Welket Bungué, ‘a’ atuação de uma bela Berlinale

Welket Bungué, ‘a’ atuação de uma bela Berlinale

Rodrigo Fonseca

28 de fevereiro de 2020 | 12h49

Rodrigo Fonseca
Realizador de curtas como Bastien” (2016) e “I am not Pilatus” (2019), o ator lusófono Welket Bungué, vindo da Guiné Bissau e visto em “Joaquim” (2017), deu à Berlinale 2020 uma das mais sofisticadas interpretações masculinas de todo o evento, à frente do thriller de carga política “Berlin Alexanderplatz”. Dirigido pelo alemão de origem afegã Burhan Qurbani, a produção aposta em um clima mefistofélico que cerca o imigrante Franz, papel que Welket faz ferver em ebulição máxima. Avesso a toques invasivos em seu corpo e sua alma, ele negocia a alma em sua jornada em prol de se afirmar não como um corpo estranho no Velho Mundo, mas como parte da geografia de uma Europa ainda xenófoba. Na homilia da solidão, Franz cruza com um Mefisto de beira de rua, Reinhold (vivido por Albrecht Schuch), cuja função é arrebanhar novos bandidos para seus chefes. Há entre eles uma tensão sexual homoafetiva nesta adaptação do romance homônimo de Alfred Döblin (1878-1957), transformado em série de TV por Rainer Werner Fassbinder, em 1980. Mas a luxúria entre eles acaba engasgada. O coração de Franz vai ser assaltado mesmo por mulheres, como a cafetina Eva (Annabelle Mandeng) e a prostituta de luxo Mieze (Jella Haase), que o salva de um acidente convertido em cicatrizes profundas. Mas algo em Franz não permite que ele se afaste de Reinhold, mesmo quando este começa a enxergar Mieze como um empecilho. São querências incompatíveis.
“Vindo da Guiné Bissau, eu me vi como um ser periférico assim que comecei a fazer filmes na Europa e fui dirigir meus próprios curtas para poder contar histórias que são minhas. Dirigir melhorou meu desempenho como ator”, disse Welket ao P de Pop. “Franz está em uma condição de descoberta, onde precisa dar o melhor de si para sobreviver”.
Único documentário entre os 18 concorrentes ao Urso de Ouro de 2020, o poema “Irradiés”, do cambojano Rithy Panh, foi exibido esta manhã na Berlinale, fundindo imagens de arquivo sobre diferentes guerra, em especial cenas relativas à bomba de Hiroshima, com coreografias de butô e um texto lírico sobre a manifestação da maldade. “Hollywood acelerou o cinema a tal ponto que a gente perdeu a dimensão poética das imagens. Eu repito situações aqui porque a repetição me dá essa dimensão de poesia, por questionar o excesso de velocidade com que se narra”, disse o documentarista ao Estadão.
Neste fim de noite, a aposta do Berlinale Palast, na seara fora de concurso, é “Police” (“Night Shift”), de Anne Fontaine, com Virgine Efira e Omar Sy em uma investigação nas ruas da França. Neste sábado pela manhã saem os prêmios paralelos do festival e, à noite, serão entregues a láureas oficiais, incluindo um troféu extra, da 70ª edição.

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