Walter Carvalho nas veredas de Caruatá

Walter Carvalho nas veredas de Caruatá

Rodrigo Fonseca

29 de julho de 2020 | 13h57

Walter Carvalho é um samurai da imagem: a câmera é sua katana (espada) e o plano é o seu bushidô (código de honra)

RODRIGO FONSECA
Chocando em seu ninho de ideias um filme sobre o vazio (já pesquisado e escrito), o paraibano Walter Carvalho – espécie de Abel Gance da fotografia ou um tipo de João Cabral de Melo Neto da luz – tem um filme novo pra desovar pro mundo esta noite: “Caruatá – Veja o Lugar Que Me Vê”, com estreia agendada pra 19h30, no Arte 1. Tem repeteco no dia 1º, às 10h45 e às 19h15; no dia 2, 4h; e no dia 4, 14h15.
“Filmei na região do sertão do Cariri, mais precisamente perto de Cabaceiras, próximo do Hotel Pai Mateus, do meu amigo Duda Cavalcanti. A filmagem se passa em um lugar chamado Caruatá de Cima. Primeiro, eu vi a imagem daquele lugar no final de 2017. Depois, em 2018, em janeiro, voltei lá e filmei durante um dia. O Sertão me renova. Fui pela primeira vez levado pelo meu irmão, Vladimir Carvalho, diretor, mestre, sujeito que me apresentou a Bob Dylan e a João Cabral na minha adolescência. Ele me aplicou o cinema e o Sertão de uma jornada só. Fiquei entranhado de Sertão para sempre. O Sertão é todo espera”, explica Cavalho, diretor de joias como “Moacir Arte Bruta” (2005) e fotógrafo dos seminais “Redemoinho” (2016) e “Lavoura Arcaica” (2001) ao P de Pop. “Quando estou trabalhando lá, minhas folgas são rigorosas. Acordo as 5h da manhã, como um cuscuz, um pedaço de cará e outro de queijo de coalho. Depois, pego um carro, saio pra filmar e só volto quando o sol se põe. Ao meio-dia, dou uma parada em algum lugar, sob uma árvore desossada para tomar água e ouvir o silêncio do Sertão. Olhar as serras desnudas ao longe. Converso com algum camponês e pergunto onde o sol se põe. Gosto de ouvir o caboclo falar que se ‘põe atrás daquele angico’ ou ‘daquela umburana’. Prefiro me guiar pelo sentimentos do homem que cuida da terra do que pelo GPS”.

Cena de “Caruatá”, que o Arte 1 exibe às 19h30

Carvalho, irretrocedível como a árvore que lhe dá sobrenome, diz flanar pelo Sertão em busca de ser encontrado pela imagem que norteia “Caruatá”. “Às vezes, penso que é uma forma de entender a vida pelas vezes que o vento silva na pedra. Pedras que guardam animais na pele e no osso. Importante: faço isso sempre com minha câmera. Ela vai ali do meu lado, falando comigo. Esse filme que passa no Arte 1 é como fui encontrado pela imagem. Vejo o lugar que me vê”.
Antes de “Caruatá”, Carvalho fez um experimento a partir de sua convivência na cinema com Irandhir Santos. Ator dos mais versáteis do audiovisual latino-americano, no apogeu de seu sucesso popular no papel do vilão da novela “Amor de Mãe”, Irandhir tomou esta 40ena de assalto ao fazer o líder de uma cidadezinha de pescadores em “Piedade”, exibido no streaming do Espaço Itaú com enorme sucesso de público. E ele voltará a mobilizar a web numa outra latitude que não a da ficção…. a latitude documental… em “Iran”, fino experimento narrativo de Carvalho, que integra o seminário Na Real_Virtual, iniciado no último dia 20. Organizado sob a curadoria (e a mediação) do crítico Carlos Alberto Mattos e do cineasta Bebeto Abrantes, o simpósio está ocorrendo online, até 14 de agosto, às segundas, quartas e sextas. Participarão os documentaristas Petra Costa (nesta quarta, às 19h), Belisario Franca, Emilio Domingos, Gabriel Mascaro, Marcelo Gomes, Joel Pizzini e Rodrigo Siqueira. Já falaram Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães e Carlos Nader. Para conhecer a joia teórica o que Mattos e Bebeto lapidaram, basta acessar https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. Carvalho fala nesta sexta, explicando seu fascínio sobre o plano, a partir das 19h.

“A linha que sigo como um realizador, no caso documentário, é o curso de um rio. Ele vai se moldando a superfície por onde ele vai caminhando. Pode até ter um destino, vai desaguar em outro rio ou no mar, mas o que interessa é o percurso dele. Quantas vezes, ele semeia uma lavoura, ele abastece uma região, mas continua seguindo. Não existe uma linha reta, existe um percurso. A minha linha de atuação é um percurso”, poetiza Carvalho, ao Estadão. “Gosto de pensar que o filme deve alterar a percepção. Estar ciente, estar seguro significa para mim não estar aberto a possibilidade de ter a minha percepção alterada. Procuro que os meus filmes alterem a minha percepção, para poder eu estar me sentindo diante de algo que não conhecia. Se alguém, vendo o filme depois, que seja um vedor, vê de forma que se altere a sua subjetividade, acho que já cumpriu o dever e a função do filme” .

“Caruatá — Vejo o Lugar que Me Vê” é sobre o trabalho de Carvalho como fotografo de still, e não sobre sua obra como fotografo de cinema. “Já há algum tempo, venho praticando uma ação que ao fotografar o objeto no seu espaço, na natureza ou onde ele esteja, fotografo e, quando possível, levo esse objeto comigo e tiro ele daquele contexto. Ele vira objeto de exposição no meu espaço positivo. Se você tem o registro daquele objeto no campo, na natureza ou onde ele esteja, você tem o registro de sua representação bidimensional e você tem a possibilidade de contemplar o objeto em si. No caso do ‘Caruatá’, há uma impossibilidade de trazer o objeto que fotografei, não tenho como tirar do lugar. Aí estou para um segundo momento dessa minha questão, que é deixar alguma coisa de mim junto aquele objeto e situação que o vi. ‘Caruatá’ é, exatamente, o momento que não consigo levar e resolvi deixar de mim alguma coisa que ficou lá e não sei o que vai acontecer”.

Em “Iran”, objeto de análise de “Na Real_Virtual”, o que temos diante de nós é um spin-off do cult “Redemoinho”, usando imagens de bastidor deste longa de 2016, dirigido por José Luiz Villamarim a partir da prosa do mineiro Luiz Ruffato. Palavras de Ruffato ou do roteirista George Moura, “Iran” dispensa. Só ficam letras escritas e murmúrios. Fica Irandhir andando de bicicleta e se exercitando, sem que isso gere narrativa formal de travessia. É uma natureza experimental, que exponencia a busca recente de Carvalho, como realizador, investigando potências craitivas de artistas, sejam eles músicos (“Raul – O Começo, O Fim e o Meio”), poetas (“Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície”), menestréis (“Brincante”) ou… atores. Nesses outros filmes, víamos ainda uma estrutura de aproximação com entrevista, com observação direta de ações práticas. Tudo isso cai em Iran: sai o todo e fica a parte. A metonímia é a lei. “Conhecer demais o que você vai fazer, estabelecer parâmetros, regras, teorias para aquilo significa cortar a criatividade. Você abandona todas as possibilidades do acaso e da descoberta para cumprir uma tarefa que você elegeu os parâmetros antes”, explica Carvalho.
Maior fotografo de nosso cinema na atualidade, o diretor paraibano gera um fluxo visual de um preto e branco arrebatador. Em termos plásticos, é um filme de potência gigantesca. Mas encarar este experimento exige paciência. Muita… o próprio Carvalho usou o termo “crespo” para referir-se à sua forma gongólica, que não se apresenta de modo retilíneo. Mas é possível se extrair dele um prazer sensorial dos mais cálidos em sua contemplação sobre o Tempo, um tempo que nasce biológico (no corpo de Irandhir) e vira um tempo metafísico, ontológico. É algo que lembra o que Mario Peixoto fez em “Limite” (1931): um olhar sobre o fluxo e um pensamento a partir da lírica que o fluxo gera.
“Um plano, para ser construído, ele parece muito com o afresco da pré-Renascença, na minha cabeça. Pro afresco, prepara-se a argamassa. O embolso da parede onde você vai pintar e aquele reboco estão umedecido, tem muita água. Na medida em que você vai pintando o seu objeto, a tinta vai sendo absorvida e existe um tempo de secagem o afresco. Na mesma proporção, o plano tem um tempo de existência, você não pode demorar muito na elaboração dele, porque ele seca antes”, diz Carvalho. “É preciso construir o plano nessa ‘argamassa’ de forma que ele permita você distendê-lo no tempo e no espaço dentro do filme, como é o caso do Béla Tarr, que distende o plano dando uma impressão que os filmes dele se passam em tempo real. Não é que os planos sejam longos, eles possuem um tempo do mundo visível”.

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 29/7 – O eu filmado e minha família – Petra Costa. Filme: Elena
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

p.s.: À 1h50 desta madrugada, a Globo exibe “Força Maior” (“Force Majeure”, 2014), filme que deu fama (e controvérsia) ao sueco Ruben Östlund, ganhador da Palma de Ouro de 2017 por “The Square”. Indicado ao Globo de Ouro em 2015, o longa saiu de Cannes com o prêmio especial do júri da mostra Un Certain Regard, há seis anos. Sua trama foi refilmada este ano, com Julia Louis-Dreyfus e Will Ferrell, sob a direção de Nat Faxon e Jim Rash, com o título “Downhill”. No enredo original, um pai de família escandinava, Tomas (Johannes Bah Kuhnne), vê sua autoconfiança ruir durante uma viagem pelos Alpes Franceses. Durante uma avalanche, no hotel onde se hospedou com os filhos e a mulher, Ebba (Lisa Loven Kongsli), ele entra em pânico e foge, sem proteger seus entes queridos. Essa atitude fratura sua relação com Ebba e consigo mesmo. No Brasil, Rosangela Mello é a dubladora de Ebba e Felipe Grinnan (um dos maiores talentos do setor) dubla Tomas. A sessão tem projeção simultânea no Globoplay.

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