We Are One com Francis Ford Coppola

We Are One com Francis Ford Coppola

Rodrigo Fonseca

28 de maio de 2020 | 12h11

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Concebido com o propósito de preencher o hiato deixado pelo adiamento das maratonas cinéfilas competitivas, em função da 40ena, o evento We Are One Global Festival começa nesta sexta-feira na internet (weareoneglobalfestival.com) e segue até o dia 7 reunindo, online, curtas-metragens, longas e palestras pinçadas em eventos de prestígio como Cannes, Berlinale, Locarno e Annecy. Há muitos filmes de prestígio (como o .doc mexicano “45 Dias em Harvar”, de César Aréchiga; a animação americana “Bilby”, da DreamWorks; ou o drama chinês “Uma Cidade Chamada Macau”), porém, a cereja deste bolo é um workshop com Francis Ford Coppola. Em 2019, quando o realizador de “Rumble Fish” (1983) ia completar 80 anos, ele e Steven Soderbergh conversaram sobre direção no Festival de Tribeca, em Nova York. É esta conversa que entra agora no site do WAOGF, cheia de recordações dos sets de “O Poderoso Chefão” (1972).

Decidido a voltar à direção para filmar um projeto acalentado desde o inícios dos anos 2000 (“Megalópolis”, a ser protagonizado por Jude Law), Francis Ford Coppola anda cheio de gás para criar imagens de novo, após um hiato dedicado à sua produção de vinhos. Ele fala sobre isso no debate realizado no Beacon Theatre, NY, mediado por Soderbergh (o diretor de “sexo, mentiras e videotape”), que será exibido na web do We Are One na próxima terça. A edição 2019 de Tribeca exibiu um corte inédito feito por Coppola a partir do material bruto de “Apocalypse Now”, que, então, completava 40 anos. A nova edição é diferente da versão original, de 1979, e da versão “redux”, de 2001, enxugando gorduras, ampliando reflexões filosóficas e realçando o tônus de rebeldia que o realizador esbanjava nos anos 1970.

“Naquele tempo havia independência na maneira de se trabalhar com cinema nos EUA, sob a influência da Nouvelle Vague francesa e de mestres como Kurosawa. Fazíamos filmes de arte, personalíssimos e, por vezes, experimentais, se comparados à linguagem clássica americana”, disse Coppola ao P de Pop em 2015, quando ganhou uma retrospectiva no Rio. “O exercício de linguagem que fizemos nos tempos de “O poderoso chefão” encontrou dificuldade de levantar financiamento e assegurar distribuição, pois não havia um padrão entre nós. Naquela época, nossos filmes ensinaram o cinema a encontrar novas maneiras de expressar humanidade, nas formas mais distintas, sem confiar em muletas mercadológicas que hoje cansam plateias”.

Fã de diretores mais jovens, porém já cinquentões, como Alexander Payne e Wes Anderson, Coppola ganhou duas Palmas de Ouro em Cannes. A primeira veio por “A Conversação” (1974) e a segunda por “Apocalypse Now”. “Minhas narrativas são sempre dedicadas a figuras marginalizadas, com foco em pessoas que estão alienadas em relação aos limites do mundo. É a paixão que move os personagens que me interessam. Passei por muitos gêneros investigando a condição humana”, disse Coppola na Comic-Com, em 2011, propondo uma reflexão otimista sobre o papel da internet e das vitrines digitais para o cinema. “A evolução que essas novas ferramentas estão causando simbolizam um capítulo novo para a história do audiovisual que está sendo escrito agora. Pelas vias do digital, o cinema galgar novas alturas, algumas antes inimagináveis, repensando inclusive o 3D”.

Eis a lista completa de eventos que se uniram para o We Are One:
Annecy International Animation Film Festival, Berlin International Film Festival, BFI London Film Festival, Cannes Film Festival, Guadalajara International Film Festival, International Film Festival & Awards Macao (IFFAM), International Film Festival Rotterdam (IFFR), Jerusalem Film Festival, Mumbai Film Festival (MAMI), Karlovy Vary International Film Festival, Locarno Film Festival, Marrakech International Film Festival, New York Film Festival, San Sebastian International Film Festival, Sarajevo Film Festival, Sundance Film Festival, Sydney Film Festival, Tokyo International Film Festival, Toronto International Film Festival, Tribeca Film Festival e Venice Film Festival.

p.s.: Nesta terça-feira, às 9h30, a Unifrance promove um debate sobre os novos rumos do cinema com a produtora Louisa Dent, os distribuidores Ariane Giroux-Dallaire e Richard Lorber, o cineasta Radu Mihaileanu e o ator Andrea Occhipinti, com mediação do jornalista Michael Gubbins.

p.s. 2: Às 2h40, a Globo revisita um dos melhores trabalhos de Guel Arraes na direção de longas-metragens, antenado com a comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil: “Caramuru” (2001), com Selton Mello desfilando bom humor ao lado de Camila Pitanga.

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