Walter Salles no ringue de Popó

Walter Salles no ringue de Popó

Rodrigo Fonseca

25 de outubro de 2019 | 10h57


RODRIGO FONSECA
Longe do circuito exibidor comercial desde 2015, quando laçou o .doc “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang”, o diretor Walter Salles anda agora na garupa da teledramaturgia, como supervisor artístico da série “Irmãos Freitas”, que o canal Space exibe aos domingos, às 21h, com foco no clã do pugilista Acelino Freitas, o Popó. Exibido na 43ª Mostra de Cinema de São Paulo (que termina no dia 30) na véspera de sua estreia, para demarcar o tônus estético de altíssima sofisticação plástica, o seriado é dirigido por Aly Muritiba e Sérgio Machado, que idealizou o projeto com o realizador de “Diários de Motocicleta” (2004). A ideia de transformar a cruzada vencedora de Popó contra a miséria em narrativa remonta aos tempos em que Machado e Walter fizeram o seminal “Central do Brasil” (Urso de Ouro de 1998). Passados 21 anos, o resultado da sinergia criativa entre os dois diretores, Aly e mais uma equipe de dar inveja a qualquer superprodução é um dos exercícios de storytelling de maior potência estética da televisão latino-americana em 2019, com uma reinvenção do ator Daniel Rocha, no auge de seu talento, como Popó.

Com nomes como Marcos Pedroso (direção de arte), Márcio Hashimoto (montagem), os irmãos Caio e Fabiano Gullane (produção), “Irmãos Freitas” conta com a sabedoria de Salles (um fã confesso de “Rocco e seus irmãos”, também uma radiografia social que perpassa as veredas do boxe), também em participações no roteiro e na edição da trama dos oito episódios. O foco está no relacionamento (de amor e de rivalidade) de Popó com o irmão, Luís Cláudio, também ligado ao esporte. Os dois foram criados na periferia de Salvador, sob o olhar atento e severo da mãe, Zuleica. A série mostra as lutas simbólicas que transformaram as carreiras dos atletas e aborda como a cumplicidade entre os dois fez com que Popó, o caçula, alcançasse o sucesso tão almejado pelo primogênito Luís Cláudio, interpretado por Rômulo Braga. Na entrevista a seguir, Salles fala ao P de Pop sobre o desenho estético do seriado.

Onde é que a trajetória de Popó e dos Freitas mexe com a afetiva memória de “Rocco e Seus Irmãos” no seu peito cinéfilo?
Walter Salles:
Em “Rocco e Seus Irmãos” mas também em “Touro Indomável”, o boxe é uma forma de transpor as barreiras de classe. É portanto uma questão de luta pelo pertencimento. É um esporte praticado por imigrantes que buscam reconhecimento em sociedades que não os abraçam (ítalo-americanos no caso do filme de Scorsese; e imigrantes do sul da Itália no filme de Visconti, buscando uma nova identidade no norte industrializado). No caso dos “Irmãos Freitas”, de Popó e Luís Claudio, há um drama humano raro, uma busca de pertencimento e identidade, e também um claro desejo de quebrar as rígidas barreiras sociais de um país. A história dos “Irmãos Freitas” é uma extraordinária aventura humana, e também um reflexo dos problemas estruturais do Brasil.

O que a narrativa serializada traz como desafio para o seu olhar de narrador/produtor numa história de brasilidade à flor da pele, quando se sabe da importância da teledramaturgia para a nossa formação cultural?
Walter Salles:
As cenas na casa da família Freitas e nos ringues de Salvador são histórias de luta pela sobrevivência, mas também são marcados por sentimentos complexos, onde afloram momentos de dor e alegria, de desejos não cumpridos, de inveja mas também de intensa generosidade. É um universo fascinante, onde se vive à flor da pele. Sergio Machado e Aly Muritiba fizeram uma imersão nesse universo, assim como Daniel Rocha e Romulo Braga, que estão excelentes nos papeis de Popó e Luiz Claudio. A série foi um mergulho intenso na vida dessas pessoas mas também do mundo do boxe na Bahia, e não teria sido possível sem a ajuda de muita gente – a começar por Popó, que foi um companheiro de viagem maravilhoso, nesses nove anos em que desenvolvíamos a série.

O que o boxe representa como signo cinematográfico… e como um signo geopolítico de Brasil?
Walter Salles:
As histórias de boxe lembram as tragédias gregas. No ringue, no embate entre a vida e a morte, há um protagonista e um antagonista em luta pela sobrevivência e pelo reconhecimento, e, no entorno, há o coro grego, o público. É um universo essencialmente fílmico. Quando estava tentando fazer um documentário sobre João Gilberto, que era fascinado pelo boxe, eu tive a rara oportunidade de ver lutas à seu lado pela TV, madrugada adentro. João olhava para o bailado do jogo de pernas de Mike Tyson e dizia: “olha só que musicalidade”. É impressionante o número de pessoas que o esporte pode atingir, e o boxe ainda mais. O boxe têm um impacto no universo esportivo, mas também sócio-político. Diz muito da nossa identidade, e da luta pelo reconhecimento no coração do Brasil.

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