‘Voluntário****1846’, vacina contra a intolerância

‘Voluntário****1846’, vacina contra a intolerância

Rodrigo Fonseca

01 de agosto de 2021 | 06h37

Sandra Kogut leva à Globo News e ao Globoplay um estudo sobre voluntários da vacinação contra a covid-19

Rodrigo Fonseca
Nas primeiras linhas de sua resposta ao Estadão, para falar sobre seu novo documentário, “Voluntário **1864 – quem são os anônimos da vacina?”, que estreia neste domingo na grade da Globo News, e também no Globoplay, a diretora Sandra Kogut digita um soluço de indignação: “Escrevo aqui arrasada com esse incêndio na Cinemateca…”. O papo dela com o P de Pop se deu em meio ao horror das chamas que reduziram parte poética do Brasil a cinzas. A reação dela somatiza o choque diante do desmantelo de uma nação. Mas o filme que a realizadora do premiado “Mutum” (troféu Redentor de melhor filme no Festival do Rio 2007) lança esta noite, às 23h, no canal de notícias da Globo, com reprise no dia 7/8, às 20h35, é um gesto de resistência ao desmanche de uma pátria pela ótica de pessoas que disseram “Sim!” às vacinas contra a covid. Seu filme é uma espécie de cartografia histórica da preservação do Brasil, em suas veias abertas.
Tudo começa em agosto de 2020, quando o Brasil atingiu a lastimável marca de 100 mil mortos pela Covid. Enquanto isso, o governo seguia numa atitude negacionista e sua política de combate à pandemia parecia se resumir às duas palavrinhas ditas pelo presidente: “E daí?”. Naquela altura, muitos brasileiros se perguntavam se seguir a Ciência tinha se tornado algo subversivo e se sentiam prisioneiros de um país que não reconheciam mais. Mas, em meio a essa tragédia, brilhava um lampejo de esperança: as vacinas. No mesmo mês, estudos de fase três foram anunciados no país. E quem eram as pessoas que estavam se candidatando a ser voluntárias destes estudos? Por que tinham decidido fazer isso? Será que não tinham medo? Em plena quarentena, na impossibilidade de ir ao encontro dos nossos personagens, Sandra decidiu transformá-los em cineastas, levando-os, em meio à produção de um diário clínico para o estudo, a criarem um diário pessoal. Durante 9 meses, eles abriram para Sandra as suas casas, as suas vidas, permitindo à cineasta a chance de rodar um documentário à distância, na intimidade do lar de cada um. São personagens muito diferentes, em vários cantos do país.
Na entrevista a seguir, Sandra – hoje no páreo do troféu Platino, o Oscar da latinidade, a ser realizador em outubro, na Espanha, com seu aclamado “Três Verões” – fala sobre a educação formal e sentimental que veio de saldo ao longo da feitura de “Voluntário **1864 – quem são os anônimos da vacina?”, definindo-o como uma carta para o futuro.

Conversas online para o filme

Pensando no ethos jornalístico de uma Globo News, onde, como, quando e por quê a pandemia, como fenômeno histórico, como tempo histórico, torna-se personagem do seu .doc? O que é esse “personagem”… essa tal pandemia… e como você a aborda?
Sandra Kogut:
Em termos do tempo. O tempo do documentário é muito diferente do tempo jornalístico, ele é outra maneira de processar e olhar. Esse filme é completamente assim. Quando entrei nele, não tinha a menor ideia do tempo que iria levar, os estudos poderiam demorar anos, as vacinas poderiam nunca acontecer ou demorar mais tempo. Você entra numa situação do desconhecido e, ao mesmo tempo, isso é a força do filme. Você está vivendo uma experiência… que é fazer um filme… e não sabe onde vai chegar. Isso é completamente diferente da abordagem de um canal de notícias. Eu estava lidando com um assunto que estava acontecendo, não teria tempo de tentar levantar esse filme no ritmo que você levanta um documentário com editais. Ainda se essas coisas estivessem funcionando no Brasil, esse tempo também não daria. Logo, eu tive que começar imediatamente. Quando eu tive a ideia de fazer esse .doc, eu tive que começar no dia, no momento. Primeiro, comecei sem nada, porque queria muito fazer, no risco. Trabalhei com o Henrique Manduf, que foi meu assistente, e o Bruno Rosa, que foi pesquisador. Por um tempo, todo mundo trabalhou sem receber, investindo no filme. Foi chegando um momento em que aquilo foi se tornando inviável, ao mesmo tempo, que eu não conseguia nem pensar em parar, porque seria uma frustração gigante. Essa oportunidade de ter o apoio da Globo News e do Globoplay, foi o que fez esse filme estar existindo, foi o que viabilizou essa produção inclusive no tempo. Se não tivesse existido assim, ele não seria feito.
E como ele demarca o tempo histórico dessa pandemia?
Sandra Kogut:
Acho que esse filme tem duas temporalidades. Por um lado, ele tem esse efeito quente, no calor da hora, no impacto do momento, pois estamos todos filmando enquanto a pandemia acontece, sem distanciamento. Ao mesmo tempo, acho que ele é quase uma pedra bruta e se mantém muito vivo por conta disso. A gente olha para esse ano que ele retrata e todos nós vivemos um pouco daquilo ali. Parece que ainda estamos vivendo aquilo ali. Ele é esse mergulho no presente e, em simultâneo, ele é uma carta para o futuro. Vai ser muito impactante, daqui a uns anos, olhar para esse filme. Ele funciona nesses dois tempos. Hoje nós temos muita consciência que estamos vivendo um momento histórico. A pandemia fez todo mundo pensar isso, mas, no Brasil, tem um agravante de estarmos vivendo um tempo muito extremo politicamente. Claro que um dia vão estudar isso tudo e esses voluntários possuem muita consciência disso. Eles estão apostando no futuro, querem ter o orgulho de um dia contar para os filhos e netos que estiveram do lado certo da história. O filme tem essa temporalidade também: ele também é uma carta para o futuro.

Personagens como Rosália Nascimento compartilham suas rotinas com o espectador do .doc da realizadora de “Mutum” (2007)

De que maneira o seu .doc dialoga com as investigações jornalísticas da Globo News (se é que o faz, por que e por que não?) e de que maneira – em sua marca autoral de fazer filmes sobre personagens – você apresenta esses seus personagens em relação ao debate sobre a vacinação no país?
Sandra Kogut:
Ele não é um documentário jornalístico, ele quase o contrário, o avesso disso. É quase como se, de repente, a televisão parasse para assistir os seus telespectadores. É quase inverter a relação. As notícias que aparecem ali, aparecem pelo olhar dos personagens. Tem um prólogo, onde me posiciono e, depois, todos estão vendo as notícias. Não é nada jornalístico, é uma abordagem pelo lado simplesmente humano porque me interesso demais em olhar para isso. Como a grande História (com H maiúsculo) e o Poder ecoam na vida do cidadão comum, daquela pessoa que somos todos nós: o seu vizinho, seu colega, um amigo seu. Como nós vivemos as consequências do poder e dos governos? Eu me interesso demais por isso e acho até que o “Três Verões” é um pouco isso também. É você olhar para como aquilo está ecoando naquelas pessoas que não estão no centro do quadro. Esse filme é isso, ele não está na notícia que a gente costuma ver. Essa notícia já está com a gente, já sabemos que ela existe. Ele está nas consequências que essas noticiais trazem para a vida do cidadão comum.
O que essa incursão no projeto – ético – de se vacinar um país te revelou sobre a relação da população brasileira com seus mitos com suas falsas notícias e meias verdades?
Sandra Kogut:
O Brasil, se você olhar, tem uma tradição de vacinação, é inclusive um país exemplar em campanhas de vacinação e em capilaridade do SUS. Tem um histórico que a gente até não conhecia tão bem. Esse histórico tornou-se um assunto, recentemente, na pandemia, com esse choque de ver um governo negacionista e contra vacinas. Você acreditar na Ciência, vacinar-se e fazer qualquer coisa a mais, que esteja relacionada ao processo civilizatório, passou a ser algo subversivo no Brasil. Coisas que a gente achava que já estavam decididas passaram a ser grandes questões. A gente passa muito tempo no Brasil debatendo o óbvio. Nunca imaginei que, em pleno século 21, eu teria que dizer que defendo a Ciência, pois a gente achou que isso já era uma coisa resolvida. É um momento muito excepcional que estamos vivendo. Acho que existe um Brasil escondendo outro Brasil, e a gente precisa tomar cuidado com isso. Esse filme mostra aquele Brasil de que a gente se orgulha, no qual a gente se reconhece, do qual a gente sempre achou que fez parte e está um pouco obscurecido por esse outro Brasil da extrema direita, do fanatismo e da desinformação, que é muito barulhento, violento e autoritário, mas que, na verdade, não é o Brasil… É só um pedacinho do Brasil.
Como a luz, na fotografia, de um filme desse é construída?
Sandra Kogut:
Esse filme colocou um dispositivo, uma maneira de fazer, que mudou tudo. No começo, eu até tentava organizar a luz, determinar onde a pessoa iria sentar, pensar o enquadramento, mas fui percebendo que não era uma boa ideia, pois ia congelando tudo e criando muita tensão. Ao longo desse filme, o grande desafio foi tentar fazer as pessoas lidarem com a sua ferramenta, sua câmera e o seu telefone, o mais próximo possível da vida, sem estarem se preocupando se está enquadrado, se a luz está boa e esse tipo de coisa. Queria mesmo era estar tentando traduzir algo que a pessoa, à nossa frente, está sentindo e vivendo, registrar um momento. É curioso quando você olha para essas imagens amadoras. Elas possuem uma força emocional que a gente não conseguiria recriar numa imagem mais profissional. Parece que estamos na cabeça deles. A gente se sente como eles, são eles fazendo. Isso foi parando de me incomodar, começou a ser uma força, no lugar de ser um problema. O que começou como uma limitação se revelou uma ferramenta muito poderosa para fazer um filme.

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