Welket Bungué leva ‘Mudança’ à Berlinale

Welket Bungué leva ‘Mudança’ à Berlinale

Rodrigo Fonseca

05 de março de 2021 | 08h42

Welket Bungué dirige “Mudança”, filme-dança exibido no Forum Expanded da Berlinale

Rodrigo Fonseca
Conhecido no cinema brasileiro por sua participação em “Joaquim” (2017), Welket N’cabna Tambá Bungué, ator e diretor nascido na Guiné-Bissau há 33 anos, incendiou a mostra Fórum do 71º Festival de Berlim de ancestralidades africanas com a projeção de um filme-dança que chamou de “MUDANÇA”. O diretor cearense Leonardo Mouramateus foi seu montador nessa empreitada, que demarcou o diálogo entre coreografias, artes visuais e cinema na Berlinale, que encerra nesta sexta-feira suas atividades com a entrega do Urso de Ouro para “BAD LUCK BANGING OR LOONY PORN”, de Radu Jude (Romênia). Voltando a Welket, ele participou da competição germânica em 2020 também, como protagonista do caudaloso “Berlin Alexaderplatz”, que pode, a partir deste fim de semana, ser adquirido para aluguel e compra em plataformas digitais brasileiras como NOW, Looke, Vivo Play, Google Play, Microsoft, iTunes e Sky Play. E vale a pena vê-lo. Assim como vale conferir seu exercício de direção na maratona alemã.
“MUDANÇA” parte de uma sobreposição de corpos por projeções de pinturas originais, concebidas pelo artista Nú Barreto. Com base nelas, o astro da recente adaptação de “Berlim Alexanderplatz” constrói “Mudança” como se fosse um “gerúndio”, um vir a ser, da afirmação das populações negras diante da violência acumulada ao longo de séculos a fio das mais inomináveis bestialidades. Para isso, o ator-cineasta utiliza dois textos literários (entre a prosa e a poesia) escritos por seu pai, Paulo T. Bungué. A música composta por Mû Mbana dá aos poemas “Mudança” e “COBDE” uma sinestesia ainda ampla.
Já sobre “Berlin Alexanderplatz”, que esteve na última Mostra de SP, há uma inquietude de se rasgar a alma, em sua geopolítica de afetos. E o trabalho de Welket é um marco.

Ao sair do metrô em Berlim Alexanderplatz, na capital da Alemanha, um relógio montado ao ar livre, em 1969, indicando – a partir de combinações numéricas – a hora certa em 148 cidades de todo o planeta recebe os visitantes como um estandarte de cosmopolitismo, no qual todas as globalizações são possíveis. Mas há, na precisão dos minutos e segundos um atestado de que aquela região não para, incrustrada num país que é o motor econômico da Europa. Essa aceleração já se fazia notar no romance que Bruno Alfred Döblin (1878-1957) publicou em 1929, ainda sob o trauma da I Guerra, com o nome daquela praça. No livro, Franz Biberkopf saia da prisão com planos de reinventar sua vida, mas percebe estar amarrado ao submundo depois que um amigo de índole duvidosa mata a garota de programa que era sua única fonte de afeto real. Ali, sonhos passam pelo ralador da ressaca moral e pela pobreza de uma pátria que começa a se ver assombrada pelo nazismo. Em 1931, o sucesso editorial de Döblin gerou uma adaptação para as telas dirigida por Phil Jutzi (1896–1946). Em 1980, foi a vez de um pilar do Novo Cinema Alemão, Rainer Werner Fassbinder (1945–1982), interessar-se por aquela prosa e transformá-la em uma minissérie que foi um marco da TV, com Günter Lamprecht no papel de Franz. Agora, chega ao Brasil uma nova releitura, exuberante, pilotada por Burhan Qurbani, cineasta origem afegã radicado na indústria audiovisual europeia, conhecido aqui por “Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes” (2014). Sua montagem emula a precisão daquele tal relógio do início desta crítica: há uma universalidade em sua cartografia da exclusão.

Influenciado pelo ethos de Fassbinder, mas capaz de criar um léxico próprio, Qurbani tenta aqui uma leitura queer dos códigos de lealdade na sociedade contemporânea, trafegando para além dos rótulos que a intolerância sexual insiste em alimentar, sobretudo numa Europa atada aos grilhões do racismo. Döblin serve a ele como um instrumento para discutir o que teóricos brasileiros como o geógrafo e doutor em Sociologia da Educação Jailson de Souza (nas páginas de “A Favela Reinventa a Cidade”) chamam de “estratégias de redes”, ou seja, cooperações como meios de subsistência e de potencialização das populações periféricas. A evocação da obra de Jailson vem da relevância da geografia como um saber humanista e do fato de que o Franz de Döblin aqui vira um imigrante africano desterritorializado, “incluindo” na território simbólico do Velho Mundo a partir de sua vivência de periferia. Ovacionado em sua passagem pela disputa pelo Urso de Ouro de 2020, o “Berlim Alexanderplatz” de Qurbani é um inventário das cicatrizes das vidas que gravitam pelas margens de uma Alemanha eurocêntrica, ainda quizilada pelo espectro do neonazismo.
Sua projeção na Berlinale, há cerca de um ano, comoveu em especial pela catártica atuação de Welket. Franz será vivido por ele nas franjas trágicas de uma narrativa de educação sentimental pela pedra. A partir do desempenho dele, discute-se uma certa noção de imobilidade social no tráfego geográfico por um espaço urbano de violência. “É difícil se livrar do Diabo depois que a gente deixa ele entrar”, comenta-se, em uma cena do filme de Qurbani, num indicativo do clima mefistofélico que cerca Franz. Aqui, esse imigrante d’África precisa apelar para o crime para alimentar o sonho de dignidade que acalenta. Avesso a toques invasivos em seu corpo, ele negocia a alma em sua jornada em prol de se afirmar não como um corpo estranho em um país estrangeiro, mas como parte dessa Europa ainda xenófoba que hostiliza seus passos. Numa sequência hipnótica, ele grita: “Eu tenho nome alemão!” para seus adversários, em um meio ambiente hostil de prostituição, lotado de chefões do crime e policiais intolerantes. É um filme de gângster e é um drama social, na jornada de um excluído para se reinventar.
Welket é hoje um norte a ser seguido.

Welket em “Berlin Alexanderplatz”

p.s.: Este ano, o júri da mostra Encontros, da Berlinale, concedeu o prêmio de melhor filme ao encantador “NOUS”, de Alice Diop. De origem senegalesa, a realizadora de “A Morte de Danton” (2011) e “O Plantão” (2016) cria um mosaico documental riquíssimo sobre a engenharia da exclusão na França a partir das pessoas com que cruza ao longo de uma linha ferroviária que corta Paris de norte a sul.

p.s.2: O Prêmio da Crítica da Berlinale, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), foi para a Geórgia de Alexandre Koberidze em “What Do We See When We Look at the Sky?”.

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