas (editadas numa montagem febril) para discutir honestidade. Há muitos personagens que mereciam melhor amarração, como a executiva vivida por Charlize Theron, atriz cada vez mais caricata em cena, com exceção de seu desempenho em “Mad Max” (2015). Como diretor, Nash esbanja rigor no comando das sequências de ação.
p.s.: Nesta segunda, às 22h15, a “Tela Quente” exibe “Creed” (2015), o filme que deu o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante a Sylvester Stallone.
p.s.2: Já que abrimos o papo falando de “Watchmen”… é impressionante o esmero plástico que Nicole Kassell imprimiu na direção deste painel sobre dissonâncias sociais (sobretudo raciais) baseado no quadrinho de Alan Moore e Dave Gibbons. A realizadora de “O Lenhador” (2004) pilotou o primeiro episódio, “It’s Summer and We’re Running Out of Ice”, que repagina a mítica de Don Johnson, o James Crockett de “Miami Vice”. Já grisalho, ele esbanja fado trágico no papel de um chefe de uma força policial cuja ética ainda não deciframos.

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