Walters, Salles + Carvalho

Walters, Salles + Carvalho

Rodrigo Fonseca

02 de dezembro de 2020 | 16h20

O artista plástico Frans Krajcberg troca cartas com Socorro Nobre no filme dirigido por Walter Salles e fotografado por Walter Carvalho


RODRIGO FONSECA

Ao falar sobre o curta-metragem SOCORRO NOBRE (1995), esta noite, na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, na sabatina do seminário Na Real_Virtual, às 19h, Walter Salles vai estar passando em revista uma parte essencial do cinema das Américas na virada do século XX pro XXI. Virada esta em que o audiovisual latino-americano debruçou-se de forma urgente sobre suas veias abertas a partir de um neo neorrealismo mediado pelas câmeras digitais e guiado pela bússola do documentário. Não por acaso, “Central do Brasil” (Urso de Ouro em 1998) é o filme seminal para uma nova cartografia de afetos do cinema deste continente no planisfério dos grandes festivais, dos grandes canais a cabo e mesmo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Antes de conquistar o Globo de Ouro e disputar Oscars, Walter e Daniela Thomas fizeram um protótipo de Nouvelle Vague latina com “Terra Estrangeira” (1995), um noir do desterro econômico. E, nessa safra, quem esteve com ele, no manejo da lente, do obturador, da luz e da dramaturgia de plano foi o fotógrafo e diretor paraibano Walter Carvalho. A pedido do P de Pop, Carvalho gravou um áudio via whatsapp para dar a medida do colega realizador que encerra o mais importante evento da cinefilia brasileira em 2020, pilotado por Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos (na curadoria) e por Marcio Blanco (na produção). A viagem por uma saudade entre dois Walters começa aqui:

Walter Salles, eis um cara difícil de se falar sobre. Difícil pra não ser só elogio. Não que haja problema em elogio, mas ele é mais do que adjetivos.
O Walter não é um diretor, acho que ele é um cineasta. Diretor todos nós somos. Mas o Waltinho trabalha o desejo com esmero, ele trabalha o cinema com integridade e clareza. Reflete muito bem esteticamente com a mesma facilidade com que olha para os objetos e para as coisas da vida.
Antes de ser cineasta, ele é fotógrafo. Poucos sabem disso, mas ele é fotógrafo, teve laboratório e revelou filme. Ele tem essa facilidade de compreender a anatomia das lentes. Tem a sensibilidade para a imagem. E a compreensão espacial das coisas nunca foi problema para esse diretor que ele é. Walter sabe manejar os elementos da gramática do cinema como se estivesse escrevendo, e ele escreve muito bem. É como se ele escrevesse com a subjetividade da lente.
Waltinho é um cineasta humanista. Ele é generoso na criação e capaz de voltar ao ponto inicial do que começou lá atrás sem nenhum problema. Ele pode descobrir, no processo de construção narrativa, que não é por ali que deve ir. E, aí, ele volta ao ponto inicial, ele acha outro “ali”, sem que isso se torne um transtorno.
Isso acontece porque ele é um homem documental. Waltinho é um cineasta documentarista.
No início dos anos 60, Éric Rohmer sentenciou o seguinte: “Um bom filme é também um documentário”. Todo filme deveria ser documental. Afinal, para que inventar histórias se elas estão aí?
O Éric Rohmer disse isso, mas eu acho que esse pensamento se encaixa de forma adequada ao Walter. Tão adequada que parece ter sido escrito depois de os franceses conhecerem o cinema do Waltinho.
Quando ele me chamou para fazer a nossa primeira aventura fílmica juntos, ele comentou comigo: “Você é um documentarista. Nós somos documentaristas. Vamos filmar assim, à maneira de fazer um documentário”.
Acho que em quase todos os filmes, na sua base da largada, existe a construção documental. Como todo diretor começa pelo curta documental, o Waltinho também o fez, mas existe uma diferença fundamental nele. Ele levou a alma do documentário para dentro da construção ficcional. Não houve uma ruptura, foi natural nele. A meu ver, ele acaba trazendo a alma do documentário para a ficção.
Todo cineasta começa a fazer o filme e depois o filme começa a fazer o cineasta. Penso que o Walter tem a consciência disso, embora a consciência dele talvez seja… inconsciente… durante o processo. Quando o filme começa a mandar nele é porque o caminho foi aberto. Daí, é só seguir. Walter trabalha a delicadeza em todos os sentidos quando filma.
Se ele falava baixinho ao pé do ouvido do ator, também falava baixinho ao meu ouvido. Após rodar o plano, o olhar dele chega cúmplice, seguido por um sorriso de quem atingiu ou chegou ao ponto do desejo.
Waltinho tem determinação. É um diretor que acredita na força modificadora do cinema. Ele sabe para que serve um filme.
Tenho dois momentos especiais em nossa parceria. E são especiais não por causa da minha responsabilidade sobre a imagem, sobre a fotografia. Um dos momentos foi quando viajei sozinho com o Frans Krajcberg, levando apenas a orientação do Walter e a câmera na mão. Com o Krajcberg foi menos complicado. Nós três nos conhecemos no mesmo momento e ele foi uma espécie de polo de convergência entre nós. A gente começou a compreender a força do seu trabalho com a natureza por causa dessa amizade que nasceu junto com nosso convívio.
O segundo e mais difícil momento estava por vir. O momento mais difícil foi quando Walter me pede para conhecer Socorro Nobre em um presídio de Salvador. Eu, a produtora e o meu assistente saímos com a tarefa de que eu ligasse para lá, pro presídio, e dissesse que iriamos começar o filme.
Ele depositou a responsabilidade de achar que ela era uma personagem em mim. Acho que, em compensação, depois de assumir essa responsabilidade complexa, tive a certeza de que nascia ali uma parceria de forma espontânea”.

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