Voz brasileira de Stallone: 40 anos de dublagem

Voz brasileira de Stallone: 40 anos de dublagem

Rodrigo Fonseca

13 de setembro de 2021 | 17h49

Luiz Feier Motta em seu home studio em Caxias do Sul, num clique da filha, Lara Pereira Motta

Rodrigo Fonseca
Em cartaz nos cinemas como o vozeirão de Nanaue, o Tubarão-Rei do “Esquadrão Suicida”, o gaúcho Luiz Feier Motta faz parte do cotidiano brasileiro há quatro décadas, sendo que desde 1993, essa presença dele em nossos lares é mediada pelo gogó de Sylvester Stallone. É ele a voz brasileira ao eterno Rocky e do sempre inquieto Rambo. Desde “Risco Total”, ele dubla o astro, como é o caso agora nas aventuras de Nanaue. Aos 61 anos, Feier bateu um papo com o Estadão sobre a arte em que é craque e sobre o percurso que fez, de Caxias do Sul ao RJ, para se tornar um dínamo de seu ofício. Seus 40 anos de profissão são motivo de festa a todos os que entendem as potencialidades que a dublagem pode oferecer à fruição de um filme ou de uma série. Feier tornou o diálogo motivacional de Stallone em “Rocky Balboa” (2006) um ímã de lágrimas. E, falando de sua profissão, ele é um ímã de aplausos.

Depois de quatro décadas, o que essa palavra, “dublador”, tem de mais simbólico pra você? O que é a arte de dublar?
Luiz Feier Motta: Vejo o dublador como sendo de fundamental importância para os brasileiros, dentro de sua área de atuação. O dublador é a principal ponte, o principal elo, a principal ligação entre uma produção audiovisual estrangeira e o povo brasileiro, facilitando uma boa compreensão dessa produção por parte do espectador brasileiro. O dublador, com seu talento e sua voz, permite que o brasileiro entenda melhor os costumes, as histórias, as culturas, os aspectos políticos e sociais de outros países, por meio das produções audiovisuais dessas nações, sejam filmes de ficção, séries, documentários, programas de culinária, programas de turismo, programas de construção. Há muita variedade no mercado.

Como é que você se formou e como se firmou nesse mercado?
Luiz Feier Motta:
A minha formação em dublagem é essencialmente prática. Eu me formei na prática. Quando comecei, não havia curso de dublagem. Você ia ao estúdio e ficava assistindo a dublagens o máximo de horas possíveis que você tivesse disponibilidade para isso. Você aprendia vendo a atuação dos profissionais consagrados da época, tendo-os como referências. As minhas principais referências, não querendo praticar nenhuma injustiça, foram principalmente foram André Filho, Marcio Seixas, Isaac Bardavid, Newton Da Matta. Tive esses grandes dubladores como meus mestres e aprendi com eles. Eventualmente, um diretor dava uma oportunidade para você falar um “Oba!” ou um “Olá”, como se diz pras pequenas falas. É onde você começa. Depois, passa para uma frase um pouco maior. Dali no mês seguinte, são duas frases. E, assim, vai indo. O meu primeiro protagonista veio no filme “Ruas de Fogo”, o Tom Cody, do ator Michel Paré. Isso aconteceu em 1986, se minha memória não estiver me traindo. Isso veio cinco anos após ter começado. O tempo de uma faculdade. Aquele trabalho era como uma pós-graduação em dublagem. Hoje a coisa é um pouco mais fácil, em função dos cursinhos, que permitem que você aprenda mais rápido e se desenvolva. Eu trabalhava em rádio à noite e tinha o dia inteiro disponível para dublagem. Quando eu fazia alguma coisa mais importante em algum filme, eu ia à televisão e procurava conferir como tinha feito, para me corrigir para as próximas produções. Entra aí a frase do Stallone: “A vida bate duro e põe você de joelhos se você deixar”. Ela se encaixa como uma luva para qualquer pessoa que esteja querendo ir em frente, querendo ultrapassar todos os obstáculos, a fim de chegar lá. O único desafio que vejo hoje, na dublagem do Stallone, é procurar fazer sempre o melhor.

E como foram os primeiros passos no Rio de Janeiro?
Luiz Feier Motta:
Tudo começou porque, em 1981, participei de um concurso, do ator Jaime Barcelos”, que era divulgado na revista “Amiga”, na época da Bloch Editores. O concurso consistia de você apresentar um monologo, uma pecinha, para uns jurados. Depois, vinha a sua classificação. Eu fiquei em primeiro lugar. Era fevereiro de 1981. Isso que me levou até o Rio de Janeiro e, lá, participei do curso de formação de atores do Jaime Barcelos. Eu só não concluí a formação porque, em setembro daquele ano, comecei a trabalhar em rádio, e o curso era aos sábados. Esse era o dia que eu trabalhava durante o dia na rádio. Em função disto, tive que matar muita aula, a coisa foi se perdendo e eu acabei parando. Era um curso de um ano, de formação de atores. O professor Daniel Barcelos, filho do Jaime, lecionava interpretação. Nós tínhamos professores de coreografia, de dança e tudo o que um curso de formação de ator precisa ter. Lembro de quando fui conhecer o estúdio da Rádio Globo FM, na Glória. Eu vi aquela disposição dos móveis perfeitamente adequadas, vi os monitores de som gigantescos, vi o microfone à minha frente, vi a prancheta para colocar a programação, vi a lauda de programação, vi a lauda de notícias, vi os toca-discos, vi as cartucheiras. Que saudade! Foi uma paixão à primeira vista. Falei “quero isto para minha vida”. Fui aprendendo ali os detalhes, os atalhos para uma boa locução. Nos meus 61 anos completados agora em agosto, eu me sinto muito produtivo e quero permanecer assim por mais alguns anos, se a saúde permitir e as coisas andarem bem.
O que Sylvester Stallone, seu “boneco” (jargão da dublagem para personagem fixo) mais famoso, traz de mais desafiador pra você? Como você avalia a popularidade de que ele desfruta hoje?
Luiz Feier Motta:
Vejo o Stallone como um ídolo, um ícone. É um dos ídolos – ou talvez, o mais – longevo na História do cinema. É um ator que possui uma regularidade espantosa: todos os anos, ele estrelou algum filme, quando não dois. A partir de “Rocky – Um Lutador”, ele sempre manteve uma regularidade impressionante. Se não fez aquele sucesso estrondoso, em um determinado filme, marcou de alguma maneira a História, no seguimento que escolheu para seguir, a ação. Vejo-o como um exemplo a ser seguido, ele saiu do nada com a produção de “Rocky”, e até empenhou o próprio cachorro para poder realizar o filme, quando ninguém quis apostar nele, a não ser ele mesmo. É referência a ser seguida sempre, independentemente se é ou não um bom ator, se tem ou não aquele talento gigantesco. Ele não tem, mas é um cara inteligente, batalhador, e cumpriu uma função social, a meu ver, significativa. Quantos empregos e quanta renda ele não gerou ao longo desses anos todos com as produções dos filmes dele? O único desafio que vejo hoje, na dublagem do Stallone, é procurar fazer sempre o melhor. Já o conheço como se ele fosse meu irmão, já dublo ele com mais facilidade. No começo, foi difícil, mas, hoje, já conheço o ator, conheço alguns detalhes dele. Facilita bastante o trabalho, mas o desafio é sempre procurar fazer o melhor, para que a dublagem dele fique sempre boa no Brasil.

Como é a sua jornada de trabalho aí em Caxias do Sul na dublagem e na locução? Quanto tempo você dedica por semana ou por dia à dublagem?
Luiz Feier Motta:
Em Caxias do Sul, eu montei o meu home studio com qualidade profissional. Se não fosse assim, não poderia nem trabalhar. Tenho equipamentos de primeira linha e tudo o que é necessário para um trabalho de qualidade. Trabalho, graças a Deus, semanalmente. Raramente, fico um dia sem trabalho, por exemplo. Raramente passa um dia que eu não faça nada. Em termos de dublagem ou de locução, sempre tem alguma coisa para fazer. No Brasil, gravo para a Bahia, gravo para o interior de São Paulo, gravo para o Pará, pro Ceará, pro Rio Grande do Sul… tem bastante coisa. Dificilmente, fico sem fazer nada durante um dia, graças ao nosso bondoso criador.

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