‘Vórtex’ une Gaspar Noé à prata do giallo: Dario Argento

‘Vórtex’ une Gaspar Noé à prata do giallo: Dario Argento

Rodrigo Fonseca

08 de agosto de 2021 | 20h48

Mestre dos gialli, o horror à italiana, o diretor romano Dario Argento, aos 80 anos, vira a sensação de Locarno, ao lado de Françoise Lebrun, em “Vortex”

Rodrigo Fonseca
Revelado mundialmente em 1991, com o curta “Carne”, feito depois de seis anos de carreira, o franco-argentino Gaspar Noé, de 57 anos, dirigiu 32 produções, de 1985 até hoje, tendo a joia “Irréversible” (2002) como o holofote de uma obra de altos e baixos criativos (e muita inércia), mas na qual nunca faltou provocação, nem ódio à moral imposta. “Clímax”, de 2018, pelo qual ele veio ao Brasil, com direito a um pulinho na locadora e produtora Cavídeo, de Cavi Borges, é um dos pontos altos de uma travessia irregular pelos pântanos da ousadia. Mas há algo de (muito) novo vindo do front em que ele guerreia desde os anos 1980 e que fez o 74º Festival de Locarno, em terras suíças, chorar no fim de semana: “Vórtex”. Trata-se da experiência mais próxima do conceito de obra-prima feita por ele nos últimos 19 anos. É um tristíssimo conto existencial (e psicanalítico) sobre o envelhecimento e as dicotomias da memória (em analogia ao próprio cinema e seus suportes, os físicos e os digitais), narrado sempre com uma divisão da tela. De um lado vemos, quase todo o tempo a atriz Françoise Lebrun, no papel de uma mulher às voltas com o Alzheimer, e, ora ou outra, seu filho drogadito, vivido por Alex Lutz. Do outro lado vem a apoteose desse “filme saudade”: mestre do terror Dario Argento, mestre das cartilhas do giallo, o horror à italiana. Hoje octogenário, o realizador de “Suspiria” (1977) e “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970) interpreta um diretor que está às voltas com a escrita de um livro, chamado “Psiquê”, sobre sonhos e o audiovisual. E fora essa escrita, datilografada, a rotina dele é ocupada pelo esforço hercúleo de proteger sua companheira, sempre roubada de sua lucidez por apagões em suas recordações. Numa bifurcação do écran, Nóe desfia o novelo de duas vidas ameaças pelo Tempo, esse danado.
“Tenho lembranças da descoberta do cinema e associo o que lembro ao medo. Mas um medo que me dá o prazer do fascínio”, disse Argento ao Estadão no fim de 2020, após ter recebido uma homenagem no Ca’ Foscari Short Film Festival, em Veneza. “Quando eu ainda era muito jovem… era criança… eu cheguei perto do que se entende como terror, pela primeira vez, ao acompanhar meus pais a uma exibiço de “O Fantasma da Ópera”, com Claude Rains. Aquilo me fascinou num lugar muito estranho. Esse fascínio se estendeu quando, adolescente ainda, eu descobri o expressionismo alemão e um certo cinema americano dos anos 1940, produzido por Val Lewton. Mas depois que eu virei crítico, a dimensão de assombro que me interessava era Bergman e Buñuel. Já no estilo, a principal influência que tive foi a Nouvelle Vague. Os franceses, com sua liberdade, é que ofereceram a mim a autonomia que precisava para abordar o terror de uma maneira bem particular, trabalhando com a psicanálise”.

Na conversa com o P de Pop, ele não falou de Noé, mantendo em segredo o projeto “Vórtex”, que homenageia sua produção autoralíssima com uma menção à trilha sonora de “Era Uma Vez No Oeste” (1968), de Sergio Leone (1929-1989), do qual ele foi roteirista. “Sergio não sabia escrever personagens femininas, não pensava situações potentes para mulheres e me chamou para dar uma esmerilhada na equidade de gêneros nesse seu western seminal”, contou Dario, que preferiu falar do novo filme que está preparando, à frente da realização: “Occhiali neri”, um giallo dos boms. “Eu tenho como protagonista uma mulher que acaba de perder a visão e passa a ser perseguida por alguém que não consegue ver. Eu sempre investi na força do feminino em minhas histórias”.
Nesta segunda, Noé vem a Locarno defender “Vórtex” e explicar como dirigiu Argento, que aparece em situações corriqueiras, roncando, em seus pijamas; fumando; datilografando; ou visitando um sebo. “Quero investir agora na narrativa onde o real aparece em seu estado bruto, para que ninguém possa me acusar de fazer trucagens, de ser sexista, do que for. Hoje, o cinema é dominado por produtos massificados que têm por objetivo gerar satisfação. Um cara que não se encaixa nessa medida de prazer, como eu, é visto como uma exceção torta”, disse Noé ao visitar o Rio, há dois anos.
Ainda de Locarno…

Cena de “Sis Dies Corrents”

Deu Espanha na cabeça por aqui, no domingo, com a exibição para o público de uma comédia híbrida de conceitos documentais e da tal de “autoficção” chamada “Sis Dies Corrents” (ou “The Odd-Job Men” ou ainda “Os Faz-Tudo”). Com tempero catalão, o filme da diretora Neus Ballús colhe histórias de três profissionais autônomos que fazem de tudo, desde obras até bico de eletricista, numa Europa em trânsitos econômicos engarrafados, abalados pelas crises de $ no Velho Mundo. Dois desses personagens são espanhóis (e se orgulham demais disso) e um, o bombeiro hidráulico Moha, é um marroquino. Nenhum deles é ator, mas eles estão em cena atuando, recriando situações que eles viveram no passado e contaram à realizadora. Fala-se de prêmio de público e mesmo de um Leopardo qualquer, talvez o Grande Prêmio do Júri, uma vez que o longa está em concurso.
Só houve uma bola fora neste domingo em Locarno, mas que não foi culpa do festival e, sim, do diretor japonês Mamoru Hosoda, que errou tudo (e mais um pouco) no desenho “Belle: Ryu to Sobakasu no Hime”. Lançado em Cannes, em julho, o novo animê do realizador de “Mirai” (2018) terá projeção de gala na Piazza Grande em celebração de um prêmio honorário, ligado ao universo infantil, a ser entregue ao cineasta. Seu cinema é marcado por uma exuberância plástica, no traço e no uso de cor, que não se faz notar em sua nova história, deveras datada, e muito submissa ao trabalho dele no seriado “Digimon”, exibido na Globo nos anos 2000. O que se vê no novo longa dele é um resgate, sem brilho, do Second Life, o ambiente digital em que internautas viviam uma realidade paralela. Na trama, uma adolescente deprimida ganha um novo ânimo de viver ao entrar numa plataforma virtual em que ela se torna a cantora Belle, amada por milhões de seguidores. Mas uma criatura com feições de Minotauro vai cruzar seu caminho e gerar estragos, numa narrativa gongólica.

Reverberou muito bem cá por Locarno “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis, um dos curadores da Mostra de Tiradentes, em concurso na Suíça na seção Pardi di Domani. Seu envolvente curta dialoga com a recente onda do “extraordinário”, ou seja, a vigência de vetores do inexplicável e do metafísico entre nós, a partir de um olhar, nas margens do terror, para o apocalipse em uma fábrica do ABC Paulista. Difícil não pensar na luz de “Christine, o Carro Assassino” (1983) diante da fotografia de Alice Andrade Drummond e Bruno Risas. A sequência de uma discussão sobre os rumos de uma linha de montagem evoca desde o seminal “A Classe Operária Vai ao Paraíso” (Palma de Ouro de 1972), do italiano Elio Petri, até o português “A Fábrica de Nada” (2017), de Pedro Pinho. A montagem de Cristina Amaral leva o clima sombrio à ebulição. Dia 12 vemos cá outro curta brasileiro: “Fantasma Neon”, musical de Leonardo Martinelli, com Dennis Pinheiro em uma atuação magistral, ao lado de Silvero Pereira, o Lunga de “Bacurau” (2019).

Não binário, Bertrand Mandico refuta rótulos e desfruta de favoritismos na corrida ao Leopardo de Ouro de 2021

Nesta quinta, Locarno vê o mais esperado dos concorrentes ao Leopardo de Ouro de 2021: “Zeros and Ones”, de Abel Ferrara, com Ethan Hawke em meio a uma conspiração, tendo a covid-19 como pano de fundo. Até aqui, fora “Sis Dies Correntis”, o longa com a maior (e a melhor) reverberação é o francês “After Blue (Paradis Sale)”, de Betrand Mandido, um delírio visual que esbanja charme em sua direção de arte. Nele, o-a cineasta, que se define uma pessoa não binária, bebe das águas da fantasia, criando um mundo em que (segundo as personagens) “só pessoas com ovários” sobrevivem, numa alegoria multicolorida sobre a força do feminino. A estética queer de seu longa anterior, “Os Garotos Selvagens” (2017), fez dele-dela (que é como Bertrand se define) um queridinho da revista “Cahiers du Cinéma”, a bíblia do audiovisual. “A fantasia nos dá um parâmetro de distanciamento para ver e redesenhar o mundo. E eu tiro muito da fantasia das HQs”, disse Mandico ao Estadão.
Locarno termina no dia 14, com a exibição de “Respect”, cinebiografia de Aretha Franklin (1942-2018), com Jennifer Hudson e Marlon Wayans (este, em estado de graça), sob a batuta da diretora Liesl Tommy.

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